Tornou-se um truísmo que o novo coronavírus não pode ser derrotado até que todos no mundo sejam vacinados. E os truísmos, nesta pandemia, causaram estragos.

Muitas das vacinas serão pagas por empréstimos internacionais que levarão à austeridade e a um pior investimento futuro em saúde pública nos países pobres.

O vírus da covid-19 e a resposta a ele devastaram a Europa e as Américas, mas a situação é muito diferente em outros lugares.

Cerca de 30.000 vidas foram perdidas para a doença entre o Saara e a África do Sul. Se incluir a África do Sul e Botswana, o número de fatalidades alcança 85.000.

Mesmo considerando a hipótese de subnotificação dos óbitos por covid, o risco ainda seria apenas moderado para a grande maioria dos africanos. A população do continente de 1,3 bilhão de habitantes é jovem – idade média de 20 anos –, a maioria vive em espaços abertos e o sistema imunológico é geralmente forte.

A malária (400.000 mortes por ano), o HIV/AIDS (300.000) e a esquistossomose (200.000) são ameaças muito maiores na África e afetam principalmente os jovens.

O site do Banco Mundial revela a extensão dos empréstimos que as nações africanas se comprometeram para comprar vacinas: de grandes países como Gana (US$ 200 milhões), Etiópia (US$ 207 milhões) e Quênia (US$ 130 milhões) a pequenos países, como Eswatini (US$ 5 milhões), Gâmbia (US$ 8 milhões) e São Tomé (US$ 6,5 milhões), o sistema de aquisição de vacinas covid está atolado na abordagem neocolonial de países africanos endividados.

E como essa dívida será reestruturada?

O estudo da Oxfam Adding Fuel to Fire: How IMF demands for austerity will drive up inequality worldwide, Adicionando combustível ao fogo: como as demandas do FMI por austeridade irão aumentar a desigualdade em todo o mundo, publicado em agosto de 2021, aponta que "85% dos 107 empréstimos negociados entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e governos de 85 nações para responder à pandemia indicam planos para empreender a consolidação fiscal, ou seja, austeridade, durante o período de recuperação".

"Meio bilhão de pessoas correm o risco de cair na pobreza como resultado da pandemia. Desde o início, o FMI alertou que o impacto ‘será profundo [...] com o aumento da desigualdade levando à convulsão social ’. Isso foi confirmado pela pesquisa da Oxfam revelando que, em 2020, a riqueza dos bilionários aumentou em impressionantes US$ +3,9 trilhões, enquanto os trabalhadores perderam US$ -3,7 trilhões na renda do trabalho durante o mesmo período", diz o estudo.

De acordo com a organização britânica, o FMI está “encorajando sistematicamente os países a adotar medidas de austeridade assim que a pandemia diminuir, arriscando um salto severo nos níveis de desigualdade já aumentados”, destacando que "uma variedade de estudos revelou a distribuição desigual do fardo da austeridade, que é mais provável de ser suportado por mulheres, famílias de baixa renda e grupos vulneráveis, enquanto a riqueza das pessoas mais ricas cresce".

A análise da Oxfam dos empréstimos do FMI revela que 26 governos, principalmente na África e nas regiões da América Latina e do Caribe, tinham planos para começar ou retomar a austeridade fiscal já em 2020 e 2021.

As medidas mais comuns propostas nos empréstimos do FMI incluem cortes e congelamentos de salários (31 países), aumentos de impostos sobre valor agregado (14 países) e cortes nas despesas públicas em geral (55 países).

* Com informações Unherd, Oxfam International

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