Baerbock, que assumiu o cargo na semana passada, discutiu o destino do projeto multinacional em uma entrevista com a emissora ZDF no domingo (12). Ela insistiu que o gasoduto não cumpre todos os requisitos para ser certificado.

“Do jeito que as coisas estão no momento, este gasoduto não pode ser aprovado porque não atende aos requisitos da legislação europeia de energia, e as questões de segurança ainda estão sobre a mesa”, disse.

Os Verdes se opuseram abertamente ao novo gasoduto russo e, durante a recente campanha eleitoral, pediram a suspensão de sua construção.

A Rússia afirma que o Nord Stream 2 (NS2) atende a todos os requisitos para receber a licença alemã.

O primeiro Nord Stream, inaugurado em 2011, tem capacidade para transportar 55 bilhões de metros cúbicos de gás por ano, volume que será dobrado com o segundo duto, um projeto euro-russo de US$ 11 bilhões. Ambos ligam a Rússia diretamente à Alemanha pelo Mar Báltico e somam quase 2.500 km de transporte subaquático de gás. Trata-se do maior gasoduto desse tipo no mundo.

Fonte/Arte: © Geopolitical Intelligence Services
Fonte/Arte: © Geopolitical Intelligence Services

O Nord Stream 2 pertence à estatal russa Gazprom, mas a metade de seu financiamento vem de empresas europeias, como a francesa Engie, a austríaca OMV, a anglo-holandesa Shell e as alemãs Uniper e Wintershall.

O destino do gasoduto está diretamente ligado à política, como demonstrou o novo Chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, do SPD, ao reiterar o compromisso de Berlim de preservar o trânsito do gás russo pela Ucrânia.

“Continuamos nos sentindo responsáveis por garantir que o negócio de trânsito de gás da Ucrânia continue bem-sucedido. O mesmo vale para oportunidades futuras”, disse Scholz em coletiva de imprensa no domingo.

Cerca de 40% do gás exportado para a Europa passa pela Ucrânia, que encontra nessa atividade sua principal fonte de renda.

Para as estatais russas, o novo gasoduto significará menos dependência da rede de distribuição construída pela União Soviética (URSS) e Rússia no Leste Europeu.

As operações de assentamento de dutos para o Nord Stream 2 começaram em 2018 e foram concluídas em setembro. O processo de certificação está suspenso desde meados de novembro.

Impacto nas exportações de GNL dos EUA

Por volta de 2011, quando Joe Biden era vice-presidente, os Estados Unidos viram seus próprios interesses comerciais de energia ligados ao mercado europeu.

Por questões tecnológicas, grande parte do gás de xisto extraído nos EUA não pode ser aproveitado pelas refinarias americanas e precisa ser exportado sob a forma liquefeita (GNL). Os países europeus surgiram como potenciais consumidores e a Rússia cresceu no papel de rival.

Interessa ao governo americano também exportar a tecnologia para que os europeus explorem suas próprias reservas de xisto. Esse tipo de reserva se esgota mais rapidamente do que as convencionais, o que projeta preços altos no futuro. Por isso, a tendência de longo prazo é o gás liquefeito americano ser ainda menos competitivo frente ao produto russo.

Contudo, a maioria dos países europeus rejeita a exploração local. Além do excessivo consumo de água – um único poço pode demandar entre 7 milhões e 80 milhões de litros de água, o fraturamento da rocha requer produtos químicos que contaminam aquíferos e pode estar relacionado com abalos sísmicos.

Sem conseguir convencer aliados decisivos como a Alemanha, a Casa Branca partiu para sanções econômicas.

No caso do Nord Stream 2, a ameaça de sanção funcionou durante quase todo o ano de 2020: a construção foi interrompida quando faltavam apenas 100 km para sua conclusão.

Um adicional de 5,3 Bcf/d (billion cubic feet per day) de gás russo do Nord Stream 2 "certamente sobrecarregará o mercado europeu", avalia Connor McLean, analista de energia da BTU Analytics, acrescentando que os novos volumes provavelmente substituirão as fontes existentes de abastecimento, refreando uma potencial recuperação das exportações de GNL dos EUA.

Embora a Alemanha não tenha instalações de importação de GNL, o fluxo de gás do Nord Stream para a Alemanha ainda poderia conter as importações europeias de GNL devido aos "efeitos indiretos", como reduzir a capacidade da Europa de estocar cargas de gás natural liquefeito, principalmente dos EUA.

Os americanos competem com outros fornecedores de GNL para a Europa, como Rússia e Qatar. A Bolivia e o Brasil também visam atender o mercado europeu de gás natural liquefeito. No início do ano passado, os EUA se tornaram brevemente o principal fornecedor europeu, mas o Qatar retomou a liderança.

A Alemanha importa mais de 90% de seu suprimento de gás, com a maior parte dessas importações vindo da Rússia, seguida pela Noruega e Holanda.

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