Em uma ação sem precedentes, a ex-ícone dos direitos humanos defendeu os generais de Myanmar (antiga Birmânia) no Tribunal Internacional de Justiça (ICJ), por assassinatos, torturas, estupros e expulsões.

A governante de Myanmar argumentou que as operações dos militares em Rakhine foram uma resposta justificável a atos de terrorismo dos rebeldes e diz que seus soldados agiram de maneira adequada.

"Lamentavelmente, a Gâmbia apresentou uma imagem factual incompleta e enganosa da situação no estado de Rakhine", disse Aung San Suu Kyi no mais alto tribunal das Nações Unidas, acrescentando que "intenção genocida" não pode ser a única hipótese no caso de Myanmar.

"Pode haver intenção genocida por parte do Estado que investiga, processa e pune ativamente soldados e oficiais acusados de irregularidades? Embora o foco aqui esteja nos membros das forças armadas, posso garantir que as medidas apropriadas serão tomadas infratores civis, em conformidade com o devido processo".

Suu Kyi repetidamente denominou uma repressão sangrenta em 2017 como um "conflito interno", dizendo que os militares de Myanmar estavam respondendo ao ataque de grupos locais armados, como o Exército de Salvação de Arakan Rohingya (ARSA).

O processo que acusa Myanmar de intenção genocida contra os rohingya, uma minoria muçulmana daquele país, foi liderado pela Gâmbia com evidências reunidas por investigadores das Nações Unidas.

Embora a investigação da ONU tenha constatado que "os crimes mais graves sob o direito internacional" foram cometidos em Mianmar e exigisse julgamento de genocídio, nenhum tribunal tinha avaliado as evidências.

Mais de 730 mil rohingya já sairam de Myanmar, para escapar a uma campanha coordenada.

“Não pertencem aqui. Vão para Bangladesh.  Se não partirem, vamos incendiar as vossas casas e matar-vos”,  anunciavam os soldados através de megafones - muitas vezes cumpriam a  sua promessa, constataram os investigadores da ONU.

Ainda, apesar de toda a condenação internacional, o risco de genocídio no Myanmar é cada vez maior, aponta relatório da ONU de setembro deste ano.

Aung San Suu Kyi –  outrora um ícone dos direitos humanos que lutou contra os poderosos militares pela democracia e ganhadora do Nobel da Paz de 1991 – chocou os críticos viajando a Haia para chefiar a delegação de seu país.

"Foi muito importante vê-la sentada a centímetros de pessoas que descreviam – com detalhes realmente dolorosos – todos os crimes horríveis dos militares birmaneses que aconteceram sob seu governo", disse Brad Adams, da Human Rights Watch (HRW) de New York, à Al Jazeera.

"Estamos testemunhando um dos momentos chocantes da história: Suu Kyi negando e descartando dados confiáveis do genocídio de Rohingyas por Myanmar", disse o acadêmico Maung Zarni à Al Jazeera. "Como birmanês, sinto tanta vergonha e indignação ao mesmo tempo pelo que estou prestes a ouvir - mentiras e enganos".

Sanções

Em outro golpe ao governo de Aung San Suu Kyi, na terça-feira (10) os Estados Unidos endureceram as sanções contra o chefe do exército do país do sudeste asiático, Min Aung Hlaing, e outros três comandantes.

"Os Estados Unidos não tolerarão tortura, seqüestro, violência sexual, assassinato ou brutalidade contra civis inocentes", disse o secretário do Tesouro Steven Mnuchin em comunicado.

As novas sanções, que coincidiram com o Dia Internacional dos Direitos Humanos da ONU, congelam todos os ativos dos EUA mantidos pelos alvos e proíbem os americanos de fazer negócios com os indivíduos nomeados.

Quem são os Rohingya?

Os rohingya são uma minoria muçulmana apátrida no Estado de Rakhine, em Myanmar, que deve chegar a cerca de 1 milhão de pessoas.

O governo de Myanmar considera os rohingya imigrantes ilegais, uma visão enraizada em sua herança no leste de Bengala, agora chamada Bangladesh.

Embora muitos rohingya tenham conhecido apenas a vida em Myanmar, eles são amplamente vistos como intrusos do outro lado da fronteira.

Segundo a Human Rights Watch, as leis discriminam os rohingya, violando sua liberdade de movimento, educação e emprego. A eles são negados os direitos de propriedade e a terra em que vivem pode ser retirada a qualquer momento.

* Com informações do jornal "i", Al Jazeera, CNN