A campanha de informação, desenvolvida pelo Comando de Operações Conjuntas do Canadá (CJOC) sem autorização do governo, utilizou técnicas de propaganda semelhantes às empregadas durante a guerra do Afeganistão.

O plano de propaganda foi colocado em prática em abril de 2020, embora as Forças Canadenses já tivessem reconhecido que “as operações de informação e as políticas e doutrinas de seleção de alvos são destinadas aos adversários e têm uma aplicação limitada em um conceito doméstico”.

A campanha visava “moldar” e “explorar” informações.

O CJOC alegou que a operação era necessária para impedir a desobediência civil dos canadenses durante a pandemia e para reforçar as mensagens do governo.

O Chefe do Estado-Maior de Defesa, General Jon Vance, encerrou a iniciativa de propaganda do CJOC no mês seguinte, depois que seus assessores questionaram a legalidade e a ética por trás do plano.

Vance então trouxe o Major-General reformado Daniel Gosselin para examinar como a CJOC foi capaz de desenvolver e lançar a operação de propaganda sem aprovação.

Gosselin concluiu que os comandantes militares acreditavam que não precisavam obter a aprovação de autoridades superiores para desenvolver e prosseguir com o plano.

A investigação descobriu que o apoio para o uso de tais operações de informação era "claramente uma mentalidade que permeava o pensamento em muitos níveis do CJOC".

Os que estavam no comando viram a pandemia como uma “oportunidade única” para testar as técnicas em canadenses.

O CJOC viu a resposta dos militares à pandemia "como uma oportunidade de monitorar e coletar informações públicas a fim de aumentar a conscientização para uma melhor tomada de decisão do comando", determinou Gosselin.

Gosselin também apontou que o CJOC tem uma “atitude de desprezo palpável” em relação aos conselhos e preocupações levantados por outros líderes militares.

Operações de informação

Há um debate contínuo dentro da sede da defesa nacional em Ottawa sobre o uso de técnicas de operações de informação.

Alguns oficiais de relações públicas, especialistas em inteligência e planejadores desejam expandir o escopo de tais métodos no Canadá para permitir que controlem e moldem melhor as informações governamentais que o público recebe.
Outros temem que tais operações possam levar a abusos, incluindo o fato do pessoal militar enganar intencionalmente o público canadense ou tomar medidas visando parlamentares da oposição ou aqueles que criticam o governo ou a política militar.

Lobos à solta

O treinamento e as iniciativas de propaganda militar no Canadá durante o ano passado provaram ser controversos.

As Forças Canadenses tiveram que iniciar uma investigação após um incidente em setembro de 2020, quando a equipe de operações de informações militares forjou uma carta do governo da Nova Escócia alertando sobre lobos à solta em uma região específica da província.

A carta foi distribuída inadvertidamente aos residentes, gerando ligações em pânico para autoridades policiais, que não sabiam que os militares estavam por trás da farsa. A investigação determinou que os reservistas que conduziram a operação careciam de treinamento formal e as políticas que regiam o uso de técnicas de propaganda não foram bem compreendidas pelos soldados.

Em outra revisão, os comandantes lançaram um plano polêmico que teria permitido que oficiais militares de relações públicas das Forças Canadenses usassem propaganda para mudar atitudes e comportamentos dos canadenses, bem como coletar e analisar informações de contas públicas de mídia social.

O plano teria feito o pessoal passar dos métodos tradicionais do governo de comunicação com o público para uma estratégia mais agressiva de usar guerra de informação e táticas de influência sobre os canadenses.

Entre essas táticas estava o uso de analistas de defesa e generais aposentados para divulgar mensagens militares de relações públicas e criticar nas redes sociais aqueles que levantavam questões sobre gastos militares e responsabilidade.

As Forças Canadenses também gastaram mais de US$ 1 milhão para treinar oficiais de relações públicas em técnicas de modificação de comportamento, do mesmo tipo das usadas pela firma Cambridge Analytica.

Uma iniciativa separada, não vinculada ao plano CJOC, mas supervisionada por oficiais de inteligência das Forças Canadenses, coletou informações de contas públicas de mídia social em Ontário. Dados também foram compilados de reuniões do Black Lives Matter e de seus líderes.

A iniciativa de mudar a estratégia militar de relações públicas foi abruptamente encerrada em novembro, depois que o jornal National Post revelou detalhes sobre o plano. Uma investigação militar determinou que o que a liderança de relações públicas das Forças Canadenses estava fazendo era “incompatível com a Política de Comunicações do Governo do Canadá"  e com a "missão e princípios de Relações Públicas”. Nenhuma das lideranças foi disciplinada por suas ações.

* Com informações do National Post

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