A Casa Branca tentou nas últimas semanas, sem sucesso, organizar ligações entre o presidente Biden e os líderes de fato da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos (UAE), na busca para conter aumentos nos preços do petróleo, relata o Wall Street Journal (WSJ).

Segundo autoridades sauditas e emirati, que se tornaram mais vocais em suas críticas à política americana no Golfo, ambos os líderes declinaram os pedidos.

"Havia alguma expectativa de um telefonema, mas isso não aconteceu", confirmou uma autoridade americana ao jornal.

De acordo com o WSJ, os sauditas sinalizaram que sua relação com Washington se deteriorou sob o governo Biden, e eles querem mais apoio em várias questões sensíveis, incluindo intervenção na guerra civil do Iêmen e ajuda com o programa nuclear civil, à medida que o Irã avança nessa área.

Os emiratis compartilham preocupações sauditas sobre a resposta contida dos EUA aos recentes ataques com mísseis por militantes houthi apoiados pelo Irã no Iêmen contra os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, relata o WSJ.

Ambos os governos também estão preocupados com o ressurgimento do acordo nuclear iraniano, que não aborda preocupações de segurança dos dois países árabes e entrou nas fases finais das negociações nas últimas semanas.

Biden conseguiu falar por telefone em 9 de fevereiro com o pai do Príncipe Mohammed, o Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, de 86 anos, comprometendo-se a apoiar o Reino contra os rebeldes houthi do Iêmen e o Irã, além de garantir "a estabilidade do fornecimento global de energia", segundo a Casa Branca.

Os Emirados foram citados pelo WSJ dizendo que a ligação entre Biden e o Sheikh Mohammed seria remarcada.

No mês passado, a Arábia Saudita rejeitou um apelo dos EUA para aumentar a produção de petróleo em meio às tensões entre a OTAN e a Rússia e ao aumento dos preços do petróleo, escreveu o Wall Street Journal na época.

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes são os únicos dois grandes produtores que podem bombear milhões de barris a mais de petróleo — capacidade que poderia ajudar a acalmar o mercado internacional de petróleo, em momento em que os preços da gasolina americana estão em níveis elevados e crescentes.

Mas os sauditas e os emiratis recusaram-se a bombear mais petróleo, dizendo que estão aderindo a um plano de produção aprovado entre seu grupo, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), e um grupo de produtores liderados pela Rússia. A aliança energética com a Rússia, o terceiro maior produtor mundial de petróleo e o maior exportador de gás natural, aumentou o poder da OPEP e, ao mesmo tempo, aproximou os sauditas e os emiratis de Moscou.

Ambos os príncipes herdeiros atenderam telefonemas do presidente russo Vladimir Putin na semana passada, depois de se recusarem a falar com Biden, relata o WSJ. Ambos falaram mais tarde com o presidente da Ucrânia.

O rompimento entre Biden e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita remonta às eleições presidenciais de 2020, quando o candidato Democrata prometeu tratar o Reino como um Estado "pária". Há "muito pouco valor social de resgate no atual governo na Arábia Saudita", disse Biden durante um debate presidencial em 2019.

Biden também puniu publicamente a Arábia Saudita por o prolongado conflito no Iêmen e cortou o fluxo de algumas armas que Riyadh poderia usar para atingir os houthis. Biden também reverteu decisão de Trump que colocou os houthis na lista oficial americana de grupos terroristas globais, reversão que os líderes sauditas dizem ter encorajado a força iemenita e frustra os esforços para um cessar-fogo.

Junto com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes pediram aos EUA para colocarem os houthis em sua lista de grupos terroristas e enviar mais ajuda militar para defender o país de novos ataques. Mas os EUA não se moveram para resolver essas preocupações emirati, de acordo com autoridades do Golfo, aponta o WSJ.

Na semana passada, Yousef Al Otaiba, embaixador dos Emirados nos EUA, disse que as relações entre os dois países estavam tensas.

A guerra civil no Iêmen é tida pelo Acnur (Alto Comissariado da ONU para os Refugiados) como “a maior crise humanitária do mundo” atual, com estimativas de mais de 380 mil mortes. O país tem cerca de 80% da população em situação de fragilidade, com 3,6 milhões de deslocados internos e 24 milhões de pessoas necessitando de suporte humanitário.

Na segunda-feira (7), a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse que Biden mantinha sua opinião de que a Arábia Saudita deveria ser tratada como um Estado "pária" e que a liderança do país tinha pouco valor social.

O príncipe Mohammed disse que alienar os líderes sauditas prejudicará o presidente dos EUA. "Cabe a ele pensar nos interesses da América", disse. "Vá em frente", acrescentou, remetendo para alguns ao slogan político "Let's go Brandon".

Na terça-feira (8), Biden proibiu as importações de petróleo e gás da Rússia como parte das sanções relativas à campanha militar de Moscou na Ucrânia.

Essencialmente, Biden suspendeu a importação de 200 mil barris por dia de petróleo russo (3% do consumo americano). A Rússia produz diariamente mais de 11 milhões de barris de petróleo, dos quais são exportados 5 milhões por dia.

Os EUA compram petróleo russo em parte para operar refinarias que precisam de diferentes graus de petróleo, com maior teor de enxofre. Nos últimos anos, o petróleo russo preencheu parte da lacuna criada pelas sanções à Venezuela e ao Irã, que prejudicaram o fluxo de tipos similares de petróleo desses países para refinarias na Costa do Golfo e de outras regiões americanas.

Vários meios de comunicação dos EUA informaram que Washington está considerando remover as sanções sobre as importações de petróleo da Venezuela, buscando compensar a perda de importação de energia russa. O presidente Nicolás Maduro confirmou que autoridades americanas estiveram no país no fim de semana. Os EUA também estariam mantendo conversações com o Irã visando levantar as sanções sobre a exportação de combustíveis fósseis impostas ao país.

Tanto a Venezuela como o Irã responsabilizam os EUA pelo conflito Rússia-Ucrânia.

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