Segundo um estudo da Universidade de Hong Kong (HKU), uma combinação de restrições foi suficiente para desacelerar a propagação da Covid-19 sem manter as pessoas em casa ou fechar o comércio.

Se a tendência de queda de infecções continuar, Hong Kong poderá considerar a possibilidade de reduzir as restrições, mas o distanciamento social deverá ser mantido pelo menos até meados do próximo ano.

Os pesquisadores da HKU descobriram que o distanciamento social e outras medidas, juntamente com a resposta dos cidadãos, que seguiram conselhos para usar máscaras e evitar lugares lotados, ajudaram a manter o vírus sob controle. Os resultados do estudo foram publicados no The Lancet Public Health.

O estudo mostra que intervenções não farmacêuticas, incluindo restrições nas fronteiras, quarentena e isolamento de casos e contatos, distanciamento e mudanças no comportamento da população, foram associadas à transmissão reduzida da COVID-19 em Hong Kong e também provavelmente reduziram substancialmente a transmissão de influenza.

Para conter a disseminação do coronavírus, Hong Kong implementou restrições nas fronteiras, fechou as escolas e incentivou empregadores a permitirem o trabalho remoto. As instalações esportivas e de lazer foram fechadas e os restaurantes foram orientados a limitar o atendimento em 50% da capacidade.

O professor assistente da HKU, Dr. Wu Peng, co-autor do estudo, disse que a experiência de 2003 do surto da síndrome respiratória aguda grave (SARS) ajudou a preparar Hong Kong para combater a epidemia de Covid-19.

"Testes e capacidade hospitalar aprimorados para lidar com novos patógenos respiratórios, e uma população consciente da necessidade de melhorar a higiene pessoal e manter o distanciamento físico, coloca-nos em boa posição", disse Wu.

Nas 10 semanas (correspondente a cerca de dez tempos de geração) desde que o primeiro indivíduo conhecido com COVID-19 em Hong Kong começou a apresentar sintomas, houve pouca transmissão local sustentada da doença.

"Hong Kong demonstrou que a transmissão da Covid-19 pode ser efetivamente contida sem recorrer ao bloqueio completo altamente disruptivo adotado pela China continental, Estados Unidos e países da Europa Ocidental", disse Benjamin Cowling, professor de Epidemiologia e Bioestatística da Escola de Saúde Pública da HKU e um dos autores do estudo.

“Outros governos podem aprender com o sucesso de Hong Kong. Se essas medidas e respostas da população puderem ser sustentadas, evitando a fadiga entre a população em geral, elas poderão diminuir substancialmente o impacto de uma epidemia local de Covid-19”, disse Cowling.

O estudo não conseguiu identificar qual medida é potencialmente a mais eficaz e se as restrições nas fronteiras, quarentena e isolamento, distanciamento social ou mudanças comportamentais são de fato as mais importantes na supressão da transmissão do COVID-19. "É provável que cada uma faça sua parte".

Embora tenha sido observado os principais efeitos das medidas de controle e mudanças comportamentais na transmissão do vírus influenza, os efeitos podem ter magnitude diferente para o coronavírus SARS-CoV-2, devido a diferenças na dinâmica da transmissão.

"Embora a dinâmica e os modos de transmissão da COVID-19 não tenham sido elucidados com precisão, é provável que eles compartilhem pelo menos algumas características com a transmissão do vírus influenza, porque ambos os vírus são patógenos respiratórios diretamente transmissíveis com dinâmica de espalhamento viral semelhante", diz o estudo.

Distanciamento social

Os achados da pesquisa sugerem fortemente que o distanciamento social e as mudanças comportamentais da população, com impacto social e econômico menos perturbador do que o bloqueio total, podem controlar a COVID-19.

Sem o fortalecimento das medidas de distanciamento social, é provável que as infecções locais continuem ocorrendo, uma vez que o número de reprodução efetivo é aproximadamente 1 ou um pouco maior que 1, diz o estudo.

"Além da identificação de casos com isolamento, rastreamento de contatos e quarentena, o distanciamento social provavelmente também desempenhou um papel importante na supressão da transmissão. Descobrimos que as medidas de controle e as mudanças no comportamento da população coincidiram com uma redução substancial na transmissão da gripe no início de fevereiro de 2020. Essa observação sugere que as mesmas medidas também afetariam a transmissão do COVID-19 na comunidade, porque haverá algumas semelhanças: bem como algumas diferenças – nos modos de transmissão da gripe e COVID-19", destaca o artigo.

Fechamento de escolas

A redução estimada de 44% na transmissão da influenza na comunidade em fevereiro de 2020 foi muito maior do que a redução estimada de 10 a 15% na transmissão associada apenas ao fechamento de escolas durante a pandemia de 2009, e a redução de 16% na transmissão da gripe B associada ao fechamento de escolas durante o inverno de 2017-18 em Hong Kong.

"Estimamos que as outras medidas de distanciamento social e comportamentos de prevenção tenham tido um efeito substancial na transmissão da influenza, além do efeito do fechamento de escolas", diz o estudo.

"Embora o fechamento de escolas possa ter efeitos consideráveis na transmissão da influenza, seu papel na redução da transmissão do COVID-19 dependeria da suscetibilidade das crianças à infecção e de sua infecciosidade se contagiadas. Atualmente, esses dois fatores são importantes questões não respondidas".

Cansaço com as medidas

O estudo revela que, em uma pesquisa recente da HKU, 85% dos entrevistados relataram evitar lugares lotados e 99% relataram usar máscaras ao sair de casa.

Durante o surto de SARS, em 2003, o uso de máscara facial foi de 80%, enquanto em 2009, durante a pandemia de influenza A (H1N1), não chegou a 10%.

Para os pesquisadores, essas mudanças de comportamento indicam o nível de preocupação da população com essa infecção específica e a extensão do distanciamento social voluntário.

No entanto, em uma terceira pesquisa, em março, foram identificadas evidências de reduções nos comportamentos de distanciamento social voluntário, sugerindo alguma fadiga da população com as medidas.

Diminuição de restrições

O professor David Hui Shu-cheong, especialista em medicina respiratória da Universidade Chinesa, disse que algumas medidas, como manter uma certa distância entre as mesas nos restaurantes e usar máscaras no transporte público e em lugares lotados, precisam estar em vigor até meados do próximo ano.

"Sem uma vacina, ainda haverá riscos de ver casos da comunidade", disse.

Hui disse que Hong Kong pode começar a diminuir gradualmente suas restrições uma vez que a cidade não tenha casos transmitidos localmente por dois períodos de incubação, o que significa 28 dias.

"As instalações recreativas ao ar livre, como playgrounds e campos de futebol, podem ser abertas primeiro, pois seus riscos são relativamente menores", disse Hui. Mas lugares como bares e salões de karaokê, onde provavelmente multidões se reunirão em ambientes fechados, devem ser abertos mais tarde.

Dr. Leung Chi-chiu, presidente do comitê consultivo da Associação Médica sobre doenças transmissíveis, disse que Hong Kong precisa de mais uma semana antes de poder avaliar se pode começar a diminuir as restrições. Mas alertou que a cidade terá que permanecer vigilante e se proteger contra possíveis infecções do exterior, pois a pandemia ainda não está sob controle na maioria dos países.

Um estudo da Universidade de Harvard prevê que as medidas de distanciamento social podem ter que ser estendidas até 2022 para conter a pandemia.

* Com informações do South China Morning Post e do artigo "Impact assessment of non-pharmaceutical interventions against coronavirus disease 2019 and influenza in Hong Kong: an observational study"

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