Na audição parlamentar desta terça-feira (3), a Ministra da Saúde de Portugal, Marta Temido, admitiu ter havido falhas de comunicação sobre o combate ao novo coronavírus e anunciou uma campanha de informação. Também assegurou que haverá reforço dos meios humanos e materiais no setor da saúde.

O social-democrata Ricardo Baptista Leite (PSD) disse que o partido está disposto a colaborar totalmente com o Governo nesta crise,  mas apontou várias falhas na resposta das autoridades – desde a falta de material a orientações contraditórias dadas pela linha SNS24 e o caso de profissionais contratados sem formação para lidar com suspeitos de terem contraído Covid-19.

A Ministra admitiu que houve “duas  circunstâncias” em que a “comunicação não foi clara”. Quando os dois primeiros casos foram confirmados, ocorreu um congestionamento das linhas de apoio ao médico, que estava a servir os hospitais de Santo António e São João, no Porto, o que “foi interpretado como falhas na própria capacidade de resposta dos hospitais”.

Marta Temido assegurou que os dois hospitais mantiveram a capacidade de resposta. Contudo, a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, tinha afirmado na segunda-feira à noite na RTP que os dois hospitais tinham “esgotado a capacidade”.

A Ministra da Saúde também disse aos parlamentares que “ainda esta semana” uma nova “campanha  informativa” irá permitir ultrapassar as “barreiras técnicas” para o  público “mais indiferenciado e com menos literacia na saúde”.

“Temos a  percepção que provavelmente o tipo de comunicação de saúde que  costumamos fazer não é facilmente compreendido por todos os públicos”, disse, em resposta a questões colocadas por Moisés Ferreira (BE).

Em resposta a dúvidas dos deputados sobre que medidas mais extremas que as autoridades podem tomar, Marta Temido  esclareceu que o fechamento de fronteiras  “não está em cima da mesa” neste momento, mas admitiu que, “se for necessário, é uma possibilidade”.

A hipótese de vir a controlar a temperatura corporal dos passageiros provenientes de países como Itália também foi afastada, por ser considerada ineficaz na contenção da doença. Um amplo estudo na China estabeleceu que mais da metade de pacientes infectados pelo coronavírus deram entrada nos hospitais sem apresentar febre.

Relativamente à proteção dos profissionais de saúde, levantada pela deputada Paula Santos (PCP), a Ministra disse que houve um reforço de 20% no estoque de medicamentos, dispositivos médicos e material de protecção individual. Marta Temido citou também um reforço de 100 enfermeiros para a linha SNS24, um serviço de atendimento de dúvidas de saúde da população.

Informação

Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, em entrevista ao Jornal i, defende que a Direção Geral da Saúde (DGS) tem de reforçar a comunicação com a população e com profissionais de saúde.

[trechos]

"É preciso insistir muito na comunicação.  Estamos a assistir a uma grande dificuldade da linha SNS 24 e da linha de apoio ao médico em responder às solicitações também porque há um número elevado de pessoas que contacta a linha sem ter indicação.  Naturalmente que as pessoas querem ver esclarecidas as dúvidas e não as censuro, mas se a mensagem fosse clara para toda a gente reduziríamos o número de chamadas e o sistema funcionaria de forma mais ágil".

"Penso que é importante haver informação clara não só para a população mas para os profissionais. O que constatamos é que, mesmo entre os profissionais, parece haver alguma falta de conhecimento sobre o que  devem fazer perante um caso, um doente ou alguém sem sintomas".

"Tem  havido muitas comparações com a gripe, mas é uma comparação difícil de fazer. Sabemos que, em termos de transmissão, pode haver semelhança mas em termos de severidade este vírus é mais severo, tem mais casos graves e mais óbitos do que a gripe. Se conseguirmos que haja pouca transmissão, o impacto será menor.  Os dados de uma época de gripe são pouco comparáveis com o período que vivemos até agora: não é líquido que estejamos sequer a meio da época para este coronavírus. Não é fácil dizer se é melhor ou pior do que a gripe. Tem características diferentes e implica um reforço de medidas para uma situação que é nova e que não dominamos na íntegra, daí ser necessário uma abordagem cautelosa. Com o grau de incerteza que temos ainda, isso é importante para prevenir  males maiores".

Planejamento

De acordo com um despacho publicado no Diário da República, dirigido a todos os empregadores públicos, os serviços devem definir planos de contingência para a evolução da epidemia de coronavírus, assegurando procedimentos alternativos que permitam garantir o normal funcionamento.

“Não há aqui uma situação de pânico, nem de crise, há uma situação de precaução e de prevenção”, afirmou a Ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão, durante uma audição na Assembleia da República.

Em 2009, no surto da Gripe A, as escolas também foram obrigadas a elaborar um plano de contingência. O fechamento seria a solução indicada em casos extremos.

De acordo com Graça Freitas, diretora geral da Saúde, no pior dos casos, Portugal pode ter um milhão de infecções [em uma população de mais de dez milhões] durante vários meses de surto, com 12 a 14 semanas de intenso contágio.

* Com dados e informações do Publico.pt e reprodução de trechos de entrevista do Jornal i

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