A Diretora do Departamento de Imunização, Vacinas e Produtos Biológicos da Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que a agência de saúde da ONU está formando um painel de especialistas para avaliar todas as variantes e os dados de eficácia das vacinas e recomendar mudanças nos programas de vacinação conforme necessário.

Em um levantamento da Reuters, renomados especialistas em doenças infecciosas e desenvolvimento de vacinas disseram que há evidências crescentes de que uma primeira rodada de vacinações globais pode oferecer proteção duradoura.

Contudo, executivos de farmacêuticas estão fazendo afirmações cada vez mais ousadas, sem fornecer dados ou evidências, de que o mundo precisará de injeções de reforço anuais ou novas vacinas para combater as variantes do coronavírus.

O CEO da Pfizer, Albert Bourla, disse que as pessoas "provavelmente" precisarão de uma dose de reforço da vacina da empresa a cada 12 meses para manter altos níveis de imunidade contra o vírus SARS-CoV-2 original e suas variantes.

"Há zero, e quero dizer zero, evidências que sugerem que esse é o caso", rebateu o Dr. Tom Frieden, ex-Diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

"É totalmente inapropriado dizer que provavelmente precisaremos de um reforço anual, porque não temos ideia de qual é a probabilidade disso", disse Frieden, que agora lidera a iniciativa global de saúde pública Resolve to Save Lives, sobre as afirmações da Pfizer sobre os reforços.

O Dr. William Gruber, vice-presidente sênior de pesquisa e desenvolvimento clínico de vacinas da Pfizer, disse à Reuters no início de maio que as previsões para reforços anuais foram baseadas em "uma pequena evidência" de um declínio na imunidade ao longo de seis meses, evidência que desde então foi contestada com pesquisas mostrando que a imunidade ao vírus da covid-19 é durável.

Vários estudos têm indicado que as pessoas que passam pela infecção e aquelas que são vacinadas geram uma resposta imune que as protege de reinfecções.

Por outro lado, o bilionário francês Stéphane Bancel, CEO da Moderna e dono de 9% da empresa, pretende produzir uma vacina para a variante sul-africana e espera que reforços regulares sejam necessários.

Já o Presidente da Moderna, Stephen Hoge, disse à Reuters que espera que reforços sejam necessários enquanto o vírus estiver circulando amplamente, porque as pessoas com alto risco de doenças graves precisam de uma maior proteção imunológica.

Hoge acrescentou que todos os governos estão conversando com a Moderna e outras farmacêuticas sobre as vacinas de reforço.

Os Estados Unidos estão se preparando para ter essas doses disponíveis para os americanos, enquanto a União Europeia, o Reino Unido e Israel encomendaram novos lotes das vacinas para serem utilizadas como reforços de proteção.

O receio é que um impulso das nações ricas para repetir a vacinação já neste ano aprofunde a divisão com os países mais pobres, que estão lutando para comprar vacinas e podem levar anos para inocular seus cidadãos, pelo menos uma vez.

"É uma grande preocupação que ... países ricos comecem a administrar doses de reforço e restringir ainda mais o fornecimento da primeira dose de vacina para as pessoas", disse Rajeev Venkayya, chefe de vacinas globais da Takeda Pharmaceutical.

A Dra. Monica Gandhi, médica da Universidade da Califórnia, em San Francisco, disse que, em última análise, as decisões sobre a necessidade de reforços "serão mais bem tomadas por especialistas em saúde pública, em vez de CEOs de uma empresa que pode se beneficiar financeiramente".

A Pfizer espera que a vacina Comirnaty seja um grande contribuinte de receita por anos e tem previsão de vendas de US$ 26 bilhões com o imunizante em 2021.

A IQVIA Holdings, empresa de dados de saúde, estima que os gastos globais com vacinas covid e injeções de reforço poderão totalizar US$ 160 bilhões até 2025.

* Com informações da Reuters

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