"Agora podemos viver quase como vivíamos antes da pandemia nos atingir. Não acho que tudo será como antes. Acho que o coronavírus nos afetará pelo resto de nossas vidas, para melhor ou para pior. Aprendemos como somos vulneráveis e o quanto podemos alcançar quando estivermos juntos”, disse Solberg em entrevista coletiva nesta sexta-feira.

A decisão de cancelar as medidas foi tomada após manifestação do Instituto Norueguês de Saúde Pública (NIPH) e da Diretoria de Saúde da Noruega.

“O NIPH e a Diretoria de Saúde da Noruega nos aconselharam na segunda-feira (20) que será possível voltar à vida cotidiana normal na virada do mês. A evolução positiva continuou esta semana, e é por isso que o governo – após uma avaliação minuciosa – concluiu que amanhã, às 16h, retomaremos a vida cotidiana normal".

Os limites para o número de pessoas reunidas serão eliminados e as regras que impedem a entrada de clientes após a meia-noite serão revogadas – os frequentadores das discotecas poderão ir às pistas de dança novamente.

Aqueles com teste positivo para o vírus da covid-19 ainda terão que se isolar, e as pessoas não vacinadas que vivem com alguém infectado também precisarão entrar em quarentena.

Vida normal

Durante o último ano e meio, a covid-19 foi classificada como uma doença perigosa. No entanto, o Diretor-Assistente do NIPH, Geir Bukholm, disse ao jornal norueguês VG que "estamos agora em uma nova fase em que temos que olhar para o coronavírus como uma das várias doenças respiratórias com variação sazonal".

A razão é porque a grande maioria dos grupos de risco agora está protegida.

Embora o SARS-CoV-2 ainda esteja circulando, o número de hospitalizações continua baixo e o vírus não deverá causar grande pressão no serviço de saúde. Para os vacinados que podem ser infectados e desenvolver complicações, a grande maioria experimentará sintomas leves de resfriado, explicou Bukholm.

No entanto, a pandemia está longe de terminar e não significa que a covid-19 possa ser comparada com outras doenças respiratórias, como resfriados, gripe sazonal e infecções RS (vírus sincicial respiratório), alertou Bukholm.

“A pandemia não acaba enquanto for encontrada no mundo e em países onde a cobertura vacinal ainda é baixa. Enquanto a doença se espalhar para fora dos territórios dos países ricos, ainda há pandemia”, advertiu Bukholm.

Na Noruega, houve forte redução de infecções, o que tem acontecido em muitos outros países que têm uma boa cobertura de vacinas, explicou o diretor do NIPH.

Da população-alvo, maiores de 18 anos, 90% recebeu a primeira dose e 83% foram totalmente vacinados.

Foco nos vulneráveis e nas internações

A Dinamarca abriu o país há pouco mais de uma semana.

O professor dinamarquês Søren Riis Paludan disse ao VG que ao longo de vários meses eles pararam de se concentrar nas taxas de infecção.

"Com poucas exceções, eles se concentram em admissões e vacinação, e não em infecção”, disse Paludan.

Bukholm concorda. Sua chefe, Camilla Stoltenberg, também disse anteriormente ao VG que o foco não deve estar nas taxas de infecção mas nas internações.

Bukholm disse ainda que não acredita que os hospitais ficarão sobrecarregados com pacientes com covid-19, mas uma eventual combinação de covid, vírus RS e gripe neste inverno poderá pressionar o sistema de saúde da Noruega.

“Acho que chegamos ao topo desta vez. Então acho que podemos ter uma onda de inverno chegando mais tarde. Mas não achamos que será maior do que o serviço de saúde possa atender".

Em julho do ano passado, o Dr. Anders Tegnell, um dos formuladores da bem sucedida estratégia da Suécia de enfrentamento à pandemia, disse que a ênfase na disseminação do vírus é equivocada, pois o número de infecções é cada vez menos relacionado ao número de mortes.

“As mortes não estão intimamente ligadas à quantidade de casos que você tem em um país. Existem muitos outros fatores que influenciam a quantidade de óbitos. Que parte da população é atingida? São os idosos? Quão bem você pode proteger as pessoas em suas instalações de longo prazo? Quão bem o seu sistema de saúde continua funcionando? Como podemos melhorar o tratamento nas UTIs? Todas essas coisas estão mudando bastante nos últimos meses ... Essas coisas influenciarão muito mais a mortalidade do que a propagação real do vírus”, afirmou Tegnell.

No mês passado, o Professor Andrew Pollard, Diretor do Oxford Vaccine Group, e um dos desenvolvedores da vacina covid da AstraZeneca aplicada no Brasil, disse que, com o tempo, haverá uma mudança de testes comunitários de infecções leves para testes clínicos de pessoas que não se sentem bem.

"O foco deve ser a melhoria do tratamento para as pessoas gravemente doentes no hospital", defendeu Pollard.

"Acho que à medida que olhamos para a população adulta daqui para frente, se continuarmos a perseguir os testes da comunidade e estivermos preocupados com esses resultados, vamos acabar em uma situação em que estaremos constantemente aplicando doses de reforço para tentar lidar com algo que não é administrável", disse.

"É preciso passar para testes conduzidos clinicamente, nos quais as pessoas desejam ser testadas, tratadas e gerenciadas, em vez de muitos testes comunitários. Se alguém não está bem, deve ser testado, mas para seus contatos, se estiverem bem, faz sentido eles estarem na escola e sendo educados".

"Pandemia de casos"

Até recentemente, esperava-se que o aumento do número de vacinados no Reino Unido traria imunidade de grupo à população. Um dos motivos de ter sido recomendada a vacinação de jovens britânicos de 16 e 17 anos foi porque poderia ajudar a prevenir uma nova onda de infecções no inverno europeu.

No entanto, uma análise da Public Health England sugere que quando as pessoas vacinadas contraem o vírus, elas têm uma carga viral semelhante à dos indivíduos não vacinados.

Paul Hunter, professor da Universidade de East Anglia e especialista em doenças infecciosas, disse ao Joint Committee on Vaccination and Immunisation (JCVI): "O conceito de imunidade de rebanho é inatingível porque sabemos que a infecção se espalhará em populações não vacinadas e os dados mais recentes sugerem que duas doses é provavelmente apenas 50 por cento protetor contra infecções".

Hunter, que assessora a Organização Mundial da Saúde (OMS), disse que é hora de mudar a forma como os dados são coletados e registrados.

"Precisamos começar a deixar de apenas relatar infecções, ou apenas relatar casos positivos admitidos no hospital, para realmente começar a relatar o número de pessoas que estão doentes por causa do vírus", disse o especialista.

"Caso contrário, estaremos nos assustando com números muito altos que, na verdade, não se traduzem em carga de doenças", acrescentou Hunter.

Um número crescente de cientistas diz que é hora de aceitar que não há maneira de impedir a propagação do vírus por toda a população, e monitorar pessoas com sintomas leves não ajuda mais.

Angela Merkel se tornou a primeira líder mundial a anunciar o fim dos testes gratuitos, previstos para serem encerrados na Alemanha a partir de 11 de outubro.

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