As empresas russas Gazprom, Rosneft, Novatek e Lukoil, e a gigante norueguesa de petróleo e gás Equinor Energy, assim como Aker BP e ConocoPhillips Skandinavia, são as principais produtoras de petróleo e gás da região do Ártico.

A Noruega fornece cerca de 28% do gás natural para os países da UE, o segundo maior volume depois da Rússia. Ambos estão apostando forte para tornar o Ártico o próximo ponto de acesso ao petróleo.

Mapa da região do Mar de Barents, incluindo as zonas econômicas exclusivas (EEZ), e as áreas de plataforma (Shelf), até 200 m de profundidade. Reprodução ResearchGate © Sarah Popov, Dirk Zeller
Mar de Barents, incluindo as zonas econômicas exclusivas (EEZ) e as áreas de plataforma continental (Shelf) até 200 m de profundidade. Reprodução ResearchGate © Sarah Popov, Dirk Zeller (CC BY)

Rússia

O governo da Rússia fez do petróleo e gás do Ártico uma prioridade fundamental e oferece incentivos fiscais para petroleiras que exploram a região.

Contudo, as sanções impostas desde 2014 pelos Estados Unidos, União Europeia e outros países proíbem financiamento a longo prazo para os maiores grupos industriais da Rússia e também proíbem assistência a empresas russas de petróleo e gás para projetos no Ártico, de xisto e offshore, obrigando a saída de parceiros estratégicos ocidentais de joint ventures da Gazprom, Gazprom Neft, Lukoil, Surgutneftegas e Rosneft.

Apesar do esforço da Rússia para substituir a tecnologia de origem estrangeira, e o sucesso de iniciativas como o Skolkovo Technopark, analistas acreditam que o desenvolvimento de soluções tecnológicas completas, que atendam projetos na fronteira do conhecimento, levará vários anos para ser implementado.

O financiamento de grandes projetos em terra no Ártico também foi impactado.

As sanções causaram um colapso no investimento direto estrangeiro (IED) – de uma média anual de US$ 54,5 bilhões entre 2011 e 2013 a US$ 19 bilhões entre 2015 e 2018.

"As sanções internacionais que têm efeitos difusos em aumentar a incerteza comercial estão impedindo o investimento estrangeiro e doméstico e reduzindo a integração do mercado internacional da Rússia", disse James Roaf, chefe de uma missão do FMI ao país.

A alternativa do Kremlin foi buscar novos amigos na Ásia e na África para compensar parcialmente a queda no comércio e investimento ocidentais. O comércio com a China aumentou 53% nos últimos três anos, para US$ 107 bilhões em 2019, enquanto uma cúpula recente organizada por Putin atraiu 43 chefes de estado ou de governo da África.

A Rosneft, que deseja desenvolver o projeto Vostok Oil, para "implementar um complexo programa de desenvolvimento para uma nova província de petróleo e gás no norte do Território de Krasnoyarsk", está sondando Japão, China e Índia para obter financiamento de US$ 157 bilhões para o projeto.

O maior produtor privado de gás natural liquefeito da Rússia, a Novatek, aprovou seu segundo projeto, o Ártico LNG 2, na Península de Gydan, em sociedade com empresas chinesas e japonesas.

Sanções

Embora o presidente Vladimir Putin tenha dito “não há nada de bom em [sanções]” em sua conferência anual de imprensa em dezembro de 2019, ele acrescentou: “Mas nossa economia – posso dizer com total responsabilidade – foi capaz de se adaptar a choques externos, enquanto nossa moeda nacional tornou-se muito mais estável, mesmo com possíveis flutuações nos preços da energia”.

Alguns analistas econômicos acham que Moscou tem mais a temer com a remoção abrupta das sanções do que sofrer novas punições. "O maior perigo para a economia russa seria se os EUA acordassem um dia e suspendessem todas as sanções", disse ao Financial Times um alto funcionário do banco central russo. "Haveria uma entrada maciça de capital externo", desestabilizando o rublo, "e todas as políticas do governo ficariam em frangalhos. Seria um desastre".

Poucos economistas disputam que o cenário econômico geral na Rússia é melhor hoje do que teria sido sem nenhuma sanção.

A resposta da Rússia às sanções se concentrou em três áreas principais.

  • Cortou os gastos públicos e forçou seus bancos e grandes empresas a limpar seus balanços. Isso ocorreu em parte devido à queda no crédito estrangeiro causado por sanções e sentimentos dos investidores, e em parte devido ao sentimento de que a economia precisava de uma rede de segurança.
  • Investiu trilhões de rublos em programas para estimular a produção local e criar substitutos domésticos para produtos importados, enquanto as importações de alimentos da UE foram proibidas.
  • Revisou como a Rússia aplica a receita da venda de petróleo e gás. A renda das exportações de energia acima de um certo nível foi desviada para um fundo nacional de riqueza, que encerrou um padrão de expansão e contração causado pelos gastos do governo vinculados ao preço do petróleo e rompeu o vínculo que fazia o rublo se mover em conjunto com os mercados de energia.

As reservas internacionais da Russia alcançam US$ 560 bilhões e a participação de ativos denominados em dolar caiu de 40% para atuais 20%. Todos os três níveis do governo da Rússia registraram superávit orçamentário em 2018 e 2019, e sua dívida pública total é de cerca de 15% do PIB. A média da UE é de 80%.

A expectativa do governo é que a área do Ártico venha a se tornar a principal produtora de gás natural da Rússia, fornecendo 90% de todo o gás produzido no país dentro de 15 anos.
A expectativa do governo é que a área do Ártico venha a se tornar a principal produtora de gás natural da Rússia, fornecendo 90% de todo o gás produzido no país dentro de 15 anos.© Gazprom 

Noruega

Oito dos maiores campos maritimos de petróleo e gás da Europa estão localizados na Noruega, com a Equinor Energy atuando como operadora em seis dos campos.

As áreas árticas da Noruega abertas à exploração fazem parte do Mar de Barents, onde as empresas estão perfurando poços exploratórios em busca de uma grande descoberta que possa ser adicionada à Skrugard (2011), Havis (2012) e Drivis (2014), no campo petrolífero de Johan Castberg, que possui reservas estimadas para manter a produção no nível atual por 30 anos.

Johan Castberg é um dos maiores projetos industriais no Ártico norueguês.

Blocos noruegueses de exploração de petróleo e gás no Mar de Barents. Divulgação/Equinor
Blocos noruegueses de exploração de petróleo e gás no Mar de Barents. Divulgação/Equinor

As autoridades norueguesas dizem que o Mar de Barents detém 64% dos recursos ainda não descobertos na plataforma continental da Noruega, enquanto o Mar do Norte e o Mar da Noruega estimam que cada um detém 18% dos recursos não descobertos.

No ano passado, um total de 17 novas descobertas foram feitas na costa da Noruega, das quais apenas uma no Mar de Barents.

Mar de Barents

Em 2017, o poço Gemini Nord da Equinor, no Mar de Barents, resultou em uma descoberta muito pequena, não comercial. Em 2018, o poço Intrepid Eagle provou uma coluna de gás de 200 metros, mas nenhum óleo.

Em 2019, a descoberta de petróleo no poço de exploração 'Sputnik' indica recursos recuperáveis estimados preliminarmente em 20-65 milhões de barris de petróleo.

“A geologia no mar de Barents é complexa e há mais trabalho pela frente para determinar a comercialidade. Mas essa descoberta mostra que a persistência e nossa capacidade de aprender com os resultados anteriores valem a pena”, disse Nick Ashton, SVP de exploração da Equinor na Noruega e no Reino Unido.

“Análises detalhadas de fluidos combinadas com mapeamento geológico e geofísico serão realizadas para entender completamente o potencial comercial da descoberta do Sputnik. Se confirmado que a estrutura compreende volumes que podem ser recuperados de maneira comercialmente viável, a parceria avaliará possíveis soluções de desenvolvimento”, disse Ashton.

O poço Sputnik foi perfurado a uma profundidade vertical de 1569 metros abaixo do fundo do mar pela plataforma de perfuração semi-submersível West Hercules, que agora passou a perfurar o poço Lanterna da Equinor no Mar da Noruega.

A Equinor diz que continuará a explorar o Mar de Barents porque será necessário mais petróleo no mundo para manter os estoques.

Mais de 150 poços já foram perfurados pela Equinor no Mar de Barents.

A perfuração no mar de Barents é diferente do restante da plataforma norueguesa, onde a Equinor explora petróleo por quase 50 anos.

“As descobertas no mar de Barents podem levar a um desenvolvimento econômico significativo. Com base em nossa compreensão da geologia, esperamos encontrar um óleo leve de alta qualidade. Os poços que perfuramos no mar de Barents são mais baratos que muitos outros, graças à geologia e águas rasas”, diz a Equinor.

Dutos

Atualmente, o trecho mais ao norte da rede submarina de dutos dos campos de gás no Mar do Norte e no Mar da Noruega é o Polarled, trazendo gás do campo Aasta Hansteen, ao norte do Círculo Polar Ártico.

O comprimento estimado de um duto de Melkøya, perto de Hammerfest, na costa do Mar de Barents, até o duto de Åsgard Transport é de cerca de 1.000 quilômetros e o de Polarled, de 830 quilômetros.

"A nova infra-estrutura poderia contribuir para um maior impulso para novas explorações na área do Mar de Barents", disse Ingrid Sølvberg, diretora-geral da Norwegian Petroleum Directorate, agência governamental responsável pela regulamentação dos recursos petrolíferos na plataforma continental norueguesa.

Anteriormente, acreditava-se que estender o duto até o norte do Mar de Barents seria inviável economicamte. Mas um estudo da estatal norueguesa Gassco, operadora de dutos, apontou a viabilidade dos novos gasodutos para levar o gás do Mar de Barents aos mercados, principalmente na Europa.

Hammerfest, base de apoio dos exploradores do Ártico norueguês, é a cidade com mais de 10 mil habitantes mais ao norte do mundo. Foto: Øyvind A. Holm, Wikimedia Commons
Hammerfest, base de apoio dos exploradores do Ártico norueguês, é a cidade com mais de 10 mil habitantes mais ao norte do mundo. Foto: Øyvind A. Holm, Wikimedia Commons

* Com dados e informações da Oil Price, The Financial Times, Equinor, The Barents Observer

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