Com mais de sete décadas de produção artística e uma trajetória intensa na cultura popular brasileira, incluindo poesia, literatura de cordel e xilogravura, o artista pernambucano de fama internacional é, antes de tudo, um poeta do sertão, contador de estórias e inventor de causos do cotidiano nordestino.

J. Borges atuou primeiramente como cordelista em feiras de rua. Até que, por falta de gravuras em seus escritos, começou a se arriscar no mundo da xilogravura – arte que o tornou famoso em todo o mundo, com obras em inúmeras galerias de arte e museus, incluindo o Louvre. O artista também ministrou aulas sobre xilogravura e cordel em países como França, Suíça e Estados Unidos.

Entre os temas mais retratados na obra de Borges, está a vida cotidiana dos sertanejos, a fauna e a flora da caatinga, além de festas populares como o carnaval, o bumba meu boi, a ciranda e a Folia de Reis. Embora seja outra temática recorrente na região, que ainda conta com a presença de carpideiras, a morte não dá as caras na obra de Borges.
Entre os temas mais retratados na obra de Borges, está a vida cotidiana dos sertanejos, a fauna e a flora da caatinga, além de festas populares como o carnaval, o bumba meu boi, a ciranda e a Folia de Reis. Embora seja outra temática recorrente na região, que ainda conta com a presença de carpideiras, a morte não dá as caras na obra de Borges.

Os muitos cordelistas que circulavam na década de 1970 se tornaram os primeiros clientes de Borges. Com o tempo, ele foi aperfeiçoando o seu desenho e o corte na madeira. “Até que chegou ao ponto de vir gente do Rio de Janeiro e fazer encomendas para galerias de arte na cidade”, lembra o artista.

José Saramago, Eduardo Galeano e Ariano Suassuna foram alguns dos escritores que tiveram as gravuras do mestre pernambucano publicadas em seus livros.

Entre os trabalhos de J. Borges selecionados para a exposição, estão as obras No Tempo da Minha Infância, Na Minha Adolescência, Vendendo Bolas Dançando e Bebendo, Serviços do Campo, Cantando Cordel, Plantio de Algodão, A Vida na Mata, Plantio e Corte de Cana, Forró Nordestino e Viagens a Trabalho e Negócios.

O artista desenha direto na madeira, sem a produção de esboços, estudos ou rascunhos. O título é o mote para Borges criar a gravura, na qual as narrativas próprias do cordel têm seu espaço. Suas xilogravuras não mostram preocupação rigorosa com perspectiva ou proporção, é a sua mais pura forma de arte original.

A mostra também apresenta 4 obras de Pablo Borges e Bacaro Borges, filhos e aprendizes do artista, além da exibição de uma cinebiografia sobre a vida e a obra de J. Borges, do jornalista Eduardo Homem.

Cordelista

José Francisco Borges, o J. Borges, de 87 anos, é natural de Bezerros, no Agreste pernambucano, onde vive e trabalha até hoje.

Aos oito anos, José Francisco já trabalhava na terra com o pai. Aos dez, fabricava e comercializava na feira colheres de pau. Foi oleiro, confeccionou brinquedos artesanais, trabalhou como pedreiro, carpinteiro, marceneiro, pintor, na lavoura de cana e vendedor de folhetos de cordel. Aos vinte e um anos, José resolveu que iria fazer literatura de cordel. Foi quando escreveu O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, que vendeu mais de cinco mil exemplares em dois meses.

Como não tinha dinheiro para pagar um ilustrador, J. Borges resolveu fazer ele mesmo: começou a entalhar os desenhos na madeira. Desde então, não parou mais de ilustrar os mais de 200 cordéis que lançou ao longo da vida.

Os versos tratam da vida do campo, o cotidiano do pobre, o cangaço, o amor, os castigos do céu, os mistérios, os milagres, crimes e corrupção, os folguedos populares, a religiosidade, a picardia, sempre ligados ao povo nordestino.

Por 20 anos, J. Borges trabalhou como ambulante, vendendo cordel. “Tenho saudades dessa fase até hoje. Dos lugares que conheci, dos amigos que fiz, das namoradas que arranjei”, conta o artista.

Foi com essa literatura que Borges aprendeu a viver tranquilo, perdoar e defender aquilo em que ele acredita. “Nas feiras, às vezes tinha gente que vinha pra brigar. O cordel me ensinou a passar de lado pelo ruim, a ter paciência para deixar essas pessoas passarem. Isso aconteceu muito na minha vida social, artística e pessoal”, conta o artista, com a prosa poética do Agreste.

A originalidade, irreverência e personagens imaginários são notáveis nas suas obras. Na exposição, livretos de cordel pendurados em um barbante, tal como no Nordeste, poderão ser conferidos pelos visitantes.

Se nos anos 50 o cordel era chamado de coisa de preguiçoso e vagabundo, hoje essa literatura ganha cada vez mais espaço e reconhecimento em escolas e universidades. “Muita gente boa saiu porque existia preconceito. Mas eu bati na tecla de que eu não estava fazendo nada de errado”, recorda Borges.

Borges em matéria de Carol Moré de 2017
Borges em matéria de Carol Moré de 2017

* Com informações de Carol T. Moré/Follow The Colours, Alessandra Goes Alves/Outras Palavras

Espaço de Exposições do Centro Cultural Fiesp
Borges – O Mestre da Xilogravura
Curador: Ângelo Filizola
Data: 6 de abril a 7 de agosto de 2022
Horário: quarta a domingo, das 10h às 20h
Endereço: Avenida Paulista 1313, São Paulo/SP
Entrada grátis

Leitura recomendada:

Veja também: