Comentando a conversa do presidente dos EUA, Joe Biden, de “desligar” o oleoduto Nord Stream 2, durante a visita do chanceler alemão Olaf Scholz a Washington na segunda-feira (7), a diretora do Departamento de Informação e Imprensa do Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa, disse que Berlim permanece sob o controle de Washington muito depois do fim da Guerra Fria.

"A Alemanha, de acordo com uma série de características relevantes – isso não é opinião minha, nem da Rússia, isso é de acordo com termos e métricas politológicas – permanece, de uma forma ou de outra, um estado ocupado: 30.000 [tropas] americanas estão estacionadas lá", disse Zakharova em entrevista ao RT

"Os embaixadores americanos na Alemanha, que deveriam trabalhar lá para melhorar as relações bilaterais, estão dando ordens às autoridades alemãs", observou, acrescentando que Richard Grenell, que foi embaixador dos EUA em Berlim durante o Governo Trump, estava "dando-lhes ordens literalmente todos os dias sobre o que fazer em questões como Nord Stream 2".

A Alemanha está sendo tratada como "simplesmente um protetorado" pelos EUA, disse Zakharova, ressaltando que não apenas assume a forma de alavancagem financeira das ameaças, mas é apoiado por 30.000 soldados americanos estacionados no país.

"O fato é que não é uma relação de iguais", disse Zakharova.

Instalações militares estrangeiras na Alemanha (julho/2019). Fonte/Arte: Wikipedia
Instalações militares estrangeiras na Alemanha (julho/2019). Fonte/Arte: Wikipedia

As tentativas de Washington de impedir Berlim de comprar gás natural russo através do gasoduto Nord Stream 2 mostram total desdém pelos interesses alemães, disse Zakharova. "A Alemanha precisa desse gás não porque eles gostam da Rússia ou querem nos agradar – eles precisam dele, é o que alimenta sua economia, é um recurso que o desenvolvimento industrial deles depende, é o que eles precisam viver, basicamente... uma questão vital".

Em vez disso, Washington está tentando que a Alemanha compre gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos. No entanto, o preço do GNL americano é muito mais alto, então os EUA disseram à Alemanha para tributar um pouco mais as pessoas e compensar a diferença através de subsídios, disse a porta-voz do governo russo na entrevista.

Para Zakharova, os Estados Unidos estão literalmente usando a energia como alavanca política – exatamente o que os EUA acusaram a Rússia de querer fazer.

"Isto é exatamente o que os EUA têm feito com seus aliados mais próximos, não com rivais ou inimigos, mas com seus próprios parceiros da OTAN [...] Ninguém lhes permitiu qualquer tipo de independência ou soberania".

Zakharova apontou ainda para a liderança dos EUA reunindo os membros europeus da OTAN e ordenando-lhes que gastem 2% de seus PIBs com os militares. A maioria se rendeu. "Não há nenhuma conversa de interesses soberanos há muito tempo".

Exportações de GNL dos EUA

Por volta de 2011, quando Joe Biden era vice-presidente, os Estados Unidos viram seus próprios interesses comerciais de energia ligados ao mercado europeu.

Por questões tecnológicas, grande parte do gás de xisto extraído nos EUA não pode ser aproveitado pelas refinarias americanas e precisa ser exportado sob a forma liquefeita (GNL). Os países europeus surgiram como potenciais consumidores e a Rússia cresceu no papel de rival.

Interessa ao governo americano também exportar a tecnologia para que os europeus explorem suas próprias reservas de xisto. Esse tipo de reserva se esgota mais rapidamente do que as convencionais, o que projeta preços altos no futuro. Por isso, a tendência de longo prazo é o gás liquefeito americano ser ainda menos competitivo frente ao produto russo.

Contudo, a maioria dos países europeus rejeita a exploração local. Além do excessivo consumo de água – um único poço pode demandar entre 7 milhões e 80 milhões de litros de água, o fraturamento da rocha requer produtos químicos que contaminam aquíferos e pode estar relacionado com abalos sísmicos.

Sem conseguir convencer aliados decisivos como a Alemanha, a Casa Branca partiu para sanções econômicas.

No caso do Nord Stream 2, a ameaça de sanção funcionou durante quase todo o ano de 2020: a construção foi interrompida quando faltavam apenas 100 km para sua conclusão.

O Nord Stream 2 pertence à estatal russa Gazprom, mas a metade de seu financiamento vem de empresas europeias, como a francesa Engie, a austríaca OMV, a anglo-holandesa Shell e as alemãs Uniper e Wintershall. Fonte/Arte: © Geopolitical Intelligence Services
O Nord Stream 2 pertence à estatal russa Gazprom, mas a metade de seu financiamento vem de empresas europeias, como a francesa Engie, a austríaca OMV, a anglo-holandesa Shell e as alemãs Uniper e Wintershall. Fonte/Arte: © Geopolitical Intelligence Services

Um adicional de 5,3 Bcf/d (billion cubic feet per day) de gás russo do Nord Stream 2 "certamente sobrecarregará o mercado europeu", avalia Connor McLean, analista de energia da BTU Analytics, acrescentando que os novos volumes provavelmente substituirão as fontes existentes de abastecimento, refreando uma potencial recuperação das exportações de GNL dos EUA.

Embora a Alemanha não tenha instalações de importação de GNL, o fluxo de gás do Nord Stream para a Alemanha ainda poderia conter as importações europeias de GNL devido aos "efeitos indiretos", como reduzir a capacidade da Europa de estocar cargas de gás natural liquefeito, principalmente dos EUA.

Cerca de 40% do gás exportado para a Europa passa pela Ucrânia, que encontra nessa atividade sua principal fonte de renda.
Cerca de 40% do gás exportado para a Europa passa pela Ucrânia, que encontra nessa atividade sua principal fonte de renda.

Os americanos competem com outros fornecedores de GNL para a Europa, como Rússia e Qatar. A Bolivia e o Brasil também visam atender o mercado europeu de gás natural liquefeito. No início do ano passado, os EUA se tornaram brevemente o principal fornecedor europeu, mas o Qatar retomou a liderança.

Dependência do gás russo

Enquanto os Estados Unidos e a União Europeia estão trabalhando em uma estratégia para substituir o fornecimento de gás natural para a Europa, o Qatar disse que não vê como seria alcançada a quantidade necessária.

Como Katharina Buchholz da Statista detalha abaixo, se novas sanções fossem introduzidas contra o presidente russo Vladimir Putin ou Rússia, poderia desencadear uma crise de energia no continente devido a grande parte da dependência da Europa do gás russo.

Entre as maiores economias da Europa, a Alemanha importa mais de 90% de seu suprimento de gás, cerca de metade vindo da Rússia, seguido pela Noruega e Holanda.

A Itália também estaria entre as mais impactadas, com uma dependência de 46% do gás russo.

A França importa da Rússia 24% do seu abastecimento de gás, de acordo com os últimos dados disponíveis. O maior fornecedor de gás do país é a Noruega (35%).

O Reino Unido obtém metade de seu suprimento de gás de fontes domésticas e importa principalmente da Noruega e do Qatar. A Espanha também não está na lista dos principais clientes da Rússia, recorrendo ao gás da Argélia e dos EUA.

Entre os maiores dependentes do gás russo, estão Macedônia do Norte, Bósnia-Herzegovina, Moldávia, Finlândia, Letônia e Sérvia, importando mais de 90% do suprimento da Rússia.

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

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