O nascimento da gata Garlic, revelado em 21 de julho, foi amplamente anunciado pela imprensa chinesa e internacional.

Não se tratava de um avanço da ciência.

A primeira clonagem de um animal doméstico ocorreu em 2001, com o nascimento da gata CC (CopyCat ou CarbonCopy). Em 2004, foi produzido comercialmente o primeiro animal de estimação clonado, o gato Little Nicky.

A companhia chinesa de biotecnologia Sinogene recebeu discreta cobertura na imprensa, que privilegiou a narrativa do cliente feliz.

A filhote permaneceu sob os cuidados do laboratório desde o nascimento até hoje (20), quando foi entregue ao cliente, Huang Yu.

Em 9 de janeiro, Garlic, a gata de 3 anos de Huang Yu, não resistiu a uma doença no trato urinário. Chocado, ele acionou a Sinogene para coleta imediata de material genético, que também providenciou armazenamento criogênico.

O jovem empresário de 23 anos relembra: “Quando Garlic morreu, fiquei muito triste. Não pude encarar os fatos porque foi repentino".

Três meses depois, inconsolável e torturado pelo pensamento de ter sido negligente, por ter dedicado muito tempo a um novo negócio e não ter levado a gata a um hospital veterinário a tempo, Huang Yu acabou assinando um contrato de US$ 35 mil com a Sinogene para continuar a linhagem da gata de estimação através de clonagem.

“No meu coração, Garlic é insubstituível. Garlic não deixou descendentes para as gerações futuras, então restou apenas a clonagem”, disse Huang em entrevista ao The New York Times.

Hoje, ao receber a nova Garlic, Huang afirmou que sua decisão de prosseguir com o processo foi impulsiva.

"No contrato, a cláusula escrita diz que a empresa é responsável por garantir que o clone seja 99% semelhante, mas não há nenhuma declaração sobre a aparência. Eu deveria ter verificado mais detalhadamente", disse Huang.

Ele disse que costumava pensar que a nova gata seria exatamente igual. Embora o DNA corresponda ao da Garlic original, o primeiro clone de gato da China mostra diferenças na cor dos olhos, no pêlo e, principalmente, falta uma marca cinza distintiva no queixo.

"Se eu disser que não fiquei desapontado, estaria mentindo", disse Huang.

Falando sobre a diferença de aparência entre os dois gatos, Lai Liangxue, Cientista-Chefe da Sinogene e membro da Academia Chinesa de Ciências, disse ao Global Times: "A incerteza é diferente caso a caso e depende do estado e idade do animal original quando as células são coletadas. Quanto mais jovem o animal, melhor a qualidade da amostra do gene".

Huang perguntado se escolheria clonar Garlic se pudesse tomar a decisão novamente, ele confessou que não.

"O tempo de alguma forma curou minha tristeza por perder Garlic. Eu simplesmente não podia aceitar o fato de que Garlic se foi e fiz algo impulsivo", disse.

A estória de Huang Yu é similar a de inúmeros jovens chineses que perderam seus animais de animação e não conseguem enfrentar a perda, com duas importantes diferenças:

  • Garlic entrou para a história, como a primeira gata produto de clonagem comercial na China,  porque a Sinogene tomou conhecimento de uma pesquisa de mercado de que os gatos estão ganhando popularidade na China, explicou o CEO da Sinogene, Mi Jidong, ao The New York Times. Garlic é produto do capitalismo em um país comunista.
  • A familia de Huang Yu tinha recursos para cobrir as despesas da clonagem sem dificuldade. No entanto, a imprensa chinesa relata inúmeros casos de jovens que comprometeram o próprio futuro, e o de seus pais, para levantar a quantia para a clonagem de cães, uma despesa mínima de US$ 53 mil na Sinogene.

Em entrevista à Agência France Presse, o CEO Mi Jidong, confirma que o procedimento de clonagem é popular com clientes mais jovens, apesar do alto custo.

“Independente  da origem dos bichos, seus donos os vêem como parte da família. Esse  avanço na ciência atende as necessidades emocionais das novas gerações”, garante Jidong.

O vice-gerente geral da Sinogene, Zhao Jianping, disse que a bem-sucedida clonagem de Garlic permitirá que a empresa comece oficialmente a oferecer serviços de clonagem de gatos. Zhao disse ao Global Times que vários proprietários de gatos já haviam reservado o serviço, sugerindo que o mercado pode ser enorme.

Wen Jun, professor da East China Normal University, disse ao Beijing Youth Daily que animais clonados são necessários quando pacientes gravemente enfermos precisam deles para fazer companhia na última fase de suas vidas. Nos demais casos, os donos devem superar a perda, pois os animais clonados não têm as memórias anteriores e não devem ser produzidos apenas para atenuar tristezas.

A China tem mais de 50 milhões de donos de cachorros ou gatos de estimação, de acordo com relatório de 2018 da CNBData.

CC e Little Nicky

Embora a tecnologia de clonagem seja muito bem recebida para os donos de animais, continua controversa na acadêmia. Muitos argumentam que os animais sofrem com o processo e que ameaça os seus direitos. Alguns temem que a tecnologia de clonagem se aplique aos seres humanos um dia.

A clonagem de animais domésticos foi impulsionada pelo bilionário americano John Sperling, fundador da University of Phoenix, com o financiamento de pesquisas da Texas A&M University em 1998 para clonar o cão de uma amiga.

Em 2000, para acelerar as pesquisas Sperling fundou sua própria empresa de biotecnologia, a Genetic Savings & Clone, estabelecida em Sausalito, CA.

Trabalhando em conjunto com a Texas A&M, no ano seguinte a organização de Sperling entrou para a história produzindo o primeiro animal doméstico clonado, a gata CC (Carbon Copy ou CopyCat).

Três anos depois, a Genetic Savings & Clone tinha produzido no período mais 3 gatos clonados, para exibições científicas, e entregou a primeira clonagem comercial, o gato Little Nicky, substituto de um gato que tinha vivido 17 anos, supostamente tendo cobrado US$ 50 mil pelo serviço.

A companhia de Sperling atraiu dezenas de pessoas interessadas em trazer seus animais 'de volta à vida'.  Setores da sociedade ficaram furiosos. A empresa estimulou um amplo debate sobre a ética e a moralidade da clonagem de animais de estimação.

Lou Hawthorne, CEO da Genetic Savings & Clone, defendeu a empresa de biotecnologia: "Não estamos curando o câncer, mas acreditamos que estamos aumentando a quantidade de alegria do mundo".

Em 2006, Sperling fechou a Genetic Savings & Clone e cessaram os debates sobre clonagem. As discussões foram reabertas com o anúncio da Sinogene. A empresa produziu mais de 40 cães clonados nos últimos 24 meses.

* Com informações da Sinogene Biotechnology Company, The Scientist, Global Times, Agence France-Presse, The Independent, Los Angeles Times.

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