O Vietnã cresceu nos últimos anos para se tornar o segundo maior fornecedor de roupas e calçados para os Estados Unidos, depois da China.

De roupas e sapatos a peças de automóveis e café, o lockdown severo e prolongado no Vietnã gerou escassez de produtos e alimentos entre marcas mundiais, que se tornaram cada vez mais dependentes dos fabricantes do sudeste asiático.

Muitos varejistas transferiram sua manufatura da China para o Vietnã na última década devido ao aumento dos custos.

As fábricas contratadas no Vietnã fabricaram 50% do total de calçados da marca Nike no ano passado. Lululemon e Gap, que também possui a Old Navy, disseram que um terço de suas mercadorias vem de fábricas no Vietnã. Everlane disse que o país fornece 40% de seus produtos.

“Não estávamos prevendo um lockdown total”, disse Jana Gold, diretora do grupo de consumo e varejo da Alvarez & Marsal, que tem ajudado os varejistas com problemas de cadeia de suprimentos. “Vamos continuar a ver uma alta demanda por produtos de países ou regiões altamente vacinados, mas que estão recebendo os produtos de países não vacinados que podem estar passando por dificuldades”.

Em 15 meses, apenas 3.000 infecções e 15 mortes foram relatadas no Vietnã. Mas durante o verão, a variante Delta encontrou uma população em grande parte não vacinada. O número de infecções passou de 780.000, com 19.000 óbitos.

Fique em casa

Claudia Anselmi, diretora da fábrica de tecidos Hung Yen Knitting & Dyeing, uma peça-chave na cadeia de suprimentos de gigantes europeus e americanos do vestuário, disse que a produção caiu pela metade.

“No início, faltavam trabalhadores porque todos estavam presos em casa”, disse Anselmi, cujo tecido da empresa é usado em roupas de banho e esportivas de clientes como Nike, Adidas e Gap.

Agora, “as restrições de deslocamento prejudicaram toda a logística de entrada e saída ... isso gerou longos, longos atrasos”, disse. “Só sobrevivemos se tivermos o estoque”.

Milhões de vietnamitas permanecem sob ordem de não sair de casa há meses, e uma rede complexa de pontos de controle e regulamentos confusos de permissão de viagem causam atrasos e prejuízos a motoristas de caminhão e transportadoras.

No sul do Vietnã, cerca de 90% das cadeias de suprimentos no setor de vestuário foram quebradas, disse a Associação de Têxteis e Vestuário do Vietnã (Vitas) em agosto, de acordo com a imprensa estatal.

A economia a gente vê depois

O densamente povoado centro industrial da cidade de Ho Chi Minh, o epicentro de vírus do país, passou por uma série de lockdowns, cada vez mais rigorosos.

A partir de 8 de julho, as autoridades impuseram um toque de recolher de 12 horas e lockdown severo, reforçado para restringir quase todos os movimentos, inclusive entre as províncias e distritos que compõem a conurbação.

As empresas foram forçadas a escolher entre suspender a produção ou arcar com o custo de alojamento e alimentação dos trabalhadores em suas próprias fábricas, para contornar as restrições impostas pelo lockdown.

Muitas fábricas fecharam temporariamente em julho, o que paralisou a atividade econômica e acrescentou estresse a uma cadeia global de suprimentos tensa.

Os trabalhadores e suas famílias ficaram desamparados.

A indústria americana de vestuário e calçados pediu ao governo vietnamita prioridade na vacinação dos trabalhadores das fábricas. Em meados de agosto, executivos de 90 empresas pediram ao Governo Biden para acelerar as doações de vacinas, dizendo que “a saúde de nossa indústria depende diretamente da saúde da indústria do Vietnã”.

Em visita ao Vietnã no mês passado, a Vice-Presidente Kamala Harris disse que os Estados Unidos enviariam mais um milhão de doses de vacina, além de cinco milhões já doadas.

“A situação no Vietnã é exatamente a razão pela qual precisamos acelerar nossos esforços para fornecer doações de vacinas em todo o mundo”, disse Steve Lamar, presidente da American Apparel & Footwear Association. Os varejistas estão montando locais de vacinação nas fábricas para ajudar a administrar as vacinas assim que as doses forem obtidas e estão tentando manter a produção seguindo a política de "três em um lugar", onde os trabalhadores comem, dormem e trabalham nas fábricas, disse Lamar.

Jason Chen, presidente da Singtex, disse na semana passada que a fábrica de roupas, que emprega 350 pessoas na província de Binh Duong, estava reduzida a 80 trabalhadores, que viviam nas instalações para cumprir as restrições impostas pelo governo. A fábrica ergueu uma tenda para servir refeições aos funcionários e tem transferido alguns pedidos para as fábricas da Singtex em Taiwan.

“Este ano, nos EUA, todo mundo quer fazer compras”, disse Chen. “Algumas mercadorias não poderão ser entregues no tempo certo. Então realmente afetará o período festivo”.

A interrupção contínua de cadeias de suprimentos cruciais pode ter um impacto mais duradouro sobre as futuras decisões de investimento no Vietnã e em outras economias emergentes. As empresas sempre avaliaram uma ampla gama de condições, como impostos, requisitos regulatórios e disponibilidade de mão de obra.

“De repente, eles precisam começar a pensar sobre a resposta da saúde pública”, disse Chad P. Bown, economista do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Huong Le Thu, analista do Australian Strategic Policy Institute, acrescentou: “A onda Delta é apenas uma das variantes". O Vietnã, assim como outros países, terá que se preparar para novos surtos, mesmo após a vacinação em massa, disse Huong.

Em carta ao primeiro-ministro vietnamita Pham Minh Chinh, associações empresariais representativas de investidores estrangeiros que impulsionam a economia do Vietnã, alertaram que as medidas rígidas de distanciamento na cidade de Ho Chi Minh estavam paralisando os negócios e levando algumas empresas a transferir a produção para o exterior – 20% de seus membros fabricantes já haviam partido do país.

Flexibilização

A partir desta sexta-feira (1), o governo do Vietnã está afrouxando o lockdown severo de quase três meses na cidade de Ho Chi Minh, após observar queda recorde de -6,2% no Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre – os três meses sob lockdown.

A população de Ho Chi Minh poderá sair de casa, restaurantes poderão servir refeições para viagem e outros negócios essenciais poderão abrir. A ordem de distanciamento foi mantida, as escolas continuarão fechadas, o transporte público permanecerá suspenso, as entradas e saídas da cidade serão controladas.

O governo local permitirá reuniões de até 10 pessoas, ou até 50, se todas tiverem sido totalmente vacinadas ou recuperadas de covid-19.

A cidade também vai introduzir um passaporte sanitário com objetivo de facilitar a operação de empresas cujos funcionários receberam duas doses de vacina.

A flexibilização das restrições ao movimento, trabalho fabril e outras atividades em Ho Chi Minh segue uma decisão dos líderes comunistas do país de abandonar a estratégia de "covid zero".

“O Vietnã, como muitos países, está reconhecendo que não há como existir em um ambiente de Covid zero, e isso é positivo”, disse Mary Tarnowka, diretora executiva da Câmara de Comércio Americana no Vietnã, ao Financial Times. “Essa mudança para viver em segurança com o vírus é muito importante”.

As medidas de lockdown afetaram severamente os setores de mão-de-obra intensiva, como roupas e calçados, mas fabricantes de eletrônicos e montadoras também foram atingidos.

A Toyota cortou a produção em setembro e outubro e disse que “o impacto foi grande no Vietnã”, bem como na Malásia.

A Nike – que está lutando contra a escassez de seus produtos esportivos e cortou suas previsões de vendas – disse que 80% de suas fábricas no sul e metade de suas fábricas de roupas no país estão fechadas. A empresa adquire ainda metade de seus calçados do Vietnã.

A japonesa Fast Retailing, dona da marca Uniqlo, também apontou a situação no Vietnã pelos atrasos em suéteres, moletons e vestidos, e a Adidas avaliou que os problemas na sua cadeia de suprimentos – inclusive no Vietnã – podem custar até US$ 600 milhões em vendas até o final do ano.

Nguyen Thi Anh Tuyet, diretora da Maxport Vietnã, cujos 6.000 trabalhadores produzem roupas esportivas para marcas como Lululemon, Asics e Nike, disse que a empresa estava "muito preocupada" com o cancelamento de pedidos, embora tenha operado normalmente nos últimos meses.

Sem clientes estrangeiros, “nossos trabalhadores ficarão desempregados”, disse.

No momento, as empresas americanas estão procurando fornecedores fora do Vietnã, muitas vezes retornando para fábricas chinesas com as quais trabalharam anteriormente, ou buscando parceiros em países que não estão enfrentando surtos.

Se eles terão tempo suficiente para mudar antes dos eventos festivos de fim de ano é questionável. “Setembro é uma época ruim para reposicionar as coisas”, disse Gordon Hanson, economista e professor de política urbana da Harvard Kennedy School.

Atrasos na produção não são o único problema. Os custos do frete marítimo dispararam durante a pandemia, os portos estão lotados e a demanda por transporte aéreo explodiu.

Com a temporada de festas se aproximando, os varejistas americanos estão prevendo atrasos e escassez de produtos, junto com preços mais altos vinculados à mão-de-obra e custos de frete, que dispararam.

* Com informações do Japan Times, Financial Times, New York Times

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