A maior torrefadora de café do mundo informou aos fornecedores sobre novos padrões e procedimentos, que entram em vigor a partir de 1º de outubro, de acordo com documentos vistos pela Bloomberg. A empresa diz que as medidas devem ser temporárias, até que os países cafeicultores ajustem a aplicação do glifosato.

"Monitoramos ativamente resíduos químicos, incluindo o glifosato, no café verde que compramos", afirmou a Nestlé em comunicado. "Este programa de monitoramento mostrou que em alguns lotes de café verde os níveis de resíduos químicos estão próximos dos limites definidos pelas regulamentações. Estamos reforçando nossos controles trabalhando com fornecedores para garantir que nosso café verde continue cumprindo as regulamentações em todo o mundo".

A Nestlé disse que está "trabalhando com produtores" para reduzir sua dependência do glifosato. "Nossos agrônomos continuarão trabalhando com os cafeicultores para ajudá-los a melhorar suas práticas de manejo de plantas daninhas, incluindo o uso apropriado de herbicidas e a adoção de outros métodos de remoção de ervas daninhas".

Enquanto isso, um gerente de uma cooperativa brasileira de cafeicultores disse que sua organização está lutando para ajudar os membros a reduzir os níveis de glifosato para ajudar a atender aos padrões europeus.

Segundo a Bloomberg, as novas medidas implantadas pela Nestlé "têm o potencial de complicar os fluxos globais de comércio de café", uma vez que a Europa possui alguns dos padrões mais rígidos nos níveis de glifosato, enquanto a Austrália e a Malásia também têm limites relativamente altos. Isso é comparado aos EUA, onde as restrições aos níveis de glifosato nos alimentos são relativamente brandas.

A ação da Nestlé é apenas um indicador de um conflito entre empresas que importam grandes quantidades de produtos agrícolas e os agricultores que os cultivam, à medida que mais países proíbem ou limitam severamente o uso do Roundup.

A Monsanto inventou o herbicida Roundup e também inventou culturas que obtém maior produtividade quando o produto é pulverizado nelas.

Os agricultores acham essa combinação irresistível.

Assim, em março de 2015, quando a Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato, o ingrediente ativo do Roundup, como provavelmente cancerígeno, desencadeou um furor. A Monsanto ficou indignada e questionou o julgamento da agência francesa. Os opositores receberam bem a conclusão da agência como uma validação científica de sua causa.

A Monsanto foi comprada pela Bayer AG em 2018 em um acordo de US$ 63 bilhões. Desde então, a Bayer enfrenta mais de 14 mil ações judiciais nos Estados Unidos alegando que o herbicida causa câncer. Os tribunais já decidiram contra a Bayer indenizações nos valores de US$ 2 bilhões, US$ 289 milhões e $80 milhões.

O glifosato é agora um carcinogênico do "Grupo 2A", de acordo com a IARC/OMS. Essa categorização significa que o produto químico é considerado um contribuinte para o câncer, mas não no nível de causadores de câncer como formaldeído e radiação UV.

Os estudos científicos que analisaram o glifosato até agora dizem que o produto pode realmente ser perigoso, quando pessoas e animais são expostos a ele de forma inadequada.

"As evidências não são tão fortes para ter certeza absoluta", disse Manolis Kogevinas, do Instituto de Saúde Global de Barcelona, ao Business Insider. "Mas sim, definitivamente há uma chance de que eles desenvolvam câncer".

Em 2017, a EPA alertou que "potenciais riscos ecológicos foram identificados para plantas, pássaros e mamíferos terrestres e aquáticos".

Em junho, a Bayer anunciou que vai investir 5 bilhões de euros nos próximos 10 anos em pesquisa de possiveis alternativas ao glifosato.

* Com informações de Tyler Durden, ZeroHedge, Bloomberg, Business Insider e Kline & Specter

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