A 34ª Bienal de São Paulo adotou um novo formato, criando uma multiplicidade de situações distintas em que o encontro entre as obras e o público pode ocorrer.

O tema da edição, Faz escuro mas eu canto, escolhido em 2019, é um verso do poeta Thiago de Mello, publicado no livro de mesmo título em 1965.

Em sua obra, o poeta amazonense fala sobre os problemas e esperanças de milhões de pessoas em todo o mundo: “A esperança é universal, as desigualdades sociais também são universais [...]. Estamos em um momento em que o apocalipse ganha na utopia. Já faz algum tempo que escolhi: entre o apocalipse e a utopia, fico com a utopia”.

"Esse mesmo verso ganha, sucessivamente, sentidos de protesto, de resistência, de luta, e de esperança. Então, para nós, retomar esse verso hoje é uma forma de lembrar que uma obra pode continuar transformando seus sentidos também", diz Paulo Miyada, curador adjunto da mostra.

A 34ª Bienal foi desenvolvida pelo artista e designer Vitor Cesar com Fernanda Porto, Julia Pinto e Deborah Salles. “Em vez de sintetizar uma única imagem, buscamos vivenciar uma pluralidade visual em que seja possível transitar entre a clareza e a complexidade com recursos criados a partir de ideias como encontros, cruzamentos, ligações, vincos, dobras e relevos”, explica o designer.

Com uma montagem sem acúmulos de trabalho ao longo do pavilhão, a mostra parece ora aproveitar-se dos espaços vazios e generosos, ora lançar mão de nichos mais íntimos, criados por meio de estruturas que compartimentam os espaços. Feitas com três tipos de materiais – juta, polietileno e madeira –, as divisórias quebram a monotonia do espaço vazio e criam espaços intermediários entre a escala do corpo e a urbana.

É como se fossem camadas de memória no tempo e no espaço, explicou Carla Zaccagnini, uma das curadoras convidadas, em coletiva na quinta-feira (2).

Fica evidente, ao observar os trabalhos selecionados, uma convivência no mesmo espaço de tônicas distintas, com trabalhos de grande teor crítico, como o ameaçador labirinto de Regina Silveira, convivendo com expressões mais sutis e históricas, como o delicado exercício pictórico de Giorgio Morandi (1890-1964) ou Eleonore Koch (1926-2018).

Mundus Admirabilis

Uma das mais importantes artistas em atividade no Brasil, que há quase seis décadas busca novas formas e ferramentas de expressão, Regina Silveira ganha este ano, além da mostra individual no pavilhão, uma retrospectiva no Museu de Arte Contemporânea da USP – Regina Silveira: Outros Paradoxos, dentro da programação da 34ª Bienal de São Paulo.

Frequentadora do circuito internacional, Regina está sempre se reinventando. O trabalho da artista plástica de 82 anos é caracterizado pelo pioneirismo e constante experimentação de técnicas e materiais, desde as gravuras dos anos 60 e as novas mídias dos anos 70, passando por instalações e intervenções urbanas, até chegar aos recentes processos digitais.

A presença do labirinto na obra de Regina Silveira ocupa novamente o imaginário da artista no trabalho Paisagem, um labirinto de chapas de vidro estilhaçadas por balas de revólver, que desafia o visitante a enfrentar o impacto de um disparo. Materialização da série de labirintos gráficos dos anos 1970, a instalação interativa de 10m2 produzida pela artista gaúcha para a 34ª Bienal é um exemplo de representação metafórica da violência urbana que atingiu o paroxismo.

Tudo o que o visitante da Bienal vai ver, garantiu Regina ao Estadão, foi extraído dessa violência que circula pela Internet e outras mídias, das fotografias dos jornais ao noticiário da televisão.

"O Brasil nunca chegou a se consertar", resume Regina, que, em 2018, participou da mostra Future Shock com seu Mundus Admirabilis, um site-specific gráfico na fachada de vidro do museu de Santa Fe, que usava insetos como uma alegoria da corrupção global e da degradação ambiental.

"O título era extraído do livro homônimo de Alvin Tofler, para mostrar que esse choque do futuro, que ele mencionava nos anos 1970, já chegou", disse ao Estadão.

"Claro, não é rigorosamente a mesma situação dos anos 1970, quando lutávamos contra o mercado e havia um ativismo político forte, mas o mundo mudou tanto que é preciso reforçar nossa visão crítica do ilusionismo quando todos parecem ter virado fotógrafos e as imagens ficaram tão banalizadas".

34ª Bienal de São Paulo
Exposição Faz escuro mas eu canto
Período: de 4 de setembro a 5 de dezembro de 2021
Horários: Terça, quarta, sexta e domingo, 10h às 19h | Quinta e sábado, 10h às 21h
Endereço: Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera
Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, Portão 3, São Paulo
Entrada gratuita (sem agendamento)

As visitas não precisam ser agendadas previamente, mas é obrigatório o uso de máscaras e a apresentação de um comprovante de vacinação contra o vírus da covid-19, com pelo menos uma dose, para a entrada no pavilhão.

Museu de Arte Contemporânea da USP
Retrospectiva Regina Silveira: Outros Paradoxos
Período: de 28 de agosto de 2021 a 2 de julho de 2022
Horário: Terça a domingo, das 10h às 19h
Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral, 1301, São Paulo
Entrada gratuita (necessário agendamento)

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