O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, acredita que a autorização temporária da organização dá aos países confiança para agilizar a aprovação regulatória para importação de vacinas chinesas.

Ghebreyesus, um político eleito em meados de 2017 com forte apoio da China, e com pretensão de permanecer chefiando a OMS por mais 5 anos, vem repetindo o bordão “não podemos descansar até que todos tenham acesso” à vacina.

A decisão de listar a vacina da Sinovac para uso emergencial certamente atende a emergência do consórcio Covax, iniciativa liderada pela OMS/Ghebreyesus, para proporcionar vacinas sobretudo para países pobres, que tem deixado de cumprir suas metas por problemas de abastecimento, especialmente com remessas do cada vez mais problemático imunizante da AstraZeneca, principal fornecedora do Covax.

As farmacêuticas chinesas tem o potencial de aumentar o suprimento de vacinas covid e acelerar a entrega de imunizantes para países de baixa renda.

No início de maio, o imunizante BBIBP-CorV foi a primeira vacina produzida na China a receber o aval da da agência de saúde da ONU, ainda que os técnicos da OMS tenham formalmente expresso “confiança muito baixa” nos dados fornecidos pela farmacêutica estatal chinesa Sinopharm.

Entre as “lacunas de indícios” da BBIBP-CorV, o relatório apontou falta de dados sobre a proteção contra formas graves da doença; duração da proteção; segurança no uso em gestantes e em idosos; e identificação e avaliação de eventos adversos raros por meio do monitoramento de segurança pós-autorização.

No caso da CoronaVac, a liberalidade se repetiu. Embora os ensaios clínicos do imunizante tenham incluído número inexpressivo de voluntários com mais de 60 anos, a OMS não estabeleceu um limite máximo de idade para a vacina de vírus inativados. Segundo a organização da ONU, os dados de imunogenicidade sugerem que o imunizante provavelmente tenha um efeito protetor em idosos também.

A esperança não é uma estratégia.

De acordo com o Dr. Babak Javid, pesquisador principal da Tsinghua University School of Medicine, Pequim, e consultor em doenças infecciosas dos hospitais da Universidade de Cambridge, é sabido pelos especialistas que as "vacinas inativadas tendem a funcionar menos bem em idosos".

No início de maio, o Dr. Gao Fu, Diretor-Geral do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças, disse na Conferência Nacional de Vacinas e Saúde em Chengdu, que a agência está “considerando como resolver o problema de que a eficácia das vacinas existentes não é alta”.

"Agora está sob consideração formal se devemos usar vacinas diferentes de linhas técnicas diferentes para o processo de imunização", disse Gao.

O cientista chinês propôs misturar diferentes tipos de vacinas e também alterar o número e a quantidade das doses e o intervalo entre elas.

Gao também alertou que a reabertura das fronteiras da China para estrangeiros, que estão impedidos de entrar no país desde março do ano passado, representa um risco para os idosos, que ainda não foram vacinados – na China, a prioridade de vacinação não foi estabelecida por faixa etária.

O momento do relaxamento das restrições de fronteira afetará os participantes dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, em fevereiro de 2022.

Em uma coletiva de imprensa, um funcionário do CDC China, Wang Huaqing, disse que os desenvolvedores chineses estão trabalhando em vacinas de mRNA (tecnologia utilizada nos imunizantes da Pfizer/BioNTech, Moderna e CureVac) e já entraram em fase de ensaio clínico.

Vacina Fique em Casa

O estudo Effectiveness of the CoronaVac vaccine in the elderly population during a P.1 variant-associated epidemic of COVID-19 in Brazil: A test-negative case-control study, publicado em 21 de maio em pre-print, mostrou pífia efetividade da CoronaVac entre idosos, comprovando a baixa eficácia da vacina (50%) observada no ensaio clínico de fase 3 com voluntários brasileiros jovens e sadios.

O estudo abrangeu o período entre 17 de janeiro e 29 de abril, quando a vacinação com um esquema de duas doses da CoronaVac foi implementada em São Paulo.

A vacina desenvolvida e fabricada pela farmacêutica chinesa é chamada de "Vacina do Butantan" pelo governo paulista.

Dentre 26.433 pacientes com casos de covid-19 e 17.622 pessoas com teste negativo, foram selecionados 7.950 indivíduos de cada grupo, gerando um total de 15.900 participantes avaliados com média de idade de 76 anos.

A efetividade média da CoronaVac em idosos acima de 70 anos foi de 18% (IC 95%: 0-33%) até 13 dias após a 1ª dose.

Após 14 dias da 2ª dose, a efetividade para maiores de 70 anos foi de 42% (IC 95%: 27-53%). No grupo de idosos com 80 anos ou mais, a efetividade foi de apenas 28% (IC 95%: 0,6-48%).

Segundo o médico epidemiologista Otávio Ranzani, primeiro autor do artigo, a pesquisa não encontrou efeito protetor na primeira dose da vacina, um achado importante para programas de imunização.

“É preciso que os programas garantam a segunda dose da CoronaVac, no tempo recomendado, para todos”, ressalta Ranzani. “Os programas devem planejar uma otimização na vacinação dos idosos a partir de 80 anos e frágeis, seja com reforço ou troca de tipo de vacina, porém isso precisa ser estudado ainda”.

"Os achados sublinham a necessidade de manter intervenções não-farmacêuticas [máscaras, distanciamento, confinamentos, lockdowns] quando a vacinação em massa com CoronaVac é usada como parte de uma resposta à epidemia", destaca o artigo.

O estudo teve a participação de pesquisadores da USP, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Avaliação em Tecnologias em Saúde (INCT-IATS), Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Instituto de Saúde Global de Barcelona, Universidade da Flórida, Universidade de Yale e Universidade de Stanford.

Passaportes de vacinação

A autorização da OMS levanta a questão se viajantes imunizados com as vacinas chinesas serão recebidos nos países-membros da organização que estão adotando passaportes de vacinação para entrada, onde imunizantes não aprovados pelos reguladores locais são considerados placebos.

Para integrantes do governo brasileiro, a autorização abre caminho para que outros países aceitem a entrada de pessoas vacinadas com as duas doses da CoronaVac, com a abertura de fronteiras esperada para os próximos meses.

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