A inflação nos Estados Unidos está a caminho de subir para níveis não vistos em 14 anos e o Federal Reserve (Fed) está apostando fortemente que a permanência nessas alturas será breve.

Mas se esse salto substancial não for temporário, ou "transitório", como o presidente do Fed Jerome Powell diz frequentemente, as consequências podem ser muito graves para a recuperação pós-pandemia da economia doméstica.

Na hipótese do aumento da inflação manter sua força, os mercados de títulos e ações podem ser abalados, os gastos dos consumidores podem entrar em colapso e, à medida que os EUA entram em recessão, o Fed pode ser forçado a cortar US$ 120 bilhões em compras mensais de títulos e a aumentar as taxas de juros muito antes do esperado.

O core PCE (core personal consumption expenditure price index), medida preferencial de inflação do Fed, atingiu 1,8% em março de 2021, em comparação com o mesmo mês do ano anterior, quando a maioria dos lockdowns começou nos EUA.

O core PCE (core personal consumption expenditure price index), medida preferencial de inflação do Fed, ainda está abaixo da meta de longo prazo (acima de 2%) mas, em uma nota de 1º de maio, economistas do Goldman Sachs disseram esperar que o core PCE exceda 2,4% em abril, o maior aumento ano a ano desde fevereiro de 2007. Powell atribui o aumento previsto aos efeitos de base ou à diferença extrema, criada ao comparar os dados econômicos do auge da pandemia e os gargalos atuais na cadeia de abastecimento global.

James Knightley, economista-chefe do ING, sugere que a atual escassez de capacidade de oferta nos EUA pode ser um sinal de que "as pressões inflacionárias podem ser mais sustentadas do que o Fed está publicamente admitindo", escreveu em uma nota de 29 de abril.

Kolanovic, um dos principais estrategistas de Wall Street que acertou em cheio os movimentos dos mercados na pandemia, prevê em uma nota ("Positioning for Inflation") uma rotação em direção à reflação (1), inflação e aumento dos juros.

"O hedge de inflação foi um grande tema em 2010. Na época, o Quantitative Easing (QE) do Fed aumentou seu balanço acima de US$ 2 trilhões. Muitos investidores pensaram que isso inevitavelmente levaria à inflação. Houve uma corrida para comprar commodities, ouro e outras proteções contra a inflação. No entanto, a recuperação pós-GFC [global financial crisis 2008] foi fraca e novas crises continuaram surgindo – a crise da dívida soberana europeia, crise dos mercados emergentes e da China, guerra comercial global, recessão industrial global e pandemia global. Como nenhuma inflação se materializou na última década, os hedgers de inflação jogaram a toalha e as exposições sensíveis à inflação foram vendidas à medida que os investidores empilharam temas deflacionários (por exemplo, crescimento secular, baixa volatilidade, ESG (2), etc.). Impulsionados por tendências deflacionárias, os títulos quase dobraram e o S&P 500 quadruplicou desde 2010, enquanto os índices de commodities diminuíram significativamente. Desde 2010, o balanço do Fed quase quadruplicou para US$ 7,8 trilhões, e fora dos EUA, os bancos centrais instituíram taxas de juros negativas. Medidas fiscais que vão de infraestrutura a pagamentos diretos injetaram trilhões. Por exemplo, apenas neste ano, o novo governo dos Estados Unidos propôs US$ 6 trilhões em novas medidas de estímulo", diz a nota.

"Com o fim da pandemia neste ano – o crescimento global, os rendimentos dos títulos e a inflação estão dando uma guinada acentuada. Ao mesmo tempo, políticas monetárias e fiscais de incentivo provavelmente persistirão por um tempo. Além disso, existem vários atritos temporários relacionados a cadeias de suprimentos, reabertura, bem como decisões políticas e comerciais que podem agravar a inflação. Na alocação de ativos financeiros, nossa expectativa é que o mercado demore a reconhecer a inflexão, que acreditamos já aconteceu em novembro do ano passado", escreve Kolanovic.

Kolanovic pondera que, após mais de uma década de negócios deflacionários, muitos dos atuais gestores de investimento "nunca experimentou um aumento nos juros, commodities ou inflação de qualquer forma significativa".

Com a mudança significativa na alocação ocorrida na última década em direção ao crescimento, ESG e estilos de baixa volatilidade, todos os quais têm correlação negativa com a inflação, Kolanovic alerta "que a maioria dos portfólios agora está vulnerável a um potencial choque de inflação".

Dado o desemprego ainda alto e uma década de queda da inflação, os bancos centrais provavelmente irão tolerar uma inflação mais alta, assumida temporária.

A questão é se os gestores de ativos farão uma mudança significativa nas alocações para expressar uma maior probabilidade de uma inflação mais persistente.

Se realmente houver uma fuga das ações de crescimento, onde apenas as 5 corporações da FAAMG respondem por 25% da capitalização de mercado da S&P, ambas Nasdaq e S&P 500 implodiriam, ainda que o setor de commodities dispare.

Kolanovic está confiante – como tem estado na maior parte dos últimos dois anos – de que essa mudança na alocação acontecerá, independentemente de quão temporária seja a inflação, e novos dados de inflação farão com que os investidores aumentem as alocações para hedges diretos de inflação, como commodities (3), e migrem de apostas de baixa volatilidade para ações de valor.

“Os gestores provavelmente não se arriscarão e reposicionarão os portfólios”, escreveu Kolanovic. “Com a baixa liquidez de mercado, fluxos sistemáticos e macro/fundamentos, o tamanho dos ativos financeiros que precisam de rotação ou hedges de inflação pode causar impacto desproporcional sobre temas inflacionários e reflacionários ao longo do próximo ano”.

Notas

(1) Reflação é a ação de estimular a economia através do aumento do suprimento de moeda ou da redução de impostos, política na qual um governo utiliza estímulos fiscais ou monetários a fim de expandir a produção e a renda do país.

(2) Environmental Social Governance (ESG) refere-se ao compromisso de uma empresa obter mais do que lucro, se esforçando ativamente para contribuir positivamente para o meio ambiente ou para as causas sociais e se comportar responsavelmente. Os investidores devem estar cientes de que, ao adotar o ESG, eles introduziram uma exposição adicional à inflação nas carteiras.

(3) Os índices de commodities (como S&P GSCI) são talvez o hedge de inflação mais direto. As commodities também estão baratas em um contexto histórico – são as únicas classes importantes de ativos que declinaram em termos absolutos na última década, em grande parte devido à queda nos preços da energia. Desde 2010, o S&P 500 quadruplicou enquanto o índice S&P GSCI caiu quase 40%.

* Com informações do ZeroHedge

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