Na edição de 2 de janeiro, o Observer entrevistou o professor Mark Woolhouse, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Edimburgo, cujo novo livro – The Year the World Went Mad: A Scientific Memoir – sustenta que os longos lockdowns promoveram mais danos do que benefícios e falharam em proteger os vulneráveis.

Pela primeira vez, a questão do que realmente representa o bem coletivo no debate da pandemia foi colocada na mesa por uma grande publicação europeia.

Até então, restrições que claramente infringem as liberdades e direitos individuais, foram justificadas em nome do “bem coletivo” e do “direito coletivo à vida”. Críticas contra qualquer uma das medidas é ser contra o interesse coletivo.

De fato, foi suprimido o debate sobre como conciliar a necessidade de ação coletiva com a importância dos direitos e liberdades individuais na resposta à pandemia.

Até a entrevista do Observer, houve pouca análise crítica sobre se a série de medidas restritivas decretadas nos últimos dois anos realmente serviu ao bem coletivo – ou salvou vidas.

O impacto psicológico, social e econômico poderia ter sido justificado do ponto de vista do interesse coletivo e do salvamento de vidas se o vírus representasse uma ameaça igual a todos os cidadãos. No entanto, logo ficou claro que a doença era quase exclusivamente uma ameaça para as pessoas com mais de 60 anos.

Para Woolhouse, houve um momento distinto, no início da pandemia, que resumiu perfeitamente os erros e a confusão dos primeiros esforços da Grã-Bretanha para combater o vírus da covid-19: em um briefing em março de 2020, Michael Gove, ministro do gabinete de Boris Johnson, alertou que o vírus não discriminava. "Todo mundo está em risco", anunciou.

Nada poderia estar mais longe da verdade, lembra o professor Woolhouse, que também é membro do Sage (Scientific Advisory Group for Emergencies), um grupo independente de cientistas que assessora o governo britânico.

"Este é um vírus muito discriminatório. Algumas pessoas correm muito mais risco do que outras. Pessoas com mais de 75 anos correm um risco surpreendentemente 10.000 vezes maior do que aquelas com menos de 15 anos".

Para proteger o sistema público de saúde de uma doença que é uma ameaça muito maior para idosos e enfermos, "causamos sérios danos às nossas crianças e jovens adultos que foram privados de sua educação, empregos e existência normal, além de sofrer danos em suas perspectivas futuras, enquanto eles foram deixados para herdar uma montanha recorde de dívida pública”, disse Woolhouse.

“Ficamos mesmerizados pela escala de emergência que ocorre uma vez a cada século e só conseguimos piorar ainda mais a crise. Resumindo, entramos em pânico. Esta foi uma epidemia que clamava por uma abordagem de saúde pública de precisão e obteve o oposto”, acrescentou o cientista britânico.

A mudança de comportamento, em grande parte voluntária, funcionou na Suécia e deveria ter sido permitida no Reino Unido, argumenta Woolhouse.

"Em vez disso, optamos por um lockdown nacional forçado, em parte porque, pela primeira vez na história, poderíamos. Atualmente, negócios suficientes são feitos on-line para permitir que grandes partes da sociedade funcionem razoavelmente bem – por meio de videoconferências e compras on-line", disse Woolhouse. “Mas foi uma solução preguiçosa para uma nova epidemia de coronavírus, além de extremamente prejudicial”, acrescentou.

No livro Fallimento lockdown (Lockdown Failure), os autores Piero Stanig e Gianmarco Daniele, dois professores da Universidade Bocconi, explicam que a pior conduta para uma doença altamente infecciosa, que se espalha quase exclusivamente em ambientes fechados, e tem como alvo pessoas mais velhas é trancar os idosos dentro de suas casas com outros membros da família e proibir as pessoas de passar o tempo no lugar mais seguro de todos: ao ar livre.

No entanto, o Woolhouse rejeita as ideias daqueles que defendiam a abertura completa da sociedade, propondo que o vírus pudesse circular livremente até que pessoas suficientes fossem infectadas para alcançar a imunidade do rebanho.

“Isso teria levado a uma epidemia muito maior do que a que experimentamos em 2020”, diz Woolhouse. “Também faltava um plano convincente para proteger adequadamente os membros mais vulneráveis da sociedade, os idosos e os imunocomprometidos”.

O grotesco das respostas globais à pandemia se torna ainda mais aparente quando leva-se em conta o fato de que, enquanto os governos se esforçavam para manter pessoas saudáveis presas, perseguindo surfistas e corredores em praias solitárias ou verificando carrinhos de supermercados para garantir que as pessoas estivessem apenas comprando o essencial, todos eles abandonaram os mais vulneráveis: os residentes de asilos.

Woolhouse é particularmente crítico com a negligência do governo com trabalhadores de casas de repouso e cuidadores informais.

“Essas pessoas ficaram entre os vulneráveis e o vírus, mas, durante a maior parte de 2020, receberam um reconhecimento mínimo e não receberam ajuda”.

A Grã-Bretanha gastou uma fortuna para suprimir o vírus e ainda estará pagando a dívida incorrida nas próximas gerações, acrescenta.

"Por outro lado, não gastamos quase nada na proteção dos vulneráveis na comunidade. Deveríamos e poderíamos ter investido tanto na supressão quanto na proteção. Na verdade, escolhemos apenas um".

De acordo com um estudo da Collateral Global, os óbitos por covid-19 em lares de idosos representam, em média, 40% de todas as mortes por covid nos países ocidentais, apesar de constituirem menos de 1% da população.

Na Bélgica, França, Holanda, Eslovênia, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos mais de 5% dos residentes de casas de repouso morreram.

Woolhouse é enfático ao dizer que novos lockdowns não são a maneira de lidar com futuras ondas do vírus:

"Lockdowns não são uma política de saúde pública. Eles significam um fracasso da política de saúde pública".

Cabe notar que a estratégia de lockdown não é uma novidade neste século. A Organização Mundial de Saúde (OMS) anteriormente presenciou os efeitos nefastos e a perversidade dos lockdowns em paises da África durante a epidemia do vírus Ebola.

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