"Não faz muito tempo, a maioria das economias crescia em ritmo próximo ao da China. Mas, nos últimos anos, essas ligações se enfraqueceram e depois ruíram durante a pandemia. De forma mais dramática, a correlação entre o crescimento do produto interno bruto na China e outros mercados emergentes caiu desde 2015 de quase perfeita (mais de 0,9) para quase inexistente (menos de 0,2). No segundo trimestre deste ano, a China cresceu significativamente mais devagar do que outros mercados emergentes pela primeira vez em três décadas, o que pode ser um sinal do que está por vir", escreve Sharma em artigo do Financial Times.

"Pequim está se fechando para conter a pandemia e reprimindo setores economicamente críticos e o alto endividamento corporativo, com uma agressividade inigualável por qualquer outro governo. Isso explica em muito por que a China está desacelerando tão rapidamente agora, quando o resto do mundo não está. Mas a ligação entre o crescimento na China e outras economias começou a se afrouxar há cerca de cinco anos, então este momento pode refletir forças mais profundas em jogo", acrescenta Sharma.

"Uma delas é a nova guerra fria comercial. A China tem se voltado para dentro, substituindo um modelo de crescimento impulsionado pelo comércio exterior por um impulsionado pelos consumidores domésticos. As exportações caíram como proporção do PIB da China de mais de 35 por cento antes de 2010 para menos de 20 por cento hoje. Em 2015, Pequim lançou o Made in China 2025, uma campanha para se tornar mais autossuficiente comprando mais suprimentos e desenvolvendo mais tecnologia em casa", lembra o estrategista-chefe global do Morgan Stanley.

Sharma prevê que a economia chinesa crescerá em ritmo menor nos próximos anos – cinco anos atrás, o país crescia duas vezes mais rápido que a média de outros mercados emergentes.

A China respondeu por cerca de 35% do crescimento do PIB global nos anos anteriores à pandemia, mas essa parcela agora é de cerca de 25%.

"Enfrentando o peso de uma população cada vez menor e suas dívidas enormes, a China provavelmente crescerá mais lentamente do que outros mercados emergentes nos próximos anos", diz o artigo.

Sharma lembra que outros motores de crescimento global estão ganhando impulso, "cada um elevando um conjunto diferente de países de maneiras significativas".

"A revolução digital está aumentando a demanda por semicondutores e outros produtos de alta tecnologia, impulsionando as exportações de mercados emergentes avançados, como Taiwan e Coreia do Sul. Os crescentes fluxos de dados estão desafiando a desaceleração do comércio global e da China", exemplifica o especialista em mercados emergentes.

A dissociação global da China pode perdurar, observa o economista.

"A revolução digital, a luta contra as mudanças climáticas e a nova Guerra Fria provavelmente sobreviverão aos efeitos da pandemia e podem anunciar uma nova era de crescimento no mundo emergente. Durante a última era de ouro para os mercados emergentes, após a virada do milênio, muitos prosperaram principalmente fornecendo peças ou matérias-primas para a China. Agora, eles têm mais opções", diz o artigo.

Contudo, vale lembrar que a China ainda é o principal parceiro comercial de mais nações do que qualquer outro país e o principal comprador global de commodities.

Dizer que a China importa menos não é dizer que não importa, ressaltou Sharma.

"Se, por exemplo, sua campanha para reduzir dívidas corporativas maciças, especialmente no setor imobiliário, terminar em colapso, os efeitos serão globais e inevitáveis. Mas tremores menores podem não ter maiores consequências".

"Pode ser que, quando a China tropeçar, o mundo não caia mais com ela", concluiu Sharma.

PIB chinês

Em outubro, o Bank of America (BofA) reduziu a previsão de crescimento econômico da China para este e o próximo ano, após a divulgação dos dados do PIB do terceiro trimestre. Foi a segunda vez em poucos meses que o banco reduziu a estimativa de crescimento para a segunda maior economia do mundo.

A previsão para a expansão do PIB chinês em 2021 passou de 8,0% para 7,7%, enquanto para 2022 caiu de 5,3% para 4,0%.

A recuperação da economia chinesa está perdendo fôlego em meio à crise de energia, que atingiu o setor industrial do país, interrupções na cadeia de abastecimento, surtos esporádicos de infecções, desaceleração no consumo, além do agravamento do endividamento de seu setor imobiliário, amplificado recentemente pelos problemas da Evergrande, que acumula dívidas de mais de 300 bilhões de dólares, e afetam o ânimo dos possíveis compradores de imóveis.

Analistas da Fidelity International disseram que, embora os temores do setor imobiliário estejam no "epicentro do choque", o obstáculo econômico é exacerbado pelo problema de energia, por lockdowns regionais e a estratégia de "covid zero", que atingiu o setor de serviços.

O racionamento de energia elétrica, o crescente custo das matérias-primas e as medidas climáticas do governo provocaram uma redução das atividades de mineração e manufatureira.

O país sofreu um "golpe adicional em setembro" com os apagões e cortes na produção devido a uma aplicação estrita das metas climáticas e de segurança por parte dos governos locais. O problema foi visível na queda da produção industrial, que desacelerou a 3,1% na comparação anual até setembro.

"Devemos considerar que estão aumentando as incertezas no cenário internacional e que a recuperação econômica interna ainda é instável e desigual", afirmou o porta-voz do Escritório Nacional de Estatísticas (ONS), Fu Linghui.

O presidente do banco central chinês, o Banco do Povo da China (PBoC), Yi Gang, disse, em um seminário em outubro, que as autoridades estão atentas e que o PIB deve crescer quase 8% este ano.

Na segunda-feira (6), o PBoC anunciou um corte de 50 pontos-base na taxa de compulsório bancário (RRR), com efeito a partir de 15 de dezembro. Com a redução, a taxa média em vigor fica em 8,4%.

A decisão marca a primeira queda da RRR chinesa desde julho.

O PBoC garante que não pretende recorrer à “inundação” de estímulos à economia e ressalta que o objetivo é fortalecer ajustes cíclicos, “otimizar a estrutura de capital das instituições financeiras, melhorar a capacidade dos serviços financeiros e apoiar melhor a economia real”.

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