Os preços das matérias-primas atingiram patamares plurianuais ou recordes.

O óleo de palma, usado em alimentos e bens de consumo, de pizza e chocolate a batom e xampu, subiu para níveis não vistos desde 2008, após uma escassez de mão de obra migrante. Outros óleos vegetais estão subindo de preço por causa da demanda chinesa e do crescimento dos biocombustíveis. Laticínios e grãos foram afetados; na Europa, os preços do leite subiram 50% desde o início do ano.

O prêmio para commodities que podem ser entregues agora versus no futuro é o maior desde pelo menos 2007, sinalizando o quão forte é a demanda mundial por matérias-primas e como os suprimentos são limitados.

Os custos das embalagens também aumentaram – 40% desde o início de 2020 – em meio à intensa demanda, com aumentos acentuados nos custos de papel e celulose, plástico e metais.

“Estamos vendo uma das mais altas taxas de inflação dos preços das commodities que já vimos em uma década”, disse Graeme Pitkethly, diretor financeiro da Unilever, a repórteres esta semana.

Backwardation é quando o preço atual de um ativo subjacente é mais alto do que os preços negociados no mercado futuro. Apenas a escassez física pode sustentar o backwardation e, mais importante, o backwardation está agora em mais da metade de todos os mercados de commodities. Fonte/Arte: Bloomberg, Goldman Sachs Global Investiment Research
Backwardation é quando o preço atual de um ativo subjacente é mais alto do que os preços negociados no mercado futuro. Quando um mercado está em contango, o preço a termo de um contrato futuro é superior ao preço à vista. Apenas a escassez física pode sustentar o backwardation e, mais importante, o backwardation está agora em mais da metade de todos os mercados de commodities. Fonte/Arte: Goldman Sachs Global Investiment Research, Bloomberg

Pitkethly disse esperar que o crescimento dos custos de insumos da Unilever se acelerem no segundo semestre mas a empresa irá procurar conter os aumentos de preço.

“Operamos em mercados muito competitivos”, explicou o executivo da Unilever, “e, portanto, o preço torna-se nossa ferramenta de último recurso, não nossa ferramenta de primeiro recurso”.

Mark Schneider, presidente-executivo da Nestlé, disse na semana passada: “Este é um ambiente muito volátil agora, visibilidade muito baixa, muitas surpresas acontecendo. Tomaremos medidas de precificação”.

François-Xavier Roger, diretor financeiro da Nestlé, disse que o grupo buscará “ganhos de produtividade, eficiência industrial e mix de produtos e inovação” mas “a principal forma de lidar com a inflação de custos de insumos é por meio de aumentos de preços”.

“Globalmente, nossa estratégia é compensar o que recebemos com a precificação”, disse Roger.

Embora Nestlé, Unilever, Reckitt Benckiser e rivais tenham reajustado seus preços no primeiro trimestre, a maior parte dos aumentos de custo ainda não teria sido transferida para as cestas de compras dos consumidores.

Conforme os contratos de hedge expiram e as marcas negociam com os varejistas, isso mudará, disse Will Hayllar, da consultoria de estratégia OC&C.

“Geralmente, a experiência quando a rápida inflação de preços atinge a indústria de bens de consumo é que há alguma compressão nas margens por um ano ou mais, e então a maioria é repassada ao consumidor”, disse Hayllar.

Bruno Monteyne, analista da Bernstein, disse que marcas poderosas em segmentos premium ou em crescimento ficarão rapidamente mais caras, enquanto marcas fracas em categorias altamente comoditizadas e concorrendo com marcas próprias acharão difícil repassar a inflação de custos.

"Aumentar os preços primeiro significa ser punido de forma desproporcional”, disse Monteyne.

Ele disse que os portfólios "mais fracos" incluem o negócio de água engarrafada e produtos lácteos da Danone, e o portfólio de alimentos da Unilever, que pode ser vulnerável a perder participação no mercado se os preços aumentarem muito rapidamente.

Para Richard Cook, da NielsenIQ, os produtores de “categorias essenciais” como trigo, ovos, queijo, pão e itens de primeiros socorros podem facilmente aumentar os preços, assim como de produtos que atendam necessidades específicas.

Bebidas alcoólicas e produtos “indulgentes”, como chocolate e salgadinhos, parecem vulneráveis, disse Cook.

“O aumento dos preços muito provavelmente levará à diminuição da demanda”.

Esses produtos podem optar pelo “shrinkflation”, reduzindo as porções porém mantendo os preços, disse Hayllar, ou por alterar as promoções em vez de ajustar os preços.

O impacto desigual da pandemia afetará a forma como as famílias respondem, disse Hayllar. “A última onda real de inflação de commodities foi em 2012, e isso aumentou a sensibilidade ao preço no mercado”, disse. “[Mas] desta vez, há um segmento de consumidores para os quais existe um poder de compra reprimido”.

* Com informações do Financial Times

Veja também: