Os preços do petróleo subiram em 1973 e 1979, quando a Guerra do Yom Kippur e a Revolução Iraniana interromperam as exportações de petróleo do Oriente Médio.

Os eventos geopolíticos voltaram ao mercado em 2022.

A crise de energia começou de fato no outono [do hemisfério norte] do ano passado, mas piorou muito com a intervenção militar russa na Ucrânia.  

Os mercados temem que as sanções cada vez mais restritivas impostas a Moscou por governos ocidentais levem a uma interrupção do fornecimento de energia pela Rússia.

Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, Fatih Birol, Diretor-Executivo da Agência Internacional de Energia (IEA), sediada em Paris, lembrou que antes das sanções a Rússia era um grande player no mercado global de energia – as empresas russas estavam entre as maiores exportadoras do mundo de gás natural, petróleo, derivados de petróleo e carvão.

Baixos estoques

Os fluxos menores de petróleo e a capacidade global reduzida das refinarias estão levando a baixos estoques de produtos em toda a América do Norte, Europa e Ásia.

Cerca de 1 milhão de barris por dia (bpd) de capacidade de refinaria nos EUA foram perdidos desde o início da pandemia, resultado das empresas terem decidido fechar instalações permanentemente ou converter algumas delas em locais de produção de biocombustíveis.

Globalmente, a capacidade das refinarias também encolheu, especialmente depois que empresas ocidentais deixaram de comprar da Rússia Vacuum Gas Oil (VGO), uma maneira econômica de gerar gasolina, diesel, propano e combustível de jato.

Neste momento, os preços do petróleo, derivados de petróleo, gás e eletricidade estão subindo em ambos os lados do Atlântico, provocando uma crise de custo de vida.

Verão no hemisfério norte

Com a chegada do verão no hemisfério norte, a estação do ano de maior uso de veículos e viagens na Europa e nos Estados Unidos, a demanda de combustíveis ficará ainda mais aquecida, o que pode levar ao desabastecimento mundial em um ambiente de crise de energia.

"Quando a temporada de férias começar na Europa e nos EUA, a demanda de combustíveis aumentará. Então poderemos observar gargalos, por exemplo, no diesel, gasolina e querosene, particularmente na Europa", disse Birol.

A União Europeia (UE) é dependente não apenas da importação de gás e petróleo mas também de derivados.

Na segunda-feira (30), o bloco concordou em proibir 92% das importações de petróleo russo até o final do ano, isentando do embargo apenas as entregas por oleoduto, por enquanto.

Fatih Birol apontou que vários exportadores, incluindo a China, impuseram restrições a embarques para proteger os consumidores domésticos.

Ele também alertou que os países da Europa mais dependentes do gás russo enfrentarão um "inverno difícil", pois "o gás pode muito bem ter que ser racionado", inclusive na Alemanha.

Surpresas de alívio

O chefe da IEA concede que poderá haver "surpresas de alívio".

A situação poderá melhorar se a economia chinesa continuar a enfraquecer, pois reduziria a demanda de petróleo. Poderá também haver um aumento na oferta se um acordo for alcançado com o Irã sobre o programa nuclear do país, ou se alguns países do Oriente Médio, como a Arábia Saudita, aumentarem sua produção.

No entanto, "cada caso seria uma surpresa, eles não devem ser contados", ressaltou Birol.

Como alternativa, Fatih Birol defendeu as propostas para reduzir o consumo que a organização apresentou em março. Voltadas para economias avançadas, as medidas incluem domingos sem carro nas grandes cidades, redução do preço das passagens do transporte público e restrições rigorosas na velocidade nas rodovias.

Brasil

No Brasil, a preocupação do mercado está voltada para o óleo diesel.

O País importa atualmente em torno de 25% de suas necessidades de diesel, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Cerca de 80% das importações brasileiras de diesel são de refinarias americanas, que estariam redirecionando expressivo volume do combustível para a Europa.

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) afirma que há risco de desabastecimento de diesel no 2º semestre devido à escassez de oferta no mercado internacional.

Na avaliação da federação, o consumo de diesel no Brasil tende a crescer a partir de junho/julho, "com o aumento da safra agrícola, a maior circulação de caminhões e a esperada retomada do consumo no período pós pandemia".

Em nota oficial, o Ministério de Minas Energia (MME) estimou que se as importações de diesel fossem interrompidas, "os estoques, em conjunto com a produção nacional, seriam suficientes para suprir o País por 38 dias".

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