O manifesto Ruptura criticava a figuração e, sem mencionar uma única vez os termos abstração ou arte concreta, apontava para essas linguagens como sendo “o novo” na arte.

O documento defendia a “renovação dos valores essenciais da arte visual” por meio de pesquisas geométricas, aproximando arte e indústria, e combatendo o abstracionismo lírico entendido como expressão individual inadequada para o contexto da arte daquele momento.

Em 2022, o conjunto de obras expostas na mostra ruptura e o grupo: abstração e arte concreta, 70 anos traz à tona novas reflexões, questionamentos e análises, como explicam os curadores da mostra, Heloisa Espada e Yuri Quevedo.  

Para Helô Espada, “olhar para o grupo Ruptura hoje não significa aderir sem crítica às ideias apresentadas nos anos 1950, mas considerar as circunstâncias de seu aparecimento, assim como as várias contradições entre o que os artistas escreviam e aquilo que eles faziam. Ainda assim, a pesquisa visual desses artistas tinha uma conotação libertária, pois se propunha a imaginar novas formas de organizar o mundo no pós-guerra”.

Os artistas do Ruptura adotaram uma linguagem geométrica de cores vibrantes que não se confundia com as imagens da natureza. A proposta de uma arte não figurativa, que não representasse as aparências do mundo, buscava criar uma relação franca e direta com a realidade.

Para eles, na arte, apenas elementos visuais como cores, linhas e formas poderiam ser de fato considerados reais, pois não simulavam nenhuma aparência, eram eles mesmos. Além disso, em suas obras, a repetição de formas e a adesão às leis da teoria da percepção conhecida como Gestalt criavam uma forte sensação de movimento e ritmo visual.

A ideia de movimento projetava o dinamismo que os artistas do Ruptura desejavam ver na sociedade brasileira.

Em um primeiro momento, ruptura e o grupo: abstração e arte concreta, 70 anos aborda a mostra original do grupo Ruptura no MAM São Paulo, em 1952, por meio de um conjunto de documentos e de obras realizadas pelos artistas no início daquela década. Entre elas estão duas pinturas que estiveram na exposição: Desenvolvimento ótico da espiral de Arquimedes (1952), de Waldemar Cordeiro, e Vibrações verticais (1952), de Luiz Sacilotto.

Em seguida, a mostra aborda a produção do grupo ao longo da década de 1950, quando alguns artistas se afastam e novos nomes se aproximam do Ruptura, como Judith Lauand.

“Há uma discussão se o grupo Ruptura existiu como tal apenas na exposição de 1952, ou se ele tem uma duração mais longa. Essa dúvida se esclarece quando lemos os depoimentos dos artistas que entraram depois, e seguiram se referindo a eles mesmos como parte do Ruptura. Também percebemos a proximidade ao olhar para as obras, porque há entre elas uma coerência de preocupações e uma coincidência dos problemas que enfrentam”, explica Quevedo.

Durante a década de 1950, os artistas participantes são Anatol Wladyslaw, Geraldo de Barros, Hermelindo Fiaminghi, Judith Lauand, Kazmer Féjer, Leopold Haar, Lothar Charoux, Luiz Sacilotto, Maurício Nogueira Lima e Waldemar Cordeiro.

A mostra conta com obras raramente vistas de Haar, que estão guardadas em acervo familiar desde que o artista faleceu, em 1954, não tendo sido exibidas em nenhum local desde então. Helô ressalta que por existir um limite tênue entre as esculturas que produzia e as maquetes de projetos para vitrines, “Haar é um dos artistas que melhor exemplifica a proposta do Ruptura de que a arte deveria ter uma aplicação prática na vida das pessoas”.

Yuri Quevedo acrescenta que “o grupo defendia a abstração como projeto de transformação, capaz de permear o cotidiano das pessoas, influenciando a indústria e organizando a vida em suas mais diversas escalas: das artes plásticas ao design, da arquitetura à cidade”.

Círculos com movimento alternado (1956), de Hermelindo Fiaminghi. Coleção MAM São Paulo. Foto: © Romulo Fialdini
Círculos com movimento alternado (1956), de Hermelindo Fiaminghi. Coleção MAM São Paulo. Foto: © Romulo Fialdini

“Depois de antecipar as discussões sobre o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 no ano passado, a programação do MAM em 2022 reflete sobre uma outra geração de artistas modernos que estão intimamente ligados à história do museu. Trata-se de um grupo que participou ativamente dos primeiros anos do MAM e que tinha um ideal utópico que revela muito do ambiente cultural em que o MAM foi criado”, discorre Cauê Alves, curador-chefe do MAM São Paulo.

“A mostra sobre o grupo Ruptura, além de dar visibilidade a artistas tão importantes na invenção da arte concreta e no abstracionismo geométrico no Brasil, revê um momento fundamental da história da arte e da história do MAM. São poucas as instituições culturais que podem, 70 anos depois, revisitar uma exposição que ela mesma realizou”, diz Elizabeth Machado, presidente do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Sobre o grupo Ruptura

Grupo Ruptura foi um conjunto de artistas que marcou o início do movimento de arte concreta em São Paulo, no Brasil. Criado em 1952, era liderado por Waldemar Cordeiro (também seu principal teórico) e composto, inicialmente, por Geraldo de Barros, Luiz Sacilotto, Lothar Charoux, Kazmer Féjer, Anatol Wladyslaw e Leopold Haar. Depois da primeira exposição, Maurício Nogueira Lima, Hermelindo Fiaminghi e Judith Lauand passaram a integrar o grupo.

Museu de Arte Moderna de São Paulo
Exposição ruptura e o grupo: abstração e arte concreta, 70 anos
Curadoria: Heloisa Espada e Yuri Quevedo
Período: 2 de abril a 3 de julho de 2022
Horário: terça a domingo, das 10h às 18h
Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral s/nº, portões 1 e 3, Parque do Ibirapuera, São Paulo/SP
Telefone: (11) 5085-1300
Ingresso: R$ 25 inteira. Agendamento prévio necessário.
Gratuidade aos domingos