Em visita oficial à Espanha, em novembro de 2012, Dilma Rousseff foi destaque no El País ao afirmar que o modelo de austeridade adotado pela Europa estava fadado ao fracasso.

No Brasil, o sistema econômico capitalista 'à brasileira' tinha o Estado como forte protagonista. O governo controlava ou procurava influenciar empresas em setores-chave e, via BNDES e fundos de pensão, apostava na criação de campeões nacionais, companhias com potencial para se tornar líderes mundiais nos seus setores.

Além disso, tinha uma política de investimentos indiretos em determinadas companhias privadas – das quais o Estado se tornaria acionista minoritário.

Em 2012, ao analisar este fenômeno, a revista britânica The Economist classificou o Brasil como um exemplo do modelo que classificou como "capitalismo de Estado", que também seria predominante em países como China e Rússia.

A Alemanha de amanhã se parece com o Brasil de ontem.

Angela Merkel usou o pânico da pandemia para ampliar o poder do Estado de intervir na economia. Por exemplo, o governo poderá escolher entre vencedores e perdedores, semear novas indústrias e preparar campeões nacionais.

Ao fim do processo, a Chanceler terá implementado um tipo de capitalismo de Estado na Alemanha inspirado no modelo chinês e assemelhado ao francês.

A proposta tinha sido apresentada em fevereiro de 2019 pelo Ministro da Economia Peter Altmaier e foi rejeitada numa avalanche de críticas.

Os políticos do partido de Merkel deixaram claro que não estavam dispostos a dar imenso poder ao governo. Os parceiros europeus mostraram preocupação com o caminho de uma política protecionista "Alemanha Primeiro".

Na indústria, a estratégia passava por dar autoridade ao governo para investir em tecnologia. Altmaier queria uma maior ligação à indústria para fomentar a criação de players globais no país.

O poderoso Mittelstand (pequenas e médias empresas) do setor industrial atacou o plano, considerando-o uma ameaça aos negócios.

Altmaier foi forçado a desistir em novembro, quando apresentou uma versão leve do que pretendia, a que chamou de "Made in Germany: Industriestrategie 2030".

A sua iniciativa tinha morrido, até que o coronavírus mudou as regras do jogo.

Em março, autoridades do governo alertaram para a necessidade de medidas extraordinárias e urgentes para evitar o colapso da economia.

Com pouca discussão e nenhuma oposição significativa, o governo conseguiu aprovar a criação de um fundo de 600 bilhões de euros, solução elaborada em "velocidade vertiginosa" pelo Ministério da Economia.

Na realidade, o Fundo de Estabilidade Econômica do governo federal (WSF) criado em março foi concebido um ano antes como parte da estratégia de Altmaier.

O WSF inclui 100 bilhões de euros de dinheiro dos contribuintes para investir diretamente e comprar empresas.

O socorro de 9 bilhões de euros da Lufthansa – incluindo a participação de 20% do governo, o direito de bloquear aquisições indesejadas, e dois assentos no conselho fiscal – estabelece um marco de como o governo Merkel pretende que a economia seja gerida na era pós-pandemia.

"Demos ao mercado um sinal convincente de apoio à economia de mercado. Mas este também é um sinal de que o Governo alemão pretende defender a soberania tecnológica e econômica deste país", disse Altmaier na conferência de imprensa.

Segundo a Lufthansa, o Estado alemão deixará de ser acionista da empresa no final de 2023. O governo federal, no entanto, somente irá retirar sua participação se justificar economicamente. O momento depende da situação e da habilidade da companhia aérea, de acordo com o Ministro das Finanças, Olaf Scholz.

Também estão a ser trabalhados programas estratégicos, como medidas para proteger empresas alemãs da concorrência estrangeira, reduzir a dependência das cadeias de fornecimento do exterior e impulsionar a indústria local.

A ambição do plano do ministro alemão ainda está presente na proposta do fundo de recuperação da UE, apresentado por Merkel e Macron, que inclui regras mais leves para permitir ajudas de Estado e facilitar a criação de empresas maiores.

"Vemos que outros países, como os EUA, Coreia do Sul, Japão ou a China, têm um forte peso de ‘campeões globais’", disse Merkel. "Acredito que esta abordagem é a resposta necessária".

Fim da austeridade

Os contornos da nova estratégia alemã estão visíveis nas medidas de estímulo.

Merkel intermediou um pacote de 130 bilhões de euros para a economia alemã em dificuldades.

O pacote – 30% maior que o esperado – significa que a Alemanha já disponibilizou mais de 1,3 trilhão de euros para amortecer o impacto da pandemia, de longe o maior na União Europeia.

O compromisso com orçamentos equilibrados foi deixado de lado.

"Não é apenas o tamanho do pacote que é notável, mas também o fato de o governo alemão ter feito uma inversão de marcha completa", escreveu Carsten Brzeski, economista-chefe da região euro no ING, em nota aos clientes. "De campeão da austeridade a grande gastador – há alguns meses, concluir com tal comentário sobre a política fiscal alemã seria quase impensável".

Recessão

A economia da Alemanha contraiu 2,2% no primeiro trimestre de 2020.

Os dados mais recentes da Destasis mostraram revisões nos números do quarto trimestre de 2019, de crescimento zero para contração de 0,1%.

Tecnicamente a Alemanha está agora em recessão, definida como dois trimestres consecutivos de crescimento econômico negativo.

O PIB deverá encolher ainda mais no segundo trimestre, com alguns economistas prevendo que pode contrair 10%.

As autoridades estimam contração de 6,3% para 2020, a maior queda desde que os números trimestrais do PIB alemão começaram a ser registrados, em 1970.

* Com informações do Jornal de Negócios, Folha de S.Paulo, Bloomberg, DW

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