"O Ministro das Relações Exteriores do Irã [Hossein Amir Abdollahian] anunciou que o pedido foi apresentado e, a este respeito, o líder chinês [Xi Jinping] convidou o presidente do Irã Ebrahim Raisi a participar [da reunião do BRICS], onde fez um discurso", detalhou Saeed Khatibzadeh.

O fato é que a China sediou um diálogo virtual sobre o desenvolvimento global, paralelo à cúpula de 24 de junho, que foi acompanhada por líderes da Argélia, Argentina, Camboja, Egito, Etiópia, Fiji, Indonésia, Irã, Cazaquistão, Malásia, Senegal, Tailândia e Uzbequistão – todos vistos como potenciais novos membros do bloco. Esta reunião foi descrita por observadores como um evento "BRICS+".

Enquanto participava das reuniões, Raisi expressou a prontidão do país em compartilhar suas vastas capacidades e potenciais para ajudar o bloco a alcançar seus objetivos. Por sua vez, o presidente argentino Alberto Fernandez disse que a Argentina está pronta para se tornar um membro pleno do BRICS.

Antes da cúpula, a Arábia Saudita também manifestou interesse em se juntar ao bloco, segundo relatos.

A Declaração de Pequim, de 75 parágrafos, emitida após a Cúpula do BRICS em 23 de junho, diz que os líderes continuarão a discutir a possibilidade de admitir novos países para o bloco de cinco nações "com base na consulta e consenso completos", prevalecendo a posição oficial indiana, enterrada no parágrafo 73.

"Apoiamos a promoção das discussões entre os membros do BRICS sobre o processo de expansão do BRICS. Ressaltamos a necessidade de esclarecer os princípios, normas, critérios e procedimentos norteadores desse processo de expansão através do canal de Sherpas com base na consulta e consenso completos", diz a declaração.

Na segunda-feira, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, confirmou que "Argentina e Irã solicitaram a adesão ao BRICS, uma associação do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul".

"Enquanto a Casa Branca estava pensando no que desconectar, banir ou estragar no mundo, Argentina e Irã pediram para se juntar ao BRICS", ironizou a diplomata russa em rede social.

Nesta terça-feira (28), o ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, disse que Argentina e Irã estão no caminho para se tornarem membros.

Lavrov disse em uma entrevista coletiva na capital do Turquemenistão, Ashgabat, que o processo preliminar para a inclusão da Argentina está em andamento e que a decisão final "será tomada por consenso".

Repercussão

"Os países do BRICS têm desempenhado um papel vital na prática do verdadeiro multilateralismo e na promoção da unidade e da força entre os países em desenvolvimento. O Irã está pronto para oferecer todos os seus recursos e vantagens, incluindo reservas energéticas, recursos humanos e conquistas científicas, para ajudar os países do BRICS a alcançar seus objetivos", afirma a Embaixada do Irã na China, em comunicado divulgado nesta terça-feira.

"O Irã é um parceiro sustentável e confiável dos países do BRICS", enfatiza a nota.

Ao responder às candidaturas do Irã e da Argentina ao BRICS, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Zhao Lijian, disse em uma coletiva de imprensa nesta terça-feira que, desde a sua criação, o destino das nações do BRICS e dos novos países emergentes e em desenvolvimento tem sido entrelaçado, e que muitos países, incluindo Irã e Argentina, manifestaram seu interesse em se juntar ao bloco.

Os cinco países do BRICS representam 40% da população mundial, 31,5% do PIB global e 18% do comércio mundial. A aliança responde por 26% da produção global de petróleo e se destaca na produção de minério de ferro (50%), trigo (46%) e milho (40%). Além disso, dos 31 reatores nucleares que iniciaram a construção desde 2017, todos menos 4 são projetos russos ou chineses.

As economias avançadas perderam sua liderança de mercado em energia nuclear. © International Energy Agency
As economias avançadas perderam sua liderança de mercado em energia nuclear. © International Energy Agency

A China, na presidência do BRICS este ano, apoia ativamente a expansão do bloco.

"Os países do BRICS concordaram que é importante intensificar a cooperação com outros mercados emergentes e países em desenvolvimento para melhorar a representatividade do mecanismo dos BRICS e torná-lo ouvido em voz alta sobre as principais questões internacionais para que possamos melhorar os desafios e defender os interesses dos mercados emergentes e dos países em desenvolvimento", disse Zhao. "A China trabalhará com os parceiros do BRICS para avançar com o processo de expansão de forma constante para que parceiros semelhantes possam se juntar à família BRICS".

Feng Xingke, Secretário-Geral do Fórum Financeiro Mundial e diretor do Centro para BRICS e Governança Global, observou que a entrada do Irã no bloco significará canais mais próximos e eficazes entre recursos e mercados, o que beneficiará todos os membros. A Argentina, como representante de novas economias emergentes, também ajudará a promover a cooperação entre o BRICS e outros países regionais da América Latina.

O embaixador argentino na China, Sabino Vaca Narvaja, disse ao Global Times em uma entrevista anterior que a Argentina espera se tornar um membro do BRICS o mais rápido possível. Ele observou que o sistema de cooperação do BRICS tem um significado profundo para a construção de uma ordem global mais equilibrada, onde a cooperação será incondicional e mutuamente benéfica. Se a Argentina aderir ao BRICS, esse movimento também seria condutivo para o desenvolvimento das relações China-América Latina, disse.

O Paquistão parabenizou na segunda-feira a China por sua bem-sucedida realização das reuniões do BRICS, apreciando o papel do país na promoção dos interesses dos países em desenvolvimento, incluindo o Paquistão.

Sendo o país-sede, a China se envolveu com o Paquistão antes das reuniões do BRICS, onde as decisões são tomadas após consultas com todos os membros, disse o comunicado do Ministério das Relações Exteriores.

"Esperamos que o futuro engajamento da organização seja baseado nos princípios da inclusividade, mantendo em vista os interesses globais do mundo em desenvolvimento e de uma maneira desprovida de considerações geopolíticas estreitas", diz o comunicado do Paquistão.

Como o BRICS não é um tratado, qualquer pedido de adesão precisa ser discutido entre os cinco membros fundadores. Se os candidatos serão listados em primeiro lugar como observadores ou terão que se submeter a outros protocolos para obter o status de membro será decidido pelos membros, explicou Feng.

A expansão dos BRICS foi um tema acalorado durante a 14ª Cúpula dos BRICS, na semana passada. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Wang Wenbin, disse em uma coletiva de imprensa em 24 de junho que, como país presidente do BRICS, a China apoia ativamente os BRICS no início do processo de expansão da adesão e na expansão da cooperação BRICS+. Além disso, a China incentivará todas as partes do BRICS a formular padrões e procedimentos para a expansão da adesão com base no consenso.

Embora o BRICS não tenha adicionado novos membros nos últimos anos, o BRICS+, que foi promovido pela primeira vez em 2017, ofereceu um sistema eficaz e bem-sucedido para ligar novas economias emergentes, países do BRICS e países em desenvolvimento e construir um consenso sobre como lidar com desafios para o desenvolvimento global e como alcançar o desenvolvimento sustentável,  Wang Lei, diretor do Centro de Estudos de Cooperação do BRICS na Universidade Normal de Pequim, disse ao Global Times.

Wang explicou que, em anos anteriores, diferentes representantes de países em desenvolvimento e novas economias emergentes foram convidados a participar das reuniões. Por exemplo, em 2017, Egito, México, República da Guiné, Tajiquistão e Tailândia foram convidados a participar da reunião do BRICS realizada em Xiamen, capital da província de Fujian, no leste da China, marcando que a cooperação BRICS+ superou as limitações regionais.

Feng destacou que a expansão da cooperação BRICS+ globalmente também preparou o BRICS para incluir mais membros. Além disso, o New Development Bank (NDB), uma instituição financeira multilateral criada em 2015 pelos países do bloco, incluiu Bangladesh, Emirados Árabes Unidos, Uruguai e Egito em 2021.

O bloco BRICS também representa uma postura semelhante à de outros países em desenvolvimento e novas economias emergentes, opondo-se a confrontos ideológicos e uma nova guerra fria, disse Feng, observando que as economias emergentes prestam mais atenção em questões como crise alimentar, segurança, recuperação econômica pós-pandemia e estabilidade financeira global.

"Em comparação com grupos liderados pelos EUA, como o G7 e a OTAN, que não trazem soluções para os desafios severos que o mundo enfrenta, ao mesmo tempo em que tentam fomentar a discórdia global, analistas observaram que o BRICS se mantém mais alto e vê mais, representando o futuro do mundo, um futuro caracterizado por economias mais emergentes com o objetivo de promover o progresso global através do desenvolvimento", opina o Global Times.

Índia cautelosa na expansão do BRICS

"A Índia está procedendo com cautela na questão crucial da expansão do BRICS, pois não quer que novas adesões desviem o bloco de 16 anos para qualquer centro de poder específico", relata o Hindustan Times.

"O debate sobre a ampliação do BRICS – criado como BRIC em setembro de 2006 e expandido com a inclusão da África do Sul em 2010 – ganhou ritmo antes da última cúpula virtual do grupo, na quinta-feira (23) e sexta, em grande parte por causa dos apelos de autoridades chinesas para a inclusão de novos membros", avalia o jornal indiano.

Não houve resposta imediata das autoridades indianas sobre os relatos de que a Argentina e o Irã solicitaram a adesão ao BRICS.

"Entende-se que o lado indiano é cauteloso com a inclusão de novos membros que poderiam gravitar em direção a um centro de poder e tornar o bloco mais centrado na China. Há também preocupações sobre possíveis movimentos para incluir países como o Paquistão em nome de trazer economias emergentes", aponta o Hindustan Times.

Atualização 14/07/2022

A presidente do Fórum Internacional dos BRICS Purnima Anand confirmou ao jornal russo Izvestia que Arábia Saudita, Egito e Turquia planejam se juntar aos BRICS, observando que uma possível decisão sobre alguns países poderão ser tomadas na próxima cúpula da associação, que será realizada em 2023.

A Turquia já havia manifestado interesse para se juntar ao BRICS em 2018, quando o presidente Recep Tayyip Erdogan anunciou essa intenção à imprensa após reunião de cúpula em Johannesburg. No entanto, naquela época os cinco países do BRICS acreditavam que o formato BRICS+ (integração da organização com associações regionais) seria um melhor caminho para o desenvolvimento da organização.

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