Natività con i Santi Lorenzo e Francesco d'Assisi. O nascimento de Cristo é um tema maior na arte Ocidental desde o século IV. Foto: Facsimile/Factum Arte
Natività con i Santi Lorenzo e Francesco d'Assisi (réplica). Facsimile/Factum Arte. Na obra de Caravaggio, Maria está desalinhada – diferentemente de todas as outras Marias parturientes.

O nascimento de Cristo tem sido um tema maior na arte Ocidental desde o século IV.

Na obra do mestre alemão Conrad von Soest, o telhado do estábulo está esburacado, mas Maria tem o bebê em seus braços em lençóis requintados e José faz uma sopa para restaurar a parturiente. A pintura de Petrus Christus mostra anjos com asas coloridas e Jesus no chão, agarrado à saia da mãe.

Botticelli celebra o nascimento com festa e dança em Natividade Mística.

O pintor barroco Georges de La Tour retrata somente duas mulheres e um menino. Na criação de Hieronymus Bosch, a atmosfera onírica e irreal de homens observando a cena no telhado do estábulo. No pós-impressionismo de Paul Gauguin, uma mulher repousa na cama após o parto.

Arthur Hughes retrata uma Maria submissa ao lado de anjos que levam seu filho. Lorenzo Costa mostra um José triste e Federico Barocci coloca Maria no centro da tela. El Greco pinta o chifre do boi em primeiro plano.

A profusão de natividades na história da arte é imensa.

Entre tantas versões, uma ocupa um lugar especial – e não por um bom motivo. Natività con i Santi Lorenzo e Francesco d'Assisi, obra de Caravaggio de 1609, foi furtada há 50 anos do Oratório de São Lourenço, em Palermo, Itália.

O roubo aconteceu no dia seguinte à menção da pintura em um programa da TV estatal italiana RAI, I Grandi Dimenticati, sobre "obras-primas esquecidas ou abandonadas do patrimônio artístico italiano e europeu".

O Oratório foi fundado em 1569 e entregue aos Franciscanos para difundir o culto dos santos Francisco e Lourenço. A pintura estava pendurada no oratório fazia 360 anos. Não havia absolutamente nenhuma medida de segurança para proteger o quadro, então avaliado em 20 milhões de dolares (140 milhões em dolares de 2020).

O inquérito de 1969 relata que, poucas semanas antes do furto, uma funcionária tinha pedido à Cúria para gradear uma janela no Oratório acessível a partir da rua. Mas a Cúria disse que não havia necessidade.

Foi precisamente através dessa janela que os ladrões entraram no Oratório na noite de 17/18 de outubro de 1969 e usaram navalhas para cortar a tela de 2,0m x 2,7m de sua moldura.

Desde o seu furto, o destino da obra de Caravaggio permanece um mistério. A história da sua busca, repleta de intrigas e ainda sem êxito, é povoada por religiosos, criminosos, mafiosos arrependidos, espiões e negociantes de arte.

As suspeitas que recaem sobre o envolvimento da máfia no desaparecimento da pintura vêm de longe. Em 2001, o padre Rocco Benedetto, de Palermo, contou a sua versão da história a Massimo D’Anolfi, um cineasta que estava realizando um documentário sobre obras de arte furtadas.

No vídeo, o pároco, que morreu em 2003, revela que a tela estaria na casa do temido mafioso siciliano Gaetano Badalamenti.

Dom Tano Badalamenti, como era conhecido, era o chefe da vizinha Cinisi e uma das figuras mais poderosas da máfia na Itália, administrando uma rede de tráfico de heroína de US$ 1,65 bilhão para os EUA.

Badalamenti teria cortado um pedaço da tela para convencer a Igreja a pagar por seu retorno.

"Ele pretendia deixar claro para mim que eles realmente tinham o Caravaggio em sua posse", ressalta Benedetto no documentário.

Conduzida como uma negociação de resgate de sequestro, Badalamenti enviou uma carta anônima ao padre, com instruções para colocar um anúncio em um jornal, iniciando a abertura de uma linha de conversa entre as partes.

Os superiores do padre concordaram em seguir as instruções.

Benedetto colocou o anúncio e recebeu da máfia siciliana um fragmento da tela como prova material da posse. A Igreja acionou a polícia para investigar o padre.

A atitude da Igreja pode ter sido precipitada, mas existiam fatos suspeitos. Meses antes do furto, a RAI tinha convidado o próprio Benedetto para participar do programa. O padre não aceitou. Criticou a necessidade de promover a pintura e discordou do enfoque de ser um 'tesouro esquecido' no Oratório. Disse ainda que a filmagem do local iria revelar que o quadro não tinha segurança alguma, o que poderia atrair todo tipo de marginal em uma cidade controlada pela máfia.

"Eu disse ao jornalista que, se o público soubesse que essa pintura existia, seu roubo era garantido porque não havia medidas de segurança para o quadro", recordou Benedetto 32 anos depois.

Como sabemos, não foi o entendimento de seus superiores.

A concretização da profecia não contou pontos para Rosso "eu lhe disse" Benedetto junto à hierarquia da Igreja. Pode-se imaginar a movimentação da imprensa italiana cobrindo o roubo, de interesse mundial. Quando Benedetto foi escolhido pela máfia para intermediar o resgate, a hipótese dele ter participação no furto seguido de extorsão, e até mesmo ser o autor intelectual, ganhou força.

Benedetto era o pároco do Oratório de São Lourenço. Era natural ter sido procurado como interlocutor e se esforçar para recuperar a obra.

Foi inocentado da suspeita e a Igreja se desculpou com o padre. O envolvimento da máfia foi comprovado meses depois, quando um padre em Carini, a 20 km de Palermo, entrou em contato com Benedetto no início de 1970 para dizer que tinha visto uma fotografia da obra-prima roubada.

Benedetto agora tinha uma testemunha para corroborar a acusação da máfia siciliana estar de posse da pintura furtada. A polícia ignorou a denúncia do padre.

O padre acusou a polícia de saber exatamente onde estava a pintura e que sua posse era como um distintivo de honra para a máfia, uma exibição de seu poder.

Gaetano Badalamenti foi padrinho (Godfather) da máfia siciliana até os anos 80, quando iniciou uma guerra pelo poder com os Corleonesi, que venceram e assassinaram quase toda a família Badalamenti.

Mais de 1.000 pessoas morreram na Segunda Guerra da Máfia (1981-1983).

Dom Tano fugiu para o Brasil e depois se transferiu para os Estados Unidos.

Ele foi preso em 1984, pelo então promotor dos EUA em New York, Rudy Giuliani, e morreu em um hospital de Massachusetts em 2004, aos 81 anos.

O documentário ficou esquecido durante quase duas décadas, trancado em uma gaveta.

“Em retrospectiva, as revelações de Benedetto parecem mais confiáveis agora que a investigação recente confirmou sua versão dos fatos. Às vezes, acho que, se essa entrevista fosse divulgada antes, talvez as pessoas pensassem que ele era apenas um padre louco”, disse D’Anolfi.

O vídeo com o depoimento do padre, revelando os detalhes de sua interação com a máfia, só veio ao conhecimento das autoridades no ano passado, após o jornal britânico The Guardian ter publicado matéria sobre o documentário de 2001.

As suspeitas elencadas pelo padre se coadunam com as descobertas mais recentes.

O Oratório de San Lorenzo, Palermo. O ladrões retiraram a tela de 2,0m x 2,7m da moldura utilizando navalhas. Em 2015, o espaço passou a exibir uma cópia digitalizada da tela de Caravaggio. Foto: Wikimedia Commons
O Oratório de San Lorenzo, Palermo. O ladrões retiraram a tela de 2,0m x 2,7m da moldura utilizando navalhas. Em 2015, o espaço passou a exibir uma cópia digitalizada da tela de Caravaggio. Foto: Wikimedia Commons

Gaeatano Grado, membro da família Santa Maria di Ges, organização mafiosa de Palermo chefiada por Stefano Bontade, alega ter conhecimento das circunstâncias do furto e confirmou no ano passado que o quadro teria estado com Badalamenti.

Grado, colaborador da justiça italiana após ter sido preso, disse que a pintura foi roubada por pequenos criminosos.

A cobertura subsequente da imprensa sobre o roubo alertou a máfia sobre a importância e o valor potencial da pintura. A organização criminosa informou que desejava receber o trabalho e o Caravaggio foi respeitosamente entregue a Gaetano Badalamenti, chefe da poderosa Comissão da Máfia Siciliana, conhecida como Cúpula, que decide sobre disputas entre famílias mafiosas concorrentes, disse Grado.

Badalamenti então vendeu o trabalho para um negociante de arte suíço, que viajou para Palermo para finalizar o negócio, disse Grado, acrescentando que Badalamenti disse que a pintura seria cortada em pedaços para transportá-la para o exterior. Quando mostradas fotografias de vários negociantes suíços, Grado identificou quem ele afirma ter comprado o Caravaggio de Badalamenti. O nome do marchand, já falecido, não foi divulgado.

Um mafioso informante da polícia, Salvatore Cancemi, teria confirmado nos anos 90 que a obra roubada de Caravaggio era frequentemente exibida durante reuniões de membros da alta hierarquia da organização criminosa siciliana.

Muitos mafiosos arrependidos falaram sobre o roubo dessa obra-prima, cada um com uma versão diferente. As informações variaram do improvável ao absurdo. Houve alegações de que a pintura foi mantida pela máfia para exibição em suas reuniões, que foi armazenada em um estábulo e destruída por ratos, que foi irremediavelmente danificada durante o transporte e queimada para eliminar evidências, e até que foi usada como tapete de cabeceira de cama por um chefe da máfia.

Roberto Andó, cineasta de Palermo que fez um filme sobre o roubo, tem uma explicação plausível para as várias versões: é comum membros da máfia inventarem estórias para serem usadas como moeda de troca em barganhas com autoridades.

Em outubro do ano passado, o Vaticano promoveu um encontro no Palazzo della Cancelleria, reunindo autoridades políticas italianas, historiadores da arte e representantes da polícia, para recolocar o furto da pintura no centro do debate público internacional e "reiterar a oposição à máfia por parte da Igreja, de acordo com o exemplo do Beato Giuseppe Puglisi", um padre assassinado pela Cosa Nostra em Palermo em 1993.

"O crime organizado atacou repetidamente símbolos religiosos e culturais. Essa pintura é um símbolo, um elemento de propriedade, entre aspas, da Igreja, mas é uma obra que fala a todos", disse o filósofo Vittorio V. Alberti, um dos organizadores do evento.

A pintura desaparecida de Caravaggio se tornou "um símbolo da luta contra a máfia", afirmou um porta-voz da Santa Sé.

Hoje, uma cópia de alta qualidade, produzida por um laboratório de arte em 2015, preenche a moldura da obra original acima do altar no Oratório de San Lorenzo.

“Não estamos trazendo de volta o original, mas um fac-símile. No entanto, é semelhante ao original ”, disse Roberto Pisoni, da Sky Arts, Milão. A réplica foi produzida por uma equipe de arquitetos e engenheiros de computação da Factum Arte, que tinham apenas um slide parcial da pintura e algumas fotografias em preto e branco da década de 1950 do trabalho de Caravaggio.

Pisoni espera que a réplica sirva como "uma espécie de restituição de uma beleza perdida. Isso dará às pessoas a possibilidade - mesmo com um fac-símile - de ver como seria a pintura se ainda estivesse no oratório, porque é realmente um lugar maravilhoso".

Acredita-se que Caravaggio tenha pintado a Natividade em 1609, apenas um ano antes de sua morte, aos 38 anos, em Porto Ercole, na Toscana. Ele deixou Roma depois de assassinar um homem em uma briga por dívidas de jogo e passou o resto de seus dias fugindo, passando por Nápoles e Malta antes de chegar à Sicília.

Em 2019, ano que marcou meio século do desaparecimento da sua obra, a polícia italiana afirmou estar convencida que a Natividade está intacta e o seu possível paradeiro é uma cidade (não revelada) do Leste Europeu.

Para Lynda Albertson, diretora-executiva da Associação de Pesquisa sobre Crimes contra a Arte, de Roma, obras de arte roubadas escondidas em casas de milionários é coisa de Hollywood.

“Obras roubadas frequentemente são ativos usados como garantia (colateral) para outras atividades ilícitas e mantidas em local seguro".

"Estou bastante confiante de que ninguém deixou um Caravaggio em um celeiro com porcos".

Ela também não acredita que o tempo decorrido significa que a pintura está perdida para sempre. "É difícil recuperar esses objetos, mas geralmente acontece 30 ou 40 anos depois".

As autoridades policiais nunca desistiram de encontrar a obra. O furto figura na segunda posição da lista do FBI dos dez maiores crimes de arte não resolvidos e a pintura perdida é frequentemente descrita como a "mais procurada do mundo".

* Com informações do The Guardian, ANSA e BBC