Boulevard da Diversidade terá mercado de orgânicos, com mobiliário sofisticado, elaborado por designers renomados, e passagem subterrânea do trânsito em trecho da Rua São Carlos do Pinhal.Fonte:Secretaria Especial de Comunicação, Prefeitura de São Paulo
Boulevard da Diversidade terá mercado de orgânicos, com mobiliário sofisticado, elaborado por designers renomados, e passagem subterrânea do trânsito em trecho da Rua São Carlos do Pinhal. Reprodução. Fonte: Secretaria Especial de Comunicação, Prefeitura de São Paulo

O Juiz Emílio Migliano Neto, da 7ª Vara da Fazenda Pública, em decisão liminar determinou a suspensão da construção de uma passagem subterrânea no bairro da Bela Vista, região da Avenida Paulista, obra essencial do empreendimento Boulevard Paulista, explorado pelo mesmo grupo do megacomplexo de luxo Cidade Matarazzo.

"Com razão as autoras quando sustentam que temem pelo iminente início das obras de execução do túnel, mesmo as de preparação, no período de recesso forense, antes mesmo da Municipalidade prestar as informações determinadas por este Juízo, pois o restabelecimento do status quo ante se tornará dificultoso e de grande custo", diz a liminar.

As associações citaram um parecer da CET de 2017, feito na gestão João Doria, segundo o qual o projeto do túnel não traria “reais benefícios” para a região “do ponto de vista da acessibilidade e da mobilidade”. No documento, os técnicos afirmam que o  túnel cria uma barreira física e que os empreendimentos lindeiros teriam seus acessos dificultados.

O calçadão proposto pela Associação São Paulo Capital da Diversidade, entidade sem fins lucrativos fundada por Alexandre Allard, empresário franco-americano idealizador da Cidade Matarazzo, conecta à Avenida Paulista e integra o complexo do Groupe Allard de prédios tombados e edifícios novos, um empreendimento de US$ 1,2 bilhão que abrigará shopping center, centro cultural, serviços de saúde, escritórios, mais de 30 restaurantes e o hotel Rosewood São Paulo.

A passagem subterrânea de cerca de 100 metros de extensão da Rua São Carlos do Pinhal será destinada ao tráfego de automóveis e ônibus, incorporando-se o trecho de superficie da via pública à área do boulevard.

Um cínico poderia dizer que a Prefeitura desapropriou a via pública para benefício de uma empresa privada.

Além de restringir o trecho da Rua São Carlos do Pinhal para pedestres, o boulevard também abrange o calçadão da Alameda das Flores, e a calçada e o espaço das vagas de estacionamento de uma quadra da Alameda Rio Claro.

“É uma doação para a cidade. Trata-se de uma obra de R$ 130 milhões.  Nós vamos passar para debaixo da terra o trânsito, para na parte de cima termos um boulevard. É um ganho para a cidade de São Paulo. Temos certeza que vai melhorar muito a região”, festejou o Prefeito Bruno Covas no ato de assinatura da autorização da construção do Boulevard Paulista, denominação oficial do acordo.

Cabe lembrar que a 'doação' é a contrapartida da exploração por 30 anos do espaço público de 10 mil metros quadrados "por onde passam aproximadamente 1,5 milhão de pessoas por dia".

A obra tem causado polêmica entre os moradores da região.

Em outubro, a Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente realizou uma audiência pública sobre o boulevard.

Representando moradores da Avenida Paulista e entorno, a advogada e empresária Raphaela Galletti questionou a ausência de dados concretos relacionados às consequências  da obra.

“Temos muitas dúvidas em relação ao projeto, como os impactos  nos moradores ou se existem estudos demográficos que permitam fazer essa  integração com a obra. Temos dúvidas quanto à necessidade do túnel e do efeito que causará nas ruas afetadas, em diferentes situações”, disse.

Fernando Dentes, representante de dois edifícios comerciais, disse que não houve consulta às empresas afetadas pela construção do boulevard.

“Como edifícios comerciais, que estão encravados na intervenção, somos afetados de forma diferente dos edifícios residenciais. E, diferente de outras pessoas, não fomos consultados sobre a construção do boulevard, o que nos estranha, porque nossa anuência é importante e está no decreto de mobilidade da cidade”.

O arquiteto e urbanista Kazuo Nakano reconhece que a obra pode melhorar o dia a dia do pedestre, mas acredita que o projeto precisa de mais discussão.

“Um projeto urbano como esse, que vai interferir bastante no espaço  público e local, precisa ter um processo participativo de verdade”, afirma o arquiteto.

  • Com informações e dados da Prefeitura e da Câmara Municipal de São Paulo, SPTV e Estadão