O problema surgiu quando três reatores nucleares da usina de Fukushima sofreram colapsos na sequência de um terremoto e tsunami em 11 de março de 2011. Detritos de combustível nuclear derretido escoaram através de vasos de contenção de aço e nas bases de concreto dos edifícios dos reatores.

Desde então, os trabalhadores bombearam água nas ruínas da usina para evitar que os destroços superaquecessem e causassem mais danos. A gravidade do acidente foi classificada como a mais alta da história da humanidade.

O plano aprovado envolve a remoção das substâncias altamente radioativas da água armazenada em mais de 1.000 tanques e seu despejo "purificado" no mar. Assim que o consentimento dos governos locais for obtido, a TEPCO começará a construir as instalações necessárias, incluindo um túnel submarino.

O descarte levará décadas para ser concluído. A água dos tanques será diluída para que fique 40 vezes menos concentrada, com todo o processo demorando 30 anos, segundo o jornal Yomiuri Shimbun.

O descomissionamento da usina de Fukushima deve levar cerca de 40 anos.

Em termos da legitimidade do plano de descarte de água, da confiabilidade dos dados japoneses, da eficácia dos dispositivos de purificação e do impacto ambiental incerto, a TEPCO e o governo japonês nunca fizeram declarações claras.

Sabe-se, contudo, que o sistema utilizado pela empresa para purificar a água é incapaz de filtrar o trítio, um isótopo radioativo de hidrogênio, e isótopos mais perigosos e com vidas radioativas mais longas, como rutênio, cobalto, estrôncio e plutônio, às vezes escapam do processo, algo que a TEPCO só admitiu em 2018.

A operadora da usina diz agora que esses nuclídeos adicionais estão presentes em 70% dos tanques.

Por sua vez, não há mais espaço para armazenamento no campus da Fukushima. O Japão alegou repetidamente que não tem alternativa para despejar a água no mar, ainda que tenham sido oferecidas soluções melhores pela comunidade científica.

O fato é que o plano de jogar a água no mar é o mais barato.

A extração de 170 toneladas de águas residuais por dia exigiu a construção continua de novos tanques de armazenamento, ocupando todo o o espaço da usina. Foto: © 2014 Sato Yamamoto
A extração de 170 toneladas/dia de águas residuais exigiu a construção contínua de novos tanques. Foto: © 2014 Sato Yamamoto

A Agência Internacional de Energia Atômica, das Nações Unidas, afirma que o lançamento da água contaminada no mar atende aos padrões globais de prática do setor. Essa é uma forma comum de liberar água em usinas nucleares em todo o mundo, mesmo quando não estão em situações de emergência, diz a agência.

No entanto, grupos ambientalistas, organizações de pesca e países vizinhos condenam o plano, citando os grandes volumes envolvidos e o possível impacto do descarte na vida marinha e na pesca.

A Coreia do Sul, que ainda proíbe as importações de frutos do mar da região, expressou preocupação repetidamente, enfatizando que o despejo da água representa uma “grave ameaça” para o meio ambiente marinho.

Muito do material radioativo caiu no Oceano Pacífico por causa dos ventos predominantes. A preocupação com os peixes contaminados devastou a indústria pesqueira regional. As autoridades temem que a liberação de água contaminada reacenda os temores públicos sobre os pescados da região.

"A afirmação de que o dano poderá ser reduzido através da diluição pela água do mar é auto-enganadora, porque não importa o quanto o elemento radioativo seja diluído, ele não desaparecerá. O subtexto de tal afirmação é que a perda será compartilhada por todos os seres humanos", diz editorial desta sexta-feira do jornal Global Times, braço do Partido Comunista da China.

"O descarte de água contaminada da usina nuclear de Fukushima diz respeito ao ambiente marinho global e à saúde pública dos países do Pacífico. Não é de forma alguma negócio privado do Japão", acrescenta a publicação chinesa.

"No entanto, o Oceano Pacífico não é o local de disposição de esgoto do Japão, e a ecologia marinha é um todo orgânico, então uma vez que a poluição se espalha, pode afetar todos. A maioria dos países, incluindo os EUA, não pode ser imune a isso. Um instituto alemão de pesquisa oceânica apontou anteriormente que, como a costa de Fukushima tem uma das correntes oceânicas mais fortes do mundo, os materiais radioativos poluirão mais da metade do Oceano Pacífico em 57 dias a partir da data de descarga, e se espalharão para as águas globais 10 anos depois. Especialistas nucleares do grupo ambiental Greenpeace apontaram que o carbono-14 contido na água contaminada tem uma vida de milhares de anos e tem o potencial de danificar o DNA humano", argumenta o Global Times.

"Se o Japão fechar os olhos para as preocupações da comunidade internacional, o momento em que a água contaminada radioativa de Fukushima fluir para o mar, uma nova mancha histórica seguirá o Japão para sempre", conclui o jornal.

Lei Yian, professor associado de Física da Universidade de Pequim, pondera que instituições terceirizadas deveriam monitorar o processo.

“[O Japão] disse que as concentrações de radionuclídeos eram muito baixas após o primeiro tratamento, mas depois descobriu-se que alguns nuclídeos ainda tinham altas concentrações”, disse Lei Yian. “Então, é preciso ter uma instituição terceirizada para monitorar o nível de radionuclídeos após o segundo tratamento”.

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