A lua de mel entre políticos e epidemiologistas está chegando ao fim.

Ao menos no Reino Unido.

No sábado (13), a revista britânica The Spectator conclamou Boris Johnson a retomar o controle do país, cedido aos cientistas (It’s time for the PM to take back control from the scientists).

"Com o passar do tempo, tornou-se cada vez mais claro que não existe 'ciência' – um conjunto mítico de verdades incontestáveis. Os cientistas estão tão divididos quanto políticos e o público em geral sobre como lidar com a Covid-19", diz o editorial.

"Na ausência de provas do mundo real, temos modelagem, mas os modelos são mundos separados em suas conclusões. Ao impor o lockdown, o governo seguiu o conselho de uma equipe de modelagem do Imperial College de Londres, que estimou que haveria 250.000 mortes se medidas drásticas não fossem tomadas. Se o governo tivesse preferido os modelos de uma equipe rival de Oxford, que sugeria que a infecção já estava espalhada antes da imposição do lockdown, poderia muito bem ter chegado a uma conclusão diferente e ter seguido um caminho semelhante ao da Suécia. Em ambos, teria sido informado pela 'ciência'".

A revista lembrou que "cientistas mudam de idéia, alguns dramaticamente".

"Na semana passada, o Professor John Edmunds, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e membro do comitê SAGE (Scientific Advisory Group for Emergencies), reclamou que o governo está relaxando o lockdown muito cedo e que muitas vidas poderiam ter sido salvas se as restrições tivessem começado uma semana antes. No entanto, o mesmo professor Edmunds deu uma entrevista em 13 de março – dez dias antes da imposição de restrições do lockdown –, na qual ele disse: 'A única maneira de parar essa epidemia é de fato obter a imunidade de rebanho'", relata o editorial da revista.

O entendimento não era apenas de Edmunds. O conselheiro científico chefe, Sir Patrick Vallance, disse a repórteres em meados de março que temia que a China tivesse simplesmente barricado o vírus nos prédios de apartamentos de Wuhan e que a epidemia reviveria assim que o vírus fosse libertado.

O atual surto em Pequim, e em várias outras cidades chinesas, sugere que Vallance estava certo da primeira vez – o vírus estava mesmo na China à espera de uma oportunidade. Assim que a vida na China voltou a algo que se aproximava da normalidade, ele aproveitou sua chance. Talvez as autoridades chinesas consigam suprimi-lo uma segunda vez – mas ainda é provável que apareça novamente.

"Se o governo atrasou a imposição do lockdown é porque estava seguindo o conselho do professor Edmunds e seus colegas", diz a revista.

"Cabe aos oponentes do governo tentar estabelecer uma narrativa que um primeiro-ministro imprudente ignorou a Ciência. Também ajuda que o número 10 lute para se defender. Mas a alegação é falsa. Pelo contrário, a culpa de Boris Johnson tem sido mostrar muita reverência pela epidemiologia e receber muito pouco conselho de outros setores, como economistas, que poderiam tê-lo avisado dos efeitos debilitantes do lockdown na economia; de educadores, que poderiam ter alertado sobre os danos que isso pode causar nas chances de vida de uma criança se a educação formal for retirada por um longo período; de psicólogos e assistentes sociais, que poderiam ter alertado sobre os efeitos de isolar os sete milhões de britânicos que vivem sozinhos", pondera a revista criada em 1828.

"Nunca houve uma demonstração melhor do ditado de Margaret Thatcher: os conselheiros aconselham, mas o ministro decide", disse a The Spectator.

Fetiche da ciência

Em meio a forte crise que está destruindo empresas e empregos no Reino Unido, uma das prosaicas discussões no parlamento é sobre a distância de 2 metros, "conjurada do nada", que está afetando a indústria do turismo no país.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde é que as pessoas fiquem a um metro de distância durante a pandemia.

Enquanto a Espanha e o Canadá estão entre os países que impuseram uma distância de dois metros, em linha com o Reino Unido, outras nações adotaram a regra de um metro, em vigor na França, China e Dinamarca. Já Austrália, Alemanha e Itália estão entre os que têm uma regra de 1,5 metro.

Boris Johnson está sendo requerido a eliminar a regra de 2 metros imediatamente, sublinhando a escala de descontentamento com o assunto em seu partido.

Pubs, restaurantes e cabeleireiros em todo o país estão programados para reabrir em 4 de julho, mas ainda não sabem se terão de respeitar a regra dos 2 metros o tempo todo –algo que muitos dizem que inviabilizaria seus negócios.

Organismos como a UK Hospitality e a British Beer and Pub Association, apresentaram estimativas de números de fechamentos de estabelecimentos e de perda de empregos com o distanciamento social de 1 metro, 1,5 e 2 metros.

Em meio à crescente pressão por ação dos parlamentares de seu partido, Johnson anunciou uma revisão da questão preocupante no fim de semana, dizendo que esperava que houvesse "espaço para manobra" à medida que a propagação do coronavírus diminuir.

O ex-ministro da Defesa Tobias Ellwood disse que a mudança deveria ser feita imediatamente. "Agora é hora do governo decidir. Um metro é a decisão certa; agora é a hora certa, não em duas semanas”.

Destruição de empregos

No mesmo sábado 13, o jornal The Times publicou artigo de James Forsyth (Boris Johnson needs to prove to voters he’s in charge) comentando sobre as consequencias das medidas de lockdown no Reino Unido.

"Os dados econômicos ruins continuarão chegando. Ontem foi o PIB. Na próxima semana será o Emprego. Quando esses números foram publicados pela última vez, eles mostraram mais pessoas trabalhando do que em qualquer outro momento da história britânica. Basta dizer que desta vez eles mostrarão uma situação muito diferente", escreve Forsyth.

"Mesmo esses números não contam a história completa. O esquema de licença (furlough) significa que não custou nada aos empregadores para manter a força de trabalho, o que impediu o desemprego de disparar. Mas isso começará a mudar, embora gradualmente, a partir de agosto", ressalta James Forsyth.

Mais de 600.000 pessoas perderam seus empregos no Reino Unido entre março e maio, devido ao confinamento pela pandemia de coronavírus - apontam dados divulgados nesta-terça-feira (16) pelo Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS).

Uma primeira estimativa situa em 163.000 o número de empregos perdidos em maio, além dos 449.000 destruídos em abril, informou o ONS.

Enquanto isso, o número de pessoas que reivindicam benefícios relacionados ao trabalho – incluindo os desempregados – aumentou 126%, para 2,8 milhões, um aumento mais rápido de pedidos do que durante a Grande Depressão de 1929, segundo o Instituto de Estudos do Emprego (IES).

"Também está claro que esta crise está atingindo muitas áreas mais pobres com mais força – com cidades costeiras e áreas ex-industriais vendo um aumento particularmente grande no desemprego", disse o diretor da IES Tony Wilson.

O efeito total sobre o emprego não será sentido até que os esquemas de apoio aos salários terminem em outubro.

"A desaceleração da economia está atingindo visivelmente o mercado de trabalho, especialmente em termos de horas trabalhadas", disse Jonathan Athow, do ONS.

As estimativas iniciais refletem o impacto de cerca de seis semanas de lockdown em que grandes partes do Reino Unido foram fechadas.

Frances O'Grady, Secretária-Geral do Trades Union Congress, disse que o mercado de trabalho está em alerta vermelho. "Precisamos de ações fortes agora para parar os danos econômicos duradouros".

Números publicados pela HMRC nesta terça-feira mostraram que um total de 9,1 milhões de trabalhadores estão recebendo seus salários através do esquema de licença do governo – mais de um quarto da força de trabalho.

Alguns economistas acreditam que o desemprego pode atingir 10% à medida que as regras de distanciamento social permanecem em vigor e os consumidores restringem seus gastos.

Com novos números mostrando que a economia do Reino Unido encolheu um recorde de 20,4% em abril, uma crise econômica sem fim à vista também apresenta uma enorme ameaça à saúde pública.  

Dano econômico

A economista da Capital Economics, Ruth Gregory, disse que "apesar da aparente estabilidade da taxa real de desemprego" estava "bastante claro" que o mercado de trabalho havia enfraquecido dramaticamente.

"Parte disso certamente começará a se infiltrar nos números reais de desemprego, à medida que o esquema de licença de emprego do governo é encerrado a partir de agosto".

Tej Parikh, Economista-Chefe do Institute of Directors, concordou: "O esquema de licença continua impedindo a maior parte das perdas de empregos, mas o desemprego provavelmente aumentará nos próximos meses".

Yael Selfin, Economista-Chefe da KPMG UK, alertou que muitas empresas devem trazer apenas parte de sua força de trabalho de volta, enquanto tentam reabrir provisoriamente após o lockdown.

"É provável que a contratação de novos trabalhadores seja suspensa por algum tempo", disse a economista.

"Mesmo considerando problemas de dados, a variação na extensão do dano econômico causado pelo vírus em diferentes países é impressionante", disse Neil Shearing, Economista-Chefe da Capital Economics.

Suécia

A Suécia manteve lojas, academias, escolas e restaurantes abertos durante toda a pandemia. Mas o governo admitiu que falhou em proteger os idosos, com cerca de metade das mortes de Covid-19 ocorrendo entre os residentes das casas de repouso.

A estratégia da Suécia "tem sido objeto de muitos debates e sua eficácia em termos de combate à disseminação do vírus não ficará clara por muitos meses, se não anos”, disse Shearing. "Mas, pelo menos até agora, parece que sua economia sofreu menos".

O governo e o banco central da Suécia apontaram sinais precoces de que a economia sofreu menos do que outros países. Mesmo assim, a Ministra das Finanças, Magdalena Andersson, espera a pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial, com o PIB provavelmente contraindo cerca de 7%.

Em abril, o governo sueco tinha previsto que o PIB recuaria 4% em 2020, em comparação com a previsão de janeiro de 1,1% de crescimento.

A Suécia foi menos atingida na economia por causa de suas medidas de contenção mais relaxadas – visível nos dados de produção até abril. A preocupação é que a demanda mais fraca de exportação poderá impactar sua economia.

Nesta terça-feira (16),  o Danske Bank projetou que o PIB sueco deve encolher 4% este ano, em comparação com uma contração de 3,5% na Dinamarca e na Noruega.

* Com informações da The Spectator, The Times, Capital Economics, Bloomberg, BBC

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