"Informamos que a Encarregada de Negócios do Brasil em Teerã, assim como representantes de países que se manifestaram sobre os acontecimentos em Bagdá, foram convocados pela chancelaria iraniana. A conversa, cujo teor é reservado e não será comentado pelo Itamaraty, transcorreu com cordialidade, dentro da usual prática diplomática", informou o Ministério das Relações Exteriores.

Diplomatas da Alemanha e Suíça também foram convocados.

O governo do Irã não poupou críticas à Alemanha.

"O Irã critica fortemente comentários inapropriados, insubstanciais e destrutivos de algumas autoridades alemãs", afirmou o governo iraniano na TV estatal IRIB (Islamic Republic of Iran Broadcasting), única emissora de TV e rádio dentro do país.

Algumas autoridades alemãs fizeram "comentários errados, impensados e prejudiciais em apoio ao ataque terrorista dos EUA no Iraque", acrescentou.

O enviado suíço, que representa os interesses dos Estados Unidos (“protecting power mandate”) em Teerã, foi convocado pelas autoridades iranianas em protesto contra as ameaças feitas pelo Presidente Donald Trump, segundo a agência de notícias Reuters.

O Ministério das Relações Exteriores da Suíça confirmou que a reunião ocorreu e descreveu o conteúdo como "confidencial".

Retórica beligerante

Em comunicado oficial divulgado na sexta-feira (3), o Itamaraty condenou várias vezes o terrorismo e usou uma linguagem diplomática para demonstrar que, para o Governo brasileiro, a Guarda Revolucionária do Irã poderia ser classificada como terrorista.

"Ao tomar conhecimento das ações conduzidas pelos EUA nos últimos dias no Iraque, o Governo brasileiro manifesta seu apoio à luta contra o flagelo do terrorismo e reitera que essa luta requer a cooperação de toda a comunidade internacional sem que se busque qualquer justificativa ou relativização para o terrorismo", diz um trecho do comunicado do Itamaraty intitulado "Acontecimentos no Iraque e luta contra o terrorismo".

Tradicionalmente, o Brasil tem evitado a designação de grupos como  entidades terroristas, justamente para manter um canal de diálogo.

Oficialmente, o Brasil só considera como terroristas os grupos al-Qaeda e Estado Islâmico, seguindo resoluções tomadas pelas Nações Unidas.

Na semana passada, o Presidente Jair Bolsonaro disse que o Brasil não se manifestaria sobre a crise entre Irã e EUA por não ter poderio bélico.

Bolsonaro afirmou ainda que conversaria com autoridades americanas porque os dois países são aliados em muitas questões.

"Eu não tenho o poderio bélico que o americano tem para opinar neste momento. Se tivesse, eu opinaria", afirmou o Presidente.

Nesta terça-feira (7), Bolsonaro reafirmou repúdio ao terrorismo "em qualquer lugar do mundo",  mas ressaltou que pretende manter comércio com o Irã.

"Temos comércio com o Irã e vamos continuar esse comércio", disse o Presidente a jornalistas na saída do Palácio da Alvorada.

Comércio bilateral

Estabelecidas em 1903, as relações Brasil e Irã ganharam impulso com a intensificação das visitas de altas autoridades de ambos os países realizadas a partir dos anos 2000, incluindo troca de visitas presidenciais e diversas visitas ministeriais de ambos os lados.

Em 2018, esteve no Brasil o Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Islâmica do Irã, Mohammad Javad Zarif, acompanhado de comitiva empresarial.

No plano bilateral, Brasil e Irã mantêm iniciativas de cooperação em diferentes áreas de interesse comum, como energia (hidroeletricidade e  energias renováveis), ciência e tecnologia, capacitação industrial, temas sociais, educação, esportes e cultura.

Conforme dados do Ministério da Economia, o Irã é o 23º destino da  exportações brasileiras, comprando uma pequena parcela (1%) dos US$ 224 bilhões comercializados pelo Brasil com o resto do mundo em 2019.

Contudo, segundo o Ministério das Relações Exteriores, o Irã é o maior mercado para o milho brasileiro e o quinto maior destino da carne bovina e da soja exportadas pelo Brasil.

Em 2019, os iranianos importaram diretamente US$ 2,1 bilhões de produtos agrícolas brasileiros: milho (44%), soja (39%), carne bovina (10%) e açúcar (7%).

Os dados oficiais não incluem as exportações com destino final no Irã embarcadas para outras nações do Golfo Pérsico ou da Ásia.

Sem o fornecimento do Brasil, os importadores iranianos avaliam que haveria aumento no preço final dos alimentos no mercado já combalido do Irã.

O balanço do comércio exterior entre os dois países está desequilibrado, com importações do Irã somando menos de US$ 100 milhões.

  • Com informações do Ministério das Relações Exteriores,  Jornal de Notícias, Ministério da Economia, e Correio Braziliense

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