A apuração do New York Times, baseada em números oficiais de estados, condados, governo federal, e das próprias instalações, inclui dados sobre casas de repouso, lares e comunidades de aposentados e idosos, instituições voltadas para a vida assistida e instalações de assistência à memória e de reabilitação.

Embora apenas 11% dos casos do país tenham ocorrido em instituições de longa permanência para idosos, as mortes relacionadas ao Covid-19 nesses locais representam 43% dos óbitos causados pela doença nos Estados Unidos e são maioria em 25 estados, chegando a 80% dos casos fatais em New Hampshire (ver abaixo).

Segundo o jornal americano, a taxa média de mortalidade das pessoas infectadas vinculadas aos lares de idosos estaria em torno de 17%, 35 vezes maior que a taxa de mortalidade (0,5%) da população com anticorpos do país, considerando a pesquisa do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) publicada na sexta-feira (26).

Quantos aspectos sinistros e subnotificados da pandemia ainda podem surgir?

Na Europa, devido a relatos de atrasos e procedimentos variados de certificação de óbitos, todos os dados oficiais tendem a subestimar as mortes por Covid-19.

Uma forma de melhor avaliar o impacto da pandemia é examinar o excesso de mortalidade, a diferença entre o número total de mortes registradas e a média histórica do mesmo período.

A revista britânica The Economist estimou em abril o excesso de mortalidade para alguns dos países mais atingidos da Europa, e descobriu que parcela significativa dos óbitos ocorridos nos países por Covid-19 era de internos de casas de repouso (Many covid deaths in care homes are unrecorded).

PaísPeríodoParcela óbitos país
Alemanha 122/03 - 04/0436%
França10/03 - 20/0437%
Suécia 118/03 - 21/0439%
Bélgica16/03 - 19/0453%
Grã-Bretanha 214/03 - 24/0416%
Holanda16/03 - 26/0430%
(1) inclui residentes em casas de repouso que faleceram de Covid-19 em hospitais
(2) inclui todas as vítimas de Covid-19 que não morreram em hospitais
Fonte: The Economist

"A França e a Bélgica têm sido exemplares na publicação de dados sobre mortes suspeitas ou prováveis de Covid-19 em casas de repouso", diz Adelina Comas-Herrera, no Centro de Avaliação e Política de Cuidados da London School of Economics. Desde o início de abril, o Ministério da Saúde francês começou a realizar testes em asilos, descobrindo um padrão que corresponde ao excesso de mortalidade, conforme registrado pelo INSEE, o órgão de estatística francês.

A narrativa para as mortes de idosos por Covid-19 há longo tempo foi estabelecida.

Salvadores de vidas, como o governador de New York, que retirou dos hospitais pacientes idosos testados positivos para o vírus da Covid-19 e impôs a aceitação deles em casas de repouso, infectando e matando milhares de pessoas, dizem que "os idosos" são mais vulneráveis, e iriam morrer de qualquer forma.

Em 25 de março, para "aumentar a capacidade" dos hospitais, Cuomo decretou que as casas de repouso eram obrigadas a receber doentes que estavam internados, incluindo os casos confirmados de Covid-19, e estavam proibidas de realizar testes para o vírus nas admissões e readmissões. A medida vigorou por 46 dias. Reprodução © Twitter/@JonCampbellGAN (06/07/2020, USA Today)
Em 25 de março, para "aumentar a capacidade" dos hospitais, Cuomo decretou que as casas de repouso eram obrigadas a receber doentes que estavam internados, incluindo os casos confirmados de Covid-19, e estavam proibidas de realizar testes para o vírus nas admissões e readmissões. A medida vigorou por 46 dias. Reprodução © Twitter/@JonCampbellGAN (06/07/2020, USA Today)

Andrew Cuomo enfatizou que as pessoas mais velhas e mais vulneráveis "sempre irão morrer por causa desse vírus".

Conclusão da investigação do departamento estadual de saúde de New York. Reprodução © Twitter (06/07/2020)
Conclusão da investigação do departamento estadual de saúde de New York sobre as ações do departamento estadual de saúde de New York. Reprodução © Twitter/@JonCampbellGAN (06/07/2020, USA Today)

Mais de 4.800 pessoas morreram de Covid-19 em lares de idosos no estado de NY entre 1º de março e 1º de maio, de acordo com uma contagem divulgada pelo governo Cuomo em 1º de maio. Cuomo chamou os lares de idosos de "um frenesi de alimentação" para o coronavírus.

Andrew Cuomo pediu aos familiares para não processarem o governo ou os lares de idosos.

"Você pode ter uma situação em que todos fizeram a coisa certa e todos tentaram o seu melhor", justificou Cuomo.

Alguns fatos contradizem as certezas do governador de New York.

  1. O Japão é o país com a maior densidade do mundo de cidadãos com mais de 65 anos. Fica perto da China, onde o vírus SARS-CoV-2 apareceu primeiro, e recebeu 925.000 visitantes chineses em janeiro e mais 90.000 em fevereiro. A Região Metropolitana de Tóquio, com mais de 38 milhões de habitantes, é a área urbana mais populosa do planeta. Porém, até o final de maio, tinham morrido menos de 300 pessoas de Covid-19 em Tóquio. As taxas de mortalidade das densamente povoadas Hong Kong e Taiwan são ainda menores.
  2. 80% dos 2.666 passageiros do navio cruzeiro Diamond Princess tinham mais de 60 anos (200 mais de 80) e, expostos por mais de 40 dias ao vírus, ocorreram 14 mortes entre 3.711 pessoas a bordo.
  3. Ressaltando-se que o perfil dos pacientes não é conhecido, os bons hospitais privados da cidade de  São Paulo praticamente não registraram óbitos por Covid-19. Como destacou Mauro Teixeira, Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a única coisa que comprovadamente cura a doença é "uma boa UTI, com uma equipe médica bem treinada, ventiladores limpos e que funcionam, hospital com diálise e suporte cardiovascular. É isso que sabemos que funciona".
  4. Mesmo nos hospitais de campanha, onde convivem suspeitos sem provas com doentes comprovados, não se tem notícia de serem "um frenesi de alimentação" para o coronavírus. Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, os leitos de estabilização não tiveram utilização de 100% e não houve transferência significativa de pacientes para os hospitais que tratam casos graves da doença. Ao contrário, o número de altas médicas sempre foi elevado nos HMCamp de SP.

O real motivo do extraordinário número de mortes nas casas de repouso não se sabe ainda e precisa ser investigado. Uma hipótese que tem sido discutida nas redes sociais, por especialistas em enfermagem, como o Dr. John Campbell, é que os pacientes não receberam a devida assistência nesses lares, provavelmente por falta de treinamento ou de recursos. Segundo o Dr. Campell, parte da medicação utilizada nessas instalações, para amenizar a dor ou depressão, por exemplo, reduz a capacidade respiratória. Para o professor aposentado de cuidados médicos, a simples administração tempestiva de oxigênio nos próprios lares teria evitado muitas mortes.

Diamond Princess

O navio de cruzeiro Diamond Princess é uma referência de pior cenário para contágio do coronavírus SARS-CoV-2. Ainda assim, não explica o que vem sendo observado nos lares para idosos.

Em 20 de janeiro de 2020, a embarcação, de 290 metros de comprimento e 37 metros de largura, estava transportando 3.711 pessoas (2.666 passageiros e 1.045 tripulantes), uma densidade populacional 37 vezes a de Hong Kong.

A média de idade da tripulação era de 36 anos, enquanto a idade média dos passageiros era de 69 – 80% tinham mais de 60 anos, 200 mais de 80 anos –, portanto, muito acima da média de idade da população em geral.

Os passageiros eram 55% do sexo feminino enquanto os tripulantes eram 80% do sexo masculino.

Em 4 de fevereiro, após notificação de infecção em um passageiro que desembarcou em Hong Kong em 20 de janeiro, o navio, ancorado na Baía de Yokohama, foi inspecionado por agentes de saúde do Japão. Testes para o vírus revelaram infecções em 10 pessoas em 31 resultados. As autoridades japonesas decidiram imediatamente isolar o navio por 14 dias. O confinamento se estendeu até 1° de março, quando governos enviaram aviões para repatriar passageiros. As pessoas a bordo ficaram expostas ao coronavírus por 40 dias.

O navio não tinha filtros de ar com capacidade de  conter patógenos e áreas possivelmente contaminadas pelo vírus não foram segregadas. Cabines com passageiros positivos para o vírus não foram desinfectadas. A tripulação fazia refeições coletivamente e as acomodações eram compartilhadas. Cuomo teria caracterizado o navio de luxo "um frenesi de alimentação" para o coronavírus.

Em 20 de fevereiro, 634 pessoas a bordo testaram positivo para o vírus causador da Covid-19. A proporção assintomática estimada foi de 18%. A maioria das infecções ocorreu antes de 3 de fevereiro. Fonte: © Kenji Mizumoto et al.
Em 20 de fevereiro, 634 pessoas a bordo testaram positivo para o vírus causador da Covid-19. A proporção assintomática estimada foi de 18%. Fonte: © Kenji Mizumoto et al.

No balanço final, foram identificados 712 (19%) infeccionados a bordo: 145 (14%) tripulantes e 567 (20%) passageiros. Durante o período de quarentena, morreram 7 passageiros. Outros 7 passageiros faleceram posteriormente.

Data óbitoIdadeSexoOrigemInternação
2020.02.2087MJapão2020.02.11
2020.02.2084FJapão2020.02.12
2020.02.2380sMJapão2020.02.05
2020.02.2580sMJapão2020.02.09
2020.02.2870sFJapão2020.02.07
2020.02.28-MReino Unido
2020.03.0178MAustralia
2020.03.06-MHong Kong
2020.03.1970sMCanada
2020.03.2270sMJapão
2020.03.2270sMJapão
2020.03.2860sFHong Kong
2020.04.09--Japão
2020.04.1470sMJapão2020.02.07

Casos e óbitos por Covid-19 nos EUA em instituições de longa permanência

EstadoLaresInfectadosÓbitosParcela óbitos Estado
United States12.000282.00054.00043%
New Hampshire261.96729380%
Rhode Island642.74571577%
Minnesota8535.7771.10777%
Connecticut2899.8883.12473%
Pennsylvania67820.6894.51868%
North Dakota655695664%
Massachusetts56523.3215.11564%
Idaho303235662%
Maryland28912.6411.92461%
Virginia2366.7141.03961%
Kentucky1722.62635061%
Washington3894.37677960%
Vermont61723257%
Ohio5309.9281.58057%
North Carolina1705.44574657%
Maine164855856%
Kansas10092714956%
Oregon4982111255%
Colorado1665.66091054%
Oklahoma1341.64720153%
Florida1.01111.4721.74852%
Delaware3168726352%
Illinois59321.3903.64952%
Iowa542.03036051%
Mississippi1372.78750750%
West Virginia373944549%
California92323.6462.83248%
South Carolina1712.54131746%
Georgia5339.9391.23745%
New Jersey56236.3166.61744%
Indiana2685.1471.14044%
Texas8636.6411.03144%
South Dakota583843843%
Utah1919067042%
Louisiana4007.8331.31541%
New Mexico5525018037%
Arizona2893.902541-
Tennessee851.51319534%
Nebraska1195199234%
Arkansas1139788333%
Michigan24010.6302.03133%
Montana335732%
District of Columbia201.07217332%
Wyoming454630%
Nevada751.28913527%
New York *509-6.43221%
Alabama1313.746112-
Hawaii15891-
Missouri1181.39415-
Alaska10930-
Wisconsin3181.2420-
Estados com dados insuficientes para calcular uma parcela das mortes por Covid-19 estão sombreados.
(*) O Estado de New York não divulga o número de infectados pelo vírus SARS-CoV-2.
Fonte: The New York Times (June 26, 2020). Dada a grande variabilidade dos dados disponíveis, os totais representam uma aproximação conservadora (menor) da situação real.

* Com dados e informações do New York Times, Centers for Disease Control and Prevention (CDC), CBS News, The Economist

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