Exibindo obras produzidas entre 1922 e 1981, provenientes de coleções do exterior e de acervos museológicos brasileiros, a maior mostra já realizada no País sobre o artista estreou nesta quarta-feira (16) no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro.

A exposição apresenta a evolução de mais de cinquenta anos de trabalho do artista e revisita quatro temas que inspiraram sua criação e sua vida:

  • suas origens, as memórias de sua infância, as tradições russas e judaicas que ele viveu desde criança;
  • sua profunda espiritualidade, que deu origem a criações muito intensas, principalmente às obras que se baseiam na Bíblia;
  • o exílio nos Estados Unidos;
  • o amor pela primeira mulher e musa Bella Rosenfeld.

A mostra está estruturada em quatro módulos:

  • 'Origens e tradições russas', onde as obras de Chagall refletem muito da tradição familiar que ele absorveu ao longo da infância e da adolescência.
  • 'Mundo sagrado', que traz influências de uma viagem que ele fez à Palestina com a família em 1931 – aqui, ele retrata uma série de cenas bíblicas e também do Êxodo. É a fase religiosa do trabalho de Chagall.
  • 'O poeta com asas de pintor', onde o mundo do circo e da vida em Paris os levam a produzir telas muito coloridas.
  • 'O amor desafia a força da gravidade'. O tema principal são os casais de namorados e noivos. O amor está presente em todas as imagens.

Além dos diferentes momentos de sua carreira, a exposição destaca as muitas técnicas e suportes explorados por Chagall, como óleos, guaches e pastéis, em pinturas, desenhos e litografias.

A seleção traz obras de coleções de várias partes do mundo, incluindo empréstimos de instituições brasileiras, a exemplo das telas “O vendedor de gado” (1922), do acervo do Masp, “O violinista apaixonado” (1967) e “Cidade cinzenta” (1964), da Coleção Nemirovsky, em comodato com a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

A vida de Marc Chagall

Marc Chagall nasceu Moishe Segal em uma família hassídica judaica lituana em Liozna, perto da cidade de Vitebsk (Bielorrússia, então parte do Império Russo) em 1887, mais precisamente no “Território do Acordo”, onde era permitida a residência de judeus junto com uma população local de russos cristãos. Essa “Zona Residencial” compreendia a Ucrânia, Bielorrússia, Polônia, Lituânia e Letônia.

Na época, Vitebsk tinha 66 mil habitantes, sendo a metade judia. Uma pitoresca cidade de igrejas e sinagogas, foi chamada de "Toledo Russo", em homenagem a uma cidade cosmopolita do antigo Império Espanhol. Construída principalmente de madeira, pouco da cidade sobreviveu a anos de ocupação e destruição durante a Segunda Guerra Mundial.

A numerosa família de Marc Chagall morava na parte pobre da cidade. Ele era o mais velho de nove filhos, entre os quais se destacava, pois falava russo, havia tido aulas de violino e canto e começara a desenhar.

Já adolescente, solicitou com muita perseverança a autorização de residência na capital da Rússia, exigida aos judeus. Em São Petersburgo, recebeu uma bolsa de estudos que lhe permitiu estudar em uma afamada escola com o pintor Leon Bakst.

Apesar de ser muito religiosa, sua família entendeu seu desejo de explorar um mundo pictórico sem limitações iconográficas, no qual a figura humana sempre está presente.

Nessa época, conheceu a jovem que seria sua mulher, Bella Rosenfeld.

Em 1910 chegou o momento de buscar novos horizontes: Paris. Um mês antes, Leon Bakst havia se instalado na capital francesa. Foram tempos duros, de muita pobreza, porém Marc Chagall continuou trabalhando sem parar.

Foi a época do descobrimento do impressionismo, do surrealismo, do cubismo e do fauvismo. Aprendeu novas técnicas, mas continuou fiel à sua maneira de pintar, retratando Vitebsk com sua catedral e igreja, junto com as casinhas de madeira, seus habitantes, porém, de uma maneira muito poética. Pode-se dizer que Marc Chagall foi um artista solitário em seu mundo de recordações e simbologias.

Apesar de ser caracterizado como um pintor modernista, Chagall é dono de um estilo único da representação de formas e cores, fundindo elementos do folclore russo, temas religiosos judaicos e cristãos, além de percepções derivadas do universo circense, das flores e das cidades onde viveu – sobretudo de Paris.

"Ele teve um primeiro período na França, entre 1911 e 1914, onde conviveu com vários artistas e manteve um diálogo com todos esses movimentos, mas permaneceu um artista único. O repertório de Chagall é muito próprio, muito particular. Ele criou um método revolucionário para retratar as formas e as cores e isso não cabia em nenhum movimento específico", avalia a organizadora da mostra, Cynthia Taboada.

O Concerto (1957), de Marc Chagall
O Concerto (1957), de Marc Chagall

Na primavera de 1914, seu amigo, o poeta Apollinaire lhe consegue sua primeira exposição individual em Berlim. Chagall vê a oportunidade de visitar Rússia, sua família e Bella. Mesmo em época de guerra consegue um visto de três meses, mas chegando na Rússia fecham-se as fronteiras. É um período de muita produção e do seu casamento com Bella.

Chegou a Revolução Bolchevique e Chagall aderiu a ela com entusiasmo. Obteve o cargo de Comissário de Belas Artes em Vitebsk. Para o individualista Chagall foi difícil adaptar sua pintura às diretrizes do partido. Mudou-se para Moscou com sua mulher e filha. Logo conseguiu voltar a Paris, sua segunda Vitebsk.

Em Paris, sua carreira deslanchou. Os poetas franceses elogiaram a poesia em seus trabalhos: amantes, luas, flores, o mundo circense e, sempre, Vitebsk.

Na década de 1930, a atmosfera de sua obra mudou, ficou obscura e com temas judaicos, na qual a solidão se instalou. É época do nazismo, os perigos o ameaçam, seu povo e a toda Europa. Trabalhou muito com a figura de Cristo e às cores que usava soma-se o vermelho ameaçador. Os nazistas chegaram na França e Chagall mudou-se para Nova York, seu exílio voluntário durante os anos da guerra.

Sua força criativa perdeu vigor, o pintor estava aflito e esgotado. Em 1944, Bella morreu de um vírus misterioso. Essa grande perda no meio da guerra deixou o pintor em uma profunda depressão.

Passaram-se 25 anos de trabalho criativo e Chagall voltou a Paris em 1948.

Os temas de sua obra estavam todos presentes: Vitebsk, seus personagens, os animais substituindo pessoas, os amantes, Cristo sofredor, as flores, e agora a Torre Eiffel. Mudou-se para Cap Ferrat e casou com Valentina Brodsky. Começou a dedicar-se à gravura e são os temas bíblicos que nela predominam. Também usou esses motivos nos seus famosos vitrais tanto em sinagogas como em igrejas. Sempre ativo, descobriu com Picasso a cerâmica, que usou até o fim de sua vida, em 1985.

Com sua imaginação exuberante, Chagall criou um universo paralelo, único, cheio de vida e de cores vibrantes. E como ele mesmo dizia: “Na vida, como na paleta do artista, há apenas uma cor que dá sentido à vida e à arte: é a cor do amor”.

Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro
Marc Chagall: Sonho de Amor
Curadoria: Dolores Duràn Ucar
Data: 16 de março a 6 de junho de 2022
Horário: segundas de 9h às 21h; terças fechado; de quarta a sábado de 9h às 21h; domingos de 9h às 20h
Endereço: Rua Primeiro de Março 66, Centro, Rio de Janeiro/RJ
Informações: (21) 3808-2020 e ccbbrio@bb.com.br

Ingressos gratuitos na bilheteria ou no site Eventim

A mostra Marc Chagall: Sonho de Amor será exibida também em Brasília (28 de junho a 18 de setembro), Belo Horizonte (12 de outubro a 9 de janeiro de 2023) e São Paulo (1 de fevereiro a 10 de abril de 2023).

* Com informações do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall

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