Loja de descontos Family Dollar em Bloomfield, Connecticut. Foto: Mike Mozart
Loja de descontos Family Dollar em Bloomfield, Connecticut. Foto: Mike Mozart

O varejo de descontos, com aumento continuo de lojas físicas e de popularidade, inclusive entre consumidores de classe média e alta, deveria ser considerada uma atividade econômica desejável e valiosa, ao menos pelos empregos diretos e indiretos que gera e pelo impacto nas economias locais e nacionais.

Não é a opinião de ativistas americanos da indústria da alimentação saudável.

Cerca de 20 anos atrás, pesquisadores acadêmicos começaram a descrever bairros de população de baixa renda com pouca disponibilidade de alimentos saudáveis como “desertos alimentares” (food deserts).

O termo chamou a atenção de autoridades, ativistas e da imprensa.

Os terrenos baldios nutricionais foram mapeados e vinculados a problemas crônicos de saúde sofridos pelos pobres.

Apesar das evidências limitadas que sustentam essa alegação causal, o governo federal e os municípios locais gastam milhões de dólares por ano em políticas do lado da oferta que subsidiam e auxiliam mercearias em áreas carentes.

Após duas décadas de subsídios aos supermercados e a abertura de milhares de novas lojas em todo os EUA, os resultados de saúde das comunidades não mudaram significativamente, e os ativistas pensam que sabem o motivo.

Os culpados, dizem eles, são as lojas de desconto de variedades (dollar stores) nos bairros pobres que –  assim pensam –  expulsam os supermercados e vendem junk food.

A ideia de que as dollar stores são invasoras ignora o fato de que essas lojas estão se expandindo nos bairros que os querem, e que varejistas de descontos tendem a ter uma pequena zona de influência, na maioria das vezes em torno de 1 km.

E a noção de que as dollar stores diminuem a qualidade dos varejistas de uma área ignora como essas mesma lojas também se tornaram populares em bairros prósperos.

"O que está impulsionando o crescimento são as famílias abastadas", disse um especialista da Nielsen Company à New York Times Magazine, em uma matéria intitulada "The Dollar Store Economy", publicada antes que essas lojas se tornassem alvo de ativistas.

"Embora seja verdade que os trabalhadores de baixo salário ainda constituam o núcleo dos clientes das dollar stores (42% ganham até US$ 30 mil; 22% ganham mais de US$ 70 mil), o que transformou esse setor em um setor quase à prova de recessão é uma nova base de clientes. "O que está impulsionando o crescimento", diz James Russo, vice-presidente da Nielsen Company, uma empresa de pesquisa de consumidor, "são famílias abastadas".

Esses novos clientes são pessoas que, apesar de terem dinheiro, sentem que não têm ou logo não o terão. Essa ansiedade cria um tipo de prazer induzido pelo medo na busca seletiva de pechinchas, o chamado Novo Consumismo.

"Economizar está na moda novamente. Um galão de água sanitária Clorox, digamos, custa 1,44 dólares em uma farmácia ou 1,24 dólares em uma mercearia, e você paga 1,00 dólar na Dollar General. Quando os vizinhos chegam, eles não sabem onde você comprou", exemplifica um executivo da empresa.

Contudo, setores da imprensa americana apoiam a pretensão dos ativistas de que as cidades devem banir as dollar stores, ignorando as pesquisas cientificas que afirmam que a falta de supermercados não é o problema – e muito menos a popularidade das lojas de descontos.

O Washington Post descreveu como essas lojas "invadiram" as cidades. Um artigo da Fast Company explicou "por que as dollar stores são um negócio ruim para os bairros em que abrem". Um artigo do Atlanta Journal-Constitution destacou uma citação de uma autoridade local: "Não precisamos delas em todos os cantos."

"Quando você tem dollar stores em um bairro, não há incentivo para a entrada de uma mercearia de serviço completo".

Caberia lembrar que o Washington Post é controlado pelo bilionário americano Jeff Bezos, que também controla a Amazon e a Whole Foods, rede de supermercados "especializada em alimentos naturais e orgânicos", com faturamento de US$ 16 bilhões e ocupante da posição 176 do ranking da revista Fortune de maiores empresas.

"A Whole Foods Market Inc. é uma cadeia de supermercados americana que vende exclusivamente produtos sem corantes artificiais, flavorizantes, conservantes, adoçantes e gorduras hidrogenadas".

Pesquisas recentes enfraquecem o argumento de que a falta de alimentos frescos e saudáveis é responsável por dietas não saudáveis.

Em um artigo publicado no Quarterly Journal of Economics, os autores registram compras de supermercado de 10 mil famílias localizadas em antigos desertos alimentares, onde novos supermercados foram abertos desde então.

Eles descobriram que as pessoas não compravam alimentos mais saudáveis quando começaram a fazer compras em um novo supermercado local.

Estudamos as causas da “desigualdade nutricional”: por que os ricos comem mais saudavelmente do que os pobres nos Estados Unidos. Explorando a abertura de supermercados e a mudança de domicílio para bairros mais saudáveis, rejeitamos que os ambientes do bairro contribuam significativamente para a desigualdade nutricional ... Simulações contrafactuais mostram que a exposição de famílias de baixa renda aos mesmos produtos e preços disponíveis para famílias de alta renda reduz a desigualdade nutricional em apenas cerca de 10%, enquanto os 90% restantes são motivados por diferenças na demanda. Essas descobertas contrariam o argumento de que políticas para aumentar a oferta de alimentos saudáveis podem desempenhar um papel importante na redução da desigualdade nutricional.

"Podemos concluir estatisticamente que o efeito na alimentação saudável da abertura de novos supermercados foi insignificante na melhor das hipóteses".

Em outras palavras, a narrativa comida-deserto – que uma melhor escolha motivaria as pessoas a "comerem melhor" –  é fundamentalmente incorreta.

"Na economia moderna, as lojas se tornaram incrivelmente boas em vender exatamente o tipo de coisa que queremos comprar", escrevem os pesquisadores.

"A menor demanda por alimentos saudáveis é o que causa a falta de oferta".

Food wars

A última frente nas guerras alimentares surgiu nos últimos anos. Comunidades como Oklahoma City, Tulsa, Fort Worth, Birmingham e DeKalb County da Geórgia aprovaram restrições às dollar stores, levando várias outras comunidades a considerar restrições semelhantes.

Novas leis e regulamentos de zoneamento limitam quantas dessas lojas podem abrir, e algumas exigem que as já existentes vendam alimentos frescos.

Combater os efeitos negativos de uma dieta inadequada envolve educar as pessoas a mudar seus hábitos alimentares. Esse é um projeto mais complicado do que proibir dollar stores.

 Nielsen Homescan data for 2004–2016
Fonte: Nielsen Homescan data for 2004–2016

Os "vilões"

Enquanto o noticiário destaca o fechamento de 10 mil lojas físicas nos EUA em 2019, a rede Dollar General, fundada em 1939  e que emprega 135 mil funcionários,  está somando 1000 novas unidades às suas 15 mil lojas espalhadas em 44 estados.

No ano fiscal de 2018, a rede varejista de preços baixos registrou vendas de US$ 26 bilhões (+9,2%) e lucro líquido de US$ 1,6 bilhão (+3,3%).

A empresa comercializa um sortimento de marcas renomadas – que inclui uma variedade de alimentos processados, bebidas, produtos de higiene e limpeza, utilidades domésticas, etc – com preços mais baixos que as redes de supermercados e uma seleção de produtos e artigos de qualidade por US$ 1, especialmente guloseimas e enlatados.

A Dollar General é a maior das chamadas dollar stores. Está há 21 anos na lista da Fortune 500, avançando no ranking a cada ano, e atualmente ocupa a posição 119, cerca de 60 posições à frente do negócio de produtos naturais de Bezos.

Competindo diretamente, Dollar Tree/Family Dollar é a maior concorrente, mas existe uma infinidade de lojas de descontos independentes nos Estados Unidos.

A Family Dollar foi fundada em 1959.  Em 2001, entrou no índice S&P 500 e no ano seguinte na lista Fortune 500. Opera 8 mil lojas em 44 estados. Em 2014, o controle da empresa, então com 60 mil funcionários, foi comprado pela Dollar Tree após disputa com a Dollar General.

A Dollar Tree, fundada em 1986 como Only $1.00 realizou oferta pública de ações (IPO) em 1995. Opera 15,115 lojas em 48 estados americanos e no Canadá. No ano fiscal de 2018 faturou US$ 23 bilhões e ocupa a posição 134 do ranking 2019 da Fortune. Emprega 120 mil funcionários.

Segundo os críticos, o modelo de negócios das dollar stores, com baixo investimento em unidades "no-frills" de 800 m2 com 8-10 mil itens e menos de 10 empregados, margens baixas, giro rápido e sem perdas, 50% de mercadorias de marcas de distribuição nacional, grande oferta de guloseimas e enlatados, etc, permitiu a essas empresas prosperarem a partir de lojas em pequenas cidades e comunidades de menor renda, inviabilizando os supermercados devido aos seus custos muito maiores de implantação e operação e margens reduzidas das dollar stores justamente nos produtos campeões de venda.

A primeira recomendação do artigo da Dunnhumby de 2017, Como enfrentar os varejistas de descontos, é "Não permita que eles se estabeleçam".

* Com informações de Steven Malanga/City Journal, Quarterly Journal of Economics, Dunnhumby e Fortune

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