A UNCTAD  (United Nations Conference on Trade and Development), em seu relatório Global Investment Trend Monitor, informa que o investimento estrangeiro direto global somou US$ 1,39 trilhão em 2019, uma queda de 1% em relação a US$ 1,41 trilhão revisado em 2018.

O The Wall Street Journal atribui essa redução a uma diminuição da globalização, tema principal da apresentação anual Year Ahead Outlook, do Bank of America Merrill Lynch, onde estrategistas e economistas da segunda maior instituição financeira dos EUA discutiram a mudança da globalização para a localização.

A matéria do WSJ segue o entendimento do Bank of America: "Muitos economistas dizem que a globalização deu um triplo impulso ao crescimento econômico global: localizar a produção onde o trabalho é mais barato; sobrecarregar a concorrência; e disseminar novas tecnologias e know-how em todo o mundo. Mas os críticos da globalização dizem que os benefícios do processo não foram compartilhados de maneira igual, com trabalhadores pouco qualificados nas economias desenvolvidas vendo a estagnação de seus rendimentos".

"A globalização parece estar desacelerando à medida que o investimento direto estrangeiro cai para o nível mais baixo em quase uma década", diz o WSJ. "A disputa comercial EUA-China e as ameaças de tarifas globais adicionais colocaram em dúvida a confiabilidade das cadeias de suprimentos globais".

Não é exatamente uma novidade para os empresários brasileiros e argentinos que tiveram suas estruturas de produção desestabilizadas por crises econômicas.

O pesquisador Lívio Ribeiro, da Fundação Getúlio Vargas (FGV),  em setembro de 2019 explicou ao El País que as implicações reais da atual crise argentina decorre do encadeamento existente entre a produção industrial brasileira e a argentina. "O Brasil não é um país muito aberto, mas por causa do Mercosul, a participação da Argentina nos fluxos de bens industriais é relevante. Muitas cadeias de valor existem regionalmente, insumos são produzidos de um lado da fronteira e bens finais do outro, acontece dos dois lados".

Principais destinos do IED

Investimento Estrangeiro Direto (IED) 2019. Fonte: UNCTAD
Investimento Estrangeiro Direto (IED) 2019. Fonte: UNCTAD
  • Os fluxos de IED para os países desenvolvidos permaneceram em um nível historicamente baixo, caindo mais 6,0%, para US$ 643 bilhões
  • O IED para a União Europeia (UE) caiu 15%, para US$ 305 bilhões, enquanto os fluxos para os Estados Unidos permaneceram estáveis em US$ 251 bilhões
  • Os fluxos de IDE para as economias em desenvolvimento permaneceram inalterados em US$ 695 bilhões
  • O IED aumentou 16% na América Latina/Caribe e 3,0% na África
  • Os fluxos para a Ásia em desenvolvimento apresentaram declínio de 6% mas continuaram a representar um terço do IED global em 2019. Os fluxos para as economias em transição aumentaram em dois terços, para US$ 57 bilhões
  • O Sul da Ásia registrou um aumento de 10% no IED, para US$ 60 bilhões. O crescimento foi impulsionado pela Índia, com um aumento de 16% nas entradas IED para um valor estimado de US$ 49 bilhões, a maior parte destinado para indústrias de serviços, incluindo tecnologia da informação. Os ingressos para Bangladesh e Paquistão caíram 6% e 20%, respectivamente, para US$ 3,4 bilhões e US$ 1,9 bilhão.

M&A

As fusões e aquisições transnacionais caíram 40% em 2019 para US$ 490 bilhões – o nível mais baixo desde 2014.

A queda nos negócios globais de fusões e aquisições foi mais profunda no setor de serviços (-56%) para US$ 207 bilhões, seguida pela indústria de manufaturados (-19%) para US$ 249 bilhões e pelo setor primário (-14%) para US$ 34 bilhões.

O declínio nos valores de M&A foi impulsionado também por um número menor de meganegócios. Em 2019, apenas 30 negócios superaram US$ 5 bilhões em comparação com 39 em 2018.

"No geral, a tendência atual é mais de redirecionamento de investimento do que de expansão do investimento", disse James Zhan, diretor da UNCTAD, ao WSJ. “As multinacionais não estão expandindo significativamente suas operações globais devido à incerteza regulatória e às tensões comerciais. Elas estão reestruturando suas cadeias de valor global realocando alguns segmentos para aversão ao risco geopolítico.”

* Com dados e informações da UNCTAD, WSJ, The Financial Express (BD), The Economic Times (IN)

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