Segundo a Reuters, o documento de “avaliação de indícios”, preparado pelo Grupo Estratégico de Aconselhamento de Especialistas da OMS (Sage) para revisão da vacina da Sinopharm expressa “confiança muito baixa” em dados fornecidos pela farmacêutica.

Entre as “lacunas de indícios”, o texto citou dados sobre a proteção contra formas graves da doença, a duração da proteção, a segurança no uso em gestantes e em idosos e a identificação e avaliação de eventos adversos raros por meio do monitoramento de segurança pós-autorização.

“Temos uma confiança muito baixa na qualidade dos indícios de que o risco de eventos adversos raros após uma ou duas doses da BBIBP-CorV em adultos mais velhos é baixo”, diz o texto.

“Temos uma confiança muito baixa na qualidade dos indícios de que o risco de eventos adversos raros em indivíduos com comorbidades ou estados de saúde que aumentam o risco de covid-19 grave após uma ou duas doses da BBIBP-CorV é baixo”, acrescentou o documento. “Uma análise de segurança entre participantes com comorbidades (foi) limitada pelo número baixo de participantes com comorbidades (que não obesidade) no teste de estágio avançado”.

Sem nenhum dado de ensaio clínico de Fase 3 publicado em revista científica revisada por pares, a eficácia das várias vacinas chinesas há muito é incerta. Combinado com a vasta história de escândalos de vacinas na China, elas são menos bem-vindas nos países desenvolvidos em comparação com as economias emergentes.

Contudo, o diretor-geral da agência de saúde da ONU, Tedros Adhanom Ghebreyesus, espera que a autorização temporária da OMS dará aos países confiança para agilizar a aprovação regulatória para importação do produto chinês.

"Nesta tarde, a OMS deu autorização para uso de emergência para a vacina contra a covid-19 da Sinopharm Pequim, tornando-a na sexta vacina a receber validação da OMS quanto a segurança, eficácia e qualidade", disse Ghebreyesus em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (7).

“Isto amplia a lista de vacinas contra Covid-19 que o Covax pode comprar, e dá aos países a confiança para acelerar sua própria aprovação regulatória e importar e administrar a vacina”, acrescentou.

O fato é que reguladores de dezenas de países, especialmente os mais pobres na África, América Latina e Ásia, já concederam permissão para o uso emergencial de imunizantes da China, que tem exercido a chamada "diplomacia da vacina" nessas regiões.

A vacina candidata da Sinopharm alegadamente acumula 65 milhões de doses administradas em 45 países desde junho de 2020. A também chinesa Sinovac Biotech, diz que já foram injetadas 270 milhões de doses de sua vacina experimental CoronaVac, 60% delas usadas em 37 países e instituições.

Esse amplo uso "reflete o fato de que muitos governos estão desesperados por suprimentos de vacinas, especialmente porque muitos outros países produtores de vacinas, como os EUA, [União Europeia] e Índia, priorizaram seu programa doméstico de vacinação sobre as exportações", disse Imogen Page-Jarrett, analista para a China da The Economist Intelligent Unit, ao Nikkei Asia.

Tornou-se um truísmo que o novo coronavírus não pode ser derrotado até que todos no mundo sejam vacinados. Um outro truísmo é que o programa de vacinação deve ser realizado o mais rápido possível, em todos os lugares.

As farmacêuticas chinesas potencialmente podem aumentar o suprimento de vacinas covid e acelerar a entrega de imunizantes para países de baixa renda.

Ghebreyesus, eleito diretor-geral da OMS em meados de 2017 com forte apoio da China, e com pretensão de permanecer no cargo por mais 5 anos, tem defendido publicamente que “não podemos descansar até que todos tenham acesso” à vacina.

A decisão de listar a vacina da Sinopharm para uso emergencial dará um impulso substancial ao programa Covax, iniciativa liderada pela OMS/Ghebreyesus para proporcionar vacinas sobretudo para países pobres, que tem deixado de cumprir suas metas por problemas de abastecimento, especialmente com remessas do problemático imunizante da AstraZeneca, principal fornecedora do Covax.

Cerca de 53 milhões de doses de vacina foram enviadas para 121 participantes do Covax, cuja meta é fornecer 2 bilhões de doses este ano para 190 países.

Previa-se que a Índia forneceria mais de 80% das doses do Covax, mas o governo indiano pressionou o Serum Institute – o principal produtor de vacinas do país – a interromper as exportações desde abril, disse Page-Jarrett.

A adição da vacina da Sinopharm ao programa Covax "tem o potencial de acelerar rapidamente o acesso à vacina covid-19 para os países que buscam proteger os profissionais de saúde e as populações em risco", disse em um comunicado a Dra. Mariangela Simão, diretora-geral assistente da OMS para acesso a produtos de saúde. “Instamos o fabricante a participar do Covax Facility e contribuir com o objetivo de uma distribuição mais equitativa da vacina”.

Bruce Aylward, conselheiro sênior da OMS, disse que caberá à Sinopharm dizer quantas doses de sua vacina pode fornecer ao programa, mas acrescentou: “Eles estão pretendendo tentar fornecer um apoio substancial, tornar doses substanciais disponíveis ao mesmo tempo, é claro, em que tentam servir a população da China”.

* Com informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), Nikkei Asia, Reuters

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