O estudo Young People's Voices on Climate Anxiety, Government Betrayal and Moral Injury: A Global Phenomenon, publicado em preprint na The Lancet Planetary Health, diz que jovens em todo o mundo estão aterrorizados com as mudanças climáticas.

Apresentado como a primeira pesquisa em grande escala desse tipo, o estudo foi conduzido por acadêmicos de sete instituições do Reino Unido, Europa e Estados Unidos, incluindo a University of Bath Climate Psychology Alliance, o Stanford Center for Innovation in Global Health, a University of East Anglia, e o Oxford Health NHS Foundation Trust.

A pesquisa, paga pela empresa de campanhas Avaaz, ouviu jovens da Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido e EUA.

Liz Marks, co-autora principal do estudo, disse que foi “chocante ouvir como tantos jovens de todo o mundo se sentem traídos por aqueles que deveriam protegê-los”.

Os autores entendem que embora a ansiedade climática possa não constituir uma doença mental em si, “as realidades da mudança climática, juntamente com as falhas governamentais em agir, são estressores crônicos, de longo prazo e potencialmente inevitáveis; condições em que os problemas de saúde mental vão piorar”.

Segundo a pesquisa, 60% dos entrevistados estavam muito ou extremamente preocupados com as mudanças do clima – mais de 45% disseram que seus sentimentos sobre o assunto afetaram negativamente sua vida diária.

Entre os 1.000 jovens brasileiros que participaram do estudo, 86% disseram que "o futuro é assustador" e 67% pensam que "a humanidade está condenada".

Para 92% desse jovens, "as pessoas falharam em cuidar do planeta" e 48% deles responderam que estão "hesitantes em ter filhos". Ainda assim, apenas 50% do grupo brasileiro entrevistado pensa que terá "menos oportunidade do que os pais".

Conforme documentado por Lukianoff e Haidt, nas últimas décadas os jovens foram convencidos de que são extremamente frágeis e cercados por inúmeras ameaças com as quais não podem lidar. Irracionalmente assustados, projetam então a mesma fragilidade para o mundo ao seu redor, tanto natural quanto político-social. A tendência de promover a infância prolongada faz com que os jovens (e não tão jovens) procurem autoridades poderosas para consolá-los e protegê-los.

Naturalmente, algumas dessas autoridades podem ter sua própria agenda.

O resultado é que, em nome do bem-estar emocional, os estudantes estão cada vez mais exigindo proteção contra palavras e ideias de que não gostam, escrevem Lukianoff e Haidt no artigo The Coddling of the American Mind - How Trigger Warnings Are Hurting Mental Health on Campus, publicado na revista The Atlantic.

Embora as mudanças climáticas seja um problema, o pânico é injustificado, entende Bjorn Lomborg, cientista político dinamarquês, presidente do Copenhagen Consensus e autor de vários livros, entre eles, False Alarm: How Climate Change Panic Costs Us Trillions, Hurts the Poor, and Fails to Fix the Planet e How Much Have Global Problems Cost the World?

Em artigo de opinião no Wall Street Journal (WSJ), Even With Climate Change, the World Isn’t Doomed, Lomborg lembra que os dados mostram que a humanidade superou ameaças muito maiores no século passado.

Custo dos problemas sociais como uma porcentagem do PIB global. Fonte: How Much Have Global Problems Cost the World? Bjorn Lomborg, Cambridge University Press
Custo dos problemas sociais como uma porcentagem do PIB global. Fonte: How Much Have Global Problems Cost the World? Bjorn Lomborg, Cambridge University Press

"Em 1900, se a humanidade tivesse se livrado da poluição do ar – principalmente poluição interna causada por combustíveis como madeira e esterco – o benefício teria sido equivalente a um aumento de 23% do produto interno bruto global", calcula Lomborg.

"Para um público jovem, isso pode parecer uma medida insuficiente de bem-estar, mas um PIB mais alto significa melhor saúde, menor mortalidade, maior acesso à educação e, em geral, um melhor padrão de vida", acrescenta.

"O desafio que as mudanças climáticas representam, tanto para o meio ambiente quanto para a sociedade, parece bem pequeno em comparação com aqueles que a humanidade já enfrentou", avalia o cientista político.

Risco global de morte por catástrofes climáticas e não climáticas, 1920-2018
Risco global de morte por catástrofes climáticas e não climáticas, 1920-2018

Em dois vídeos de 2014 no Gates Notes, o blog de Bill Gates, Lomborg aborda a questão da pobreza energética e defende que os pobres do mundo precisam de melhor acesso a combustíveis baratos, incluindo combustíveis fósseis. Bjorn argumenta que antes que os países pobres possam migrar para a energia limpa, as famílias pobres precisam ter acesso a eletricidade barata para que não tenham que queimar esterco, papelão ou gravetos para cozinhar e aquecimento da casa. Esses combustíveis sujos, altamente poluentes, são utilizados por 3 bilhões de pessoas e comprometem seriamente a saúde dos moradores, especialmente das crianças.

Gates comenta: "Em vez de colocar restrições aos países pobres que restringirão sua capacidade de combater a pobreza, deveríamos investir muito mais dinheiro em P&D para tornar os combustíveis fósseis mais limpos e tornar a energia limpa mais barata do que qualquer combustível fóssil. [...] Bjorn demonstra o quão grande é a lacuna de energia entre países ricos e pobres, e argumenta que simplesmente dizer aos países pobres para 'obter turbinas eólicas e painéis solares' é oco e hipócrita".

"Cuidar do meio ambiente e do bem-estar humano não significa que devemos aterrorizar os jovens com as mudanças climáticas. Em vez disso, devemos incentivá-los a buscar inovação. Isso é o que salvou a humanidade de perigos muito maiores no passado e o que nos ajudará agora", conclui o artigo de Lomborg no WSJ.

Atualização 14/11/2021

A COP26 terminou esta semana. Na cobertura da conferência pela imprensa, não houve nenhum esforço para entender por que dois dos maiores consumidores de combustíveis fósseis, Índia e China, recuaram nas tentativas de reduzir o uso de carvão, observa a revista britânica The Spectator.

"Parece que estamos de volta à caracterização um tanto simplista de 'mocinhos' (os países que assinaram a declaração) e 'bandidos' (os países que não assinaram)".

"Existem boas e poderosas razões pelas quais os políticos na Índia e na China hesitam no compromisso de eliminar o carvão. O sustento e a vida de milhões de seus cidadãos dependem disso. Um instituto sediado em Bruxelas, o Heinrich-Boll Stiftung, que é filiado ao Partido Verde alemão, teve mesmo de admitir este ponto: 'A Índia foi capaz de reduzir a pobreza juntamente com uma expansão massiva do uso do carvão nas últimas duas décadas… Carvão aliviou o problema de acesso à energia da Índia e contribuiu para a redução da pobreza'", aponta a revista.

"A necessidade de carvão da Índia é imensa: 70% da eletricidade da Índia vem de usinas termelétricas a carvão e sua política energética atualmente se concentra em levar eletricidade a preços acessíveis para todas as casas, já que milhões ainda não têm energia elétrica", destaca a publicação.

A estrutura energética da China também é dominada pela energia do carvão, diz Su Wei, vice-secretário-geral da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma.

Embora a China tenha metas ambiciosas para reduzir suas emissões de carbono, sua política de energia se concentra principalmente em metas econômicas e na melhoria da qualidade de vida de milhões. Não há dúvida de que os legisladores chineses estão deixando claro que o crescimento econômico continua sendo uma prioridade – e que o crescimento depende em grande parte da energia do carvão.

"Os políticos na Índia e na China enfrentam uma escolha difícil. É vital para esses países reduzir o uso de combustíveis fósseis mas parece haver pouco entendimento de que tal redução levará diretamente a milhões de vidas sendo prejudicadas", afirma a The Spectator.

Li Gao, diretor-geral do departamento de mudanças climáticas do ministério chinês, pergunta: "Muitos países em desenvolvimento nem mesmo têm eletricidade. Nesta situação, se você não usar carvão, o que usará?".

A ênfase nas mudanças climáticas necessariamente remove o crescimento econômico como uma prioridade. A agenda verde visa, em vez disso, uma economia em retração e padrões de vida reduzidos, buscando elevar os grupos favorecidos em uma economia estagnada, em vez de gerar oportunidades para a população em geral.

* Com informações do The Lancet Planetary Health, Wall Street Journal, CNBC, BBC, The Guardian, Gates Notes, The Spectator

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