"As análises realizadas pelo BC indicam que não há risco relevante para a estabilidade financeira. Testes de estresse de capital demonstram que o sistema bancário está preparado para enfrentar todos os choques macroeconômicos simulados", resume o novo Relatório de Estabilidade Financeira, divulgado nesta segunda-feira (18).

No teste de estresse, o BC simula o quanto uma situação de severa inadimplência e de corrida aos bancos impacta o cumprimento dos limites regulatórios mínimos pelas instituições financeiras e quanto a autoridade monetária precisaria aportar ao sistema financeiro.

Dois cenários foram utilizados. O primeiro considera uma queda conjunta na atividade econômica, na inflação e na taxa de juros. O segundo provocaria queda na atividade econômica, com aumento na inflação e na taxa de juros. Em ambos, os resultados indicam que não haveria desenquadramentos relevantes.

O resultado do teste de estresse de liquidez indica resiliência das instituições bancárias para absorver choques de curto prazo.

"O nível de provisões é suficiente para suportar as perdas esperadas com crédito. Não há indícios de necessidade de novas provisões que possam comprometer o capital disponível", avalia o BC.

O provisionamento tem se mostrado adequado tanto para fazer face a perdas com operações repactuadas como com operações não repactuadas.

"No primeiro semestre de 2021, o SFN manteve as provisões elevadas, as perdas esperadas com crédito se reduziram, a capitalização do sistema bancário melhorou, e a liquidez manteve-se confortável. Esse desempenho está em linha com a evolução positiva da economia doméstica, em um período de recuperação parcial da confiança dos agentes econômicos e de avanço da campanha de vacinação", explica o BC.

Segundo o Banco Central, os indicadores econômico-financeiros das companhias de capital aberto estão melhores que no período imediatamente anterior à pandemia – apenas as empresas de grande porte dos setores “Mídia e Lazer” e “Telecomunicações” ainda não alcançaram o fluxo de recebimentos anterior à pandemia.

O financiamento a grandes empresas "expandiu de forma importante no mercado de capitais", enquanto o crédito bancário às micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) "cresceu de forma expressiva, mesmo com o fim dos programas emergenciais", destaca o relatório.

Crescimento mensal e anual da carteira MPME. Fonte/Arte: © Banco Central
Crescimento mensal e anual da carteira MPME. Fonte/Arte: © Banco Central

O BC espera nova expansão a partir do segundo semestre de 2021, com a retomada dos programas de incentivo.

"A materialização do risco de crédito bancário a empresas não financeiras não sofreu alterações. Nas MPMEs, o valor dos créditos considerados Ativos Problemáticos (APs) ficou estável, porém o percentual de APs em relação à carteira se reduziu, devido ao aumento do estoque. Para as grandes empresas, o valor dos créditos considerados APs não apresentou movimento relevante. Não há expectativa de aumento importante no percentual de APs, salvo em caso de deterioração macroeconômica", avalia o BC.

Crédito a pessoas físicas

A expansão do crédito a pessoas físicas ocorre em praticamente todas as modalidades.

As contratações do financiamento imobiliário seguem estimuladas pelas taxas de
juros baixas. A participação dessa modalidade de crédito no Produto Interno Bruto (PIB) continua baixa.

O crédito consignado elevou-se devido ao aumento do limite de consignação, que foi prorrogado até dezembro de 2021.

"O forte aumento das modalidades voltadas ao consumo indica mais apetite ao risco por parte das instituições financeiras, em um contexto de menos restrições à circulação da população", avalia o BC.

Inadimplência

Apesar do aumento das concessões de crédito, o endividamento e o comprometimento de renda, quando calculados somente para os indivíduos que
regularmente possuem dívidas bancárias, apresentam, respectivamente, leve aumento e estabilidade indicando a manutenção da qualidade da carteira.

"Os ativos considerados problemáticos mantiveram-se estáveis, embora os indicadores de nível de risco tenham se reduzido devido ao aumento da
carteira de crédito. O desempenho de algumas carteiras específicas requer acompanhamento, como, por exemplo, o crédito imobiliário com recursos do FGTS, cuja inadimplência tem aumentado", aponta o relatório.

Embora os prazos nos financiamentos de veículos estejam aumentando, as atuais características de concessão resultam em uma carteira com risco inferior ao observado na carteira gerada no segundo semestre de 2010, que levou o BC a adotar medidas prudenciais.

Rentabilidade dos bancos

Após queda significativa no primeiro semestre de 2020, a rentabilidade do sistema
recuperou-se e retornou aos níveis pré-pandemia.

O sistema registrou lucro líquido de R$ 62 bilhões no primeiro semestre de 2021, 53% acima do registrado em igual período do ano anterior e 3% acima do observado no primeiro semestre de 2019. No primeiro e no segundo trimestre de 2021, os lucros e o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) do sistema situaram-se em níveis equivalentes àqueles observados antes da pandemia.

"A principal causa para a recuperação da rentabilidade é o menor volume de despesas com provisões. A inadimplência sob controle e a materialização de perdas aquém do esperado sugerem que não haverá alteração significativa nas despesas com provisões no curto prazo. Melhoras consistentes nas receitas com serviços e despesas administrativas crescendo abaixo da inflação também têm beneficiado a rentabilidade", pondera o Banco Central.

"No curto prazo, a elevação da taxa básica de juros pressionará o custo de captação. A receita com crédito será impactada à medida que novas operações forem sendo concedidas, em um novo nível de taxas de juros. Eventual recuperação da atividade mais lenta que o esperado pode prejudicar o cenário para a rentabilidade do sistema à frente", alerta a autoridade monetária.

Por sua vez, a reforma tributária, se aprovada pelo Congresso, "impactará a rentabilidade de diferentes formas”.

Segundo o BC, em um primeiro momento “haverá reavaliação do crédito tributário, sem efeito no caixa dos bancos. No médio prazo, a alíquota menor reduzirá o dispêndio com tributos”.

Perspectivas

"Ainda há bastante incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia. Isso porque há risco de disseminação de novas variantes do SARS-CoV-2, dificuldade para algumas cadeias produtivas obterem insumos, além de eventuais implicações da crise hídrica", enumera o BC.

"No âmbito global, o sistema financeiro das principais economias segue resiliente. As instituições financeiras mantêm níveis de capital e liquidez robustos. Testes de estresse realizados pelas jurisdições indicam que o sistema financeiro global permanece preparado para suportar choques".

 Systemic Risk Analysis (SRisk). Fonte/Arte: © Banco Central
Systemic Risk Analysis (SRisk). Fonte/Arte: © Banco Central

* Com informações do Banco Central

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