Atualização 08/04: O governo indiano recuou da proibição de exportação de hidroxicloroquina, permitindo a retomada de remessas do medicamento para os EUA e outros países após breve desentendimento com Washington. O Presidente dos EUA, Donald Trump, criticou a restrição a exportação, ameaçando "retaliação", mas agradeceu a Modi depois que a proibição foi revogada.

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Em março, o órgão regulador indiano restringiu as remessas para o exterior da droga, permitindo apenas exceções limitadas, como por motivos humanitários e para cumprir compromissos anteriores.

Em uma entrevista coletiva no sábado (4), Trump disse que conversou com o Primeiro-Ministro Narendra Modi e apelou pela liberação das remessas que os EUA já encomendaram.

Bolsonaro também pediu ao primeiro-ministro indiano para que as entregas sejam mantidas.

"Neste sábado, em contato com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, solicitei apoio na continuidade do fornecimento de insumos farmacêuticos para a produção da hidroxicloroquina. Brasil e Índia continuarão grandes parceiros pós-crise do coronavírus, e não mediremos esforços na luta para salvar vidas".

Mais cedo, Jair Bolsonaro foi à Internet dizer que havia zerado impostos para hidroxicloroquina e azitromicina, e que, "nos próximos dias", faria o mesmo com o zinco e a vitamina D. "Todos usados no tratamento de pacientes portadores da Covid-19".

A esperança de cura iminente ajuda a tirar de foco a desastrosa atuação do Governo Bolsonaro face a pandemia.

Não há evidências científicas de que a hidroxicloroquina (HCQ) possa tratar a infecção causada pelo coronavírus SARS-CoV-2.

Contudo, a cloroquina e a hidroxicloroquina atraíram mais atenção – e certamente mais apoio presidencial – do que qualquer outro medicamento durante a busca global de encontrar uma terapia eficaz para o coronavírus.

Embora a FDA tenha concedido uma aprovação de emergência para o tratamento da Covid-19, os reguladores europeus autorizaram o uso em infecções do novo coronavírus apenas em estudos científicos.

A decisão da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) visa garantir o suprimento de pacientes que precisam da hidroxicloroquina e formulações para tratar malária e doenças auto-imunes, em momento que dados limitados – alguns questionáveis e outros trapaceados – chegam sobre essas drogas e seu potencial como terapias para a sindrome respiratória.

O ponto principal é que as evidências da eficácia da cloroquina no Covid-19 são infundadas. O interesse deriva fortemente do trabalho de um controverso especialista francês em doenças infecciosas, Didier Raoult, cujos estudos sobre o tema foram criticados como inconclusivos, mas que tem promovido entusiasticamente a cloroquina como a coisa mais próxima de uma droga milagrosa.

Além disso, a corrida por cloroquina foi estimulada por figuras que possuem uma grande plataforma pública, incluindo Donald Trump e o Dr. Mehmet Oz.

O Dr. Oz, cirurgião cardíaco cujo programa de televisão exibe conselhos de saúde duvidosos, entrevistou Raoult em 23 de março e discutiu a cloroquina em um programa da Fox News campeão de audiência da TV a cabo americana.

Oz disse no programa de Sean Hannity que Didier Raoult "demonstrou que poderia se livrar do vírus em seis dias em 100% dos pacientes que tratou".

A alegação do Dr. Oz não é sequer remotamente verdadeira, como o próprio artigo publicado de Raoult revela.

Raoult 'curou' 100% dos doentes que não morreram, pioraram, adoeceram, ou abandonaram o estudo clínico, disse o Los Angeles Times.
Didier Raoult, infectologista francês cujos resultados de tratamento com cloroquina do COVID-19 chegou à Casa Branca. Reprodução © Les-Crises.fr
Didier Raoult, infectologista francês cujos resultados de tratamento com cloroquina do COVID-19 chegou à Casa Branca. Reprodução © Les-Crises.fr

O festejado experimento consistiu de 42 pacientes internados com teste positivo de coronavírus SARS-CoV-2, com 26 pacientes recebendo hidroxicloroquina durante seis dias e 16 doentes integrando o grupo de controle.

Durante o tratamento, seis doentes que estavam recebendo hidroxicloroquina deixaram de participar do estudo: um paciente morreu, três tiveram o estado agravado e foram transferidos para a UTI, um não tolerou a droga, e um deixou o hospital.

Esses seis pacientes foram excluídos dos resultados.

Os 20 pacientes que continuaram recebendo hidroxicloroquina tinham infecções leves o suficiente para serem tratadas em casa. A droga foi usada para tratar:

  • 2 doentes assintomáticos;
  • 12 doentes com sintomas de infecção do trato respiratório superior (cavidade nasal, faringe, laringe e parte superior da traqueia);
  • 6 doentes com sintomas de infecção do trato respiratório inferior.

O estudo conclui dizendo que "apesar de seu pequeno tamanho amostral, nossa pesquisa mostra que o tratamento com hidroxicloroquina está significativamente associado à redução/desaparecimento da carga viral em pacientes com Covid-19".

Raoult, que possui fortes conexões no mundo político francês, publicou então um artigo descrevendo um novo estudo com 80 pacientes, todos com infecções muito leves – apenas 12 estavam com febre e quatro não apresentavam sintomas.

Pacientes com infecções leves por Covid-19 se recuperam sem intervenção médica.

Um segundo grupo francês, liderado por Jean-Michel Molina, aplicou o mesmo tratamento no Hôpital Saint-Louis em Paris, França, com resultados diferentes.

Após cinco a seis dias de tratamento com hidroxicloroquina, oito dos 10 doentes permaneciam com Covid-19 (dois foram transferidos para a UTI), um paciente morreu e um teve complicações graves. O estudo foi publicado online no dia 30 de março de 2020.

* Com informações do Fierce Pharma, Bloomberg, Los Angeles Times, O Globo

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