Em um discurso em 31 de julho de 2021, comemorando o 22º aniversário de sua ascensão ao trono de Marrocos, o Rei Mohammed VI disse que seu país e a Argélia eram "irmãos" e a "segurança e estabilidade da Argélia e a tranquilidade de seu povo são inseparáveis da segurança e estabilidade do Marrocos".

Em agosto, o Ministro das Relações Exteriores da Argélia, Ramdane Lamamra, anunciou que o país estava cortando todos os laços diplomáticos com o Marrocos.

"O reino marroquino nunca parou suas ações hostis contra a Argélia", afirmou em uma coletiva de imprensa na época.

As tensões voltaram a aumentar em 31 de outubro, quando expirou o contrato de fornecimento de gás da Argélia através do Gazoduc Maghreb Europe (GME).

A Argélia argumentou que o gás trans-Marrocos entregue à Espanha poderia ser substituído por volumes extras através do gasoduto Medgaz e com gás natural liquefeito (LNG). No dia seguinte, ataques de drones, atribuídos ao Marrocos, atingiram caminhões argelinos próximos da fronteira da Mauritânia com a disputada região do Saara Ocidental.

Como ocorreu durante a Guerra Fria, Rabat está alinhado com o Ocidente, enquanto Argel mantém uma relação amigável com Moscou.
Como ocorreu durante a Guerra Fria, Rabat está alinhado com o Ocidente, enquanto Argel mantém uma relação amigável com Moscou.

O conflito entre Marrocos e Argélia envolve também a França, Israel, Estados Unidos, Espanha, Emirados e a Frente Polisario – uma organização político-militar com sede na Argélia e composta em grande parte por sahrawis, os habitantes nômades nativos do Saara Ocidental.

Zine Labidine Ghebouli, cujas pesquisas abrangem as dinâmicas políticas e de segurança da Argélia, disse ao RT que a ‘Guerra Fria do Norte da África’ “já estourou” e se manifestará de três maneiras principais: a batalha pela supremacia regional; uma guerra de propaganda; e a perseguição de vozes dissidentes.

"Primeiro você vai tê-los [Argélia e Marrocos] buscando a supremacia regional, através da corrida armamentista que temos visto há quase uma década, mas também através da corrida diplomática. Marrocos obviamente normalizou as relações com Israel, então está expandindo sua influência diplomática. A Argélia, por outro lado, está tentando elaborar esforços diplomáticos e temos visto as visitas do Ministro das Relações Exteriores Ramdane Lamamra ao Golfo e também a muitos países africanos ... então essa é a primeira maneira que fará de Argel ou Rabat como a principal potência regional", avalia Ghebouli.

No segundo ponto da escalada, "você tem a guerra da propaganda", que "temos visto das autoridades oficiais argelinas. Obviamente, existem alguns sites pró-marroquinos que também espalham desinformação sobre a Argélia, mas até agora essa não tem sido a postura das autoridades oficiais marroquinas. Por outro lado, a Argélia mobilizou as plataformas de mídia oficiais e não oficiais para atingir Rabat e questões sociais no Marrocos, questões econômicas, [e] questões políticas e vimos muita propaganda recentemente", observa.

Na terceira forma que a guerra se manifestará, "você tem a acusação judicial de ativistas, jornalistas de origem argelina que podem ser percebidos por Argel como ativos para as autoridades marroquinas, vimos com a designação dos movimentos MAK e Rashad [supostos grupos separatistas] como organizações terroristas ... principalmente com o MAK que ele está [sendo acusado de estar] em contato com as autoridades marroquinas para impor uma abordagem de segurança e isso continuará, que qualquer um que esteja em contato com as autoridades marroquinas será designado como um inimigo e será tratado como tal".

Em 20 de fevereiro, milhares de manifestantes foram às ruas da capital marroquina, Rabat, para protestar contra o aumento dos preços dos combustíveis e uma crise econômica que culpam as autoridades.

Da mesma forma, a Argélia testemunhou um forte declínio econômico, que vem acontecendo "desde o verão passado, porque a Argélia proibiu as importações de vários produtos, o que levou a uma escassez de alimentos nos supermercados ... Durante o novo ano, o problema foi exacerbado pela economia da Argélia", diz Ghebouli.

“Do lado argelino as questões socioeconômicas são percebidas como uma conspiração contra a Argélia por algumas potências regionais e isso inclui até o Marrocos implicitamente”, disse Zine Ghebouli, notando que é possível que o declínio econômico “seja percebido como um ataque contra a Argélia”.

“Nesse sentido, quanto mais questões socioeconômicas observarmos na Argélia e também no Marrocos, mais tensa será a situação, porque ambos os governos provavelmente tentarão desviar a atenção dessas queixas socioeconômicas para uma outra, que lhes é considerado como uma questão importante, que são as tensões de segurança. Basicamente, a ideia é que quanto mais nos aprofundarmos nas questões socioeconômicas, mais as tensões aumentarão, diplomática e militarmente”, pondera Ghebouli.

Acordos de Abraham

O RT perguntou ao pesquisador se a assinatura dos Acordos de Abraham, ou o acordo de normalização entre Rabat e Tel Aviv, foi um fator na recente escalada.

“Quando se trata da normalização de Rabat com Tel Aviv, penso que foi a gota d'água que quebrou as costas do camelo quando se trata da percepção argelina, seja popular ou oficial, das autoridades marroquinas. Antes dessa normalização, Argel estava considerando que todas as questões com Marrocos poderiam ser resolvidas na mesa de discussões, ou negociações, porém, agora receio com a normalização que foi a ponta da escalada percebida pelas autoridades argelinas porque consideram que Marrocos está recebendo o apoio de Israel em sua guerra com a Argélia. Nesse sentido, penso que mais normalização levará a mais escalada com a Argélia", disse Ghebouli.

“Argel neste momento não considera Marrocos como um Estado independente, mas uma ferramenta para o que chamam de projeto sionista no Norte de África e Argel sente-se especialmente visado pelo movimento de normalização, e algumas opiniões, seja nas instituições militares na Argélia ou na cena política, eles consideram que não é o país que tem como alvo Israel ou Marrocos, mas que Israel colocou a Argélia na sua lista de alvos e, portanto, seu problema agora não é com Marrocos, seu principal problema é com Israel e sempre esteve com Israel”.

As tensões entre a Argélia e seu ex-ocupante colonialista, a França, também estão se formando.

Apesar do Presidente francês Emmanuel Macron condenar o colonialismo como um “crime contra a humanidade” em 2017, no ano passado Macron questionou a própria legitimidade da Argélia como nação anterior ao colonialismo francês.

Macron também acusou o estabelecimento militar da Argélia de fomentar “ódio à França” e reescrever a história, recusando-se ainda a pedir desculpas pela devastadora ocupação francesa das terras argelinas. Como resultado, a Argélia retirou seu embaixador em Paris. Em outubro, as autoridades argelinas também fecharam seu espaço aéreo para os militares franceses.

Ghebouli observa que “alguns relatos têm aludido que a nova abordagem da comunidade internacional, em relação à Argélia, é a consequência ou dano colateral das tensões com Marrocos e França… atores políticos em colocar mais pressão sobre o governo argelino quando se trata de condições de direitos humanos na Argélia e também quando se trata de reformas socioeconômicas e política externa”.

“Faltou o escrutínio internacional nos últimos anos, especialmente desde o início do movimento de protesto em 2019. Acho que a comunidade internacional não quis intervir, não quis estar lá ou ajudar [os protestos] de qualquer forma, por medo da reação das autoridades argelinas e também por causa do ceticismo pós-colonial e da paranóia da sociedade argelina em geral”, acrescenta.

No entanto, de acordo com Ghebouli, “a comunidade internacional chegou a um consenso ou pelo menos a uma conclusão neste momento, vendo o contexto geopolítico, vendo as tensões emergentes entre os dois países, vendo também a situação no Sahel [Norte da África] e a instabilidade na região. Acho que a comunidade internacional hoje considera que dar sinal verde às autoridades argelinas em tudo e qualquer coisa não serve ao propósito de estabilidade na região”.

Frente Polisario

Para Rabat, uma das principais preocupações com a Argélia é o seu apoio consistente à Frente Polisario, que opera na área do Sahara Ocidental, região controlada em grande parte pelo Marrocos.

Tribos sahrawi da região disputada do Saara Ocidental. O território do deserto possui ricas águas de pesca do Atlântico, fosfato e uma rota para mercados lucrativos na África Ocidental. © Omar-toons CC BY-SA 4.0
Tribos sahrawi da região disputada do Saara Ocidental. O território do deserto possui ricas águas de pesca do Atlântico, fosfato e uma rota para mercados lucrativos na África Ocidental. © Omar-toons CC BY-SA 4.0

A Frente é considerada por Rabat como uma organização terrorista e uma ameaça à segurança. Argel a vê, no entanto, como um movimento de libertação nacional e hospeda seu governo no exílio.

O Sahara Ocidental é visto pela Polisario como um território ocupado pertencente ao povo nativo sahrawi e, pelas autoridades do Reino em Rabat, como parte integrante do Marrocos.

O território foi uma colônia espanhola entre 1884 e 1976. Em 1963, o processo de descolonização do Saara Ocidental começou. No mesmo ano, foi adicionada à lista das Nações Unidas (ONU) de territórios sem governo próprio, mas só em 1975 a Espanha se retirou da região, cedendo o controle ao Marrocos e à Mauritânia.

A reivindicação dessas duas nações sobre a soberania do território em 1975 levou a uma guerra devastadora com a Frente Polisario, que declarou a independência da república e o estabelecimento de um governo exilado.

Em 1979, a Mauritânia fez as pazes com a Frente Polisario e abandonou suas reivindicações territoriais, ao que Marrocos anexou a porção da Mauritânia e reivindicou todo o território.

A guerra da Frente Polisario contra a anexação marroquina terminou com um acordo de cessar-fogo em 1991, que manteve-se durante a maior parte de 30 anos, até 13 de novembro de 2020, quando a Frente declarou o fim do cessar-fogo.

Cerca de um mês depois, Rabat normalizaria os laços com Israel.

A administração Trump tinha garantido, como parte do pacote de normalização israelense, o reconhecimento americano da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental, rompendo com o consenso internacional. Rabat, desde então, intensificou os esforços para que outras potências mundiais, particularmente na União Europeia, seguissem o exemplo.

A Organização das Nações Unidas considera o território disputado.

De acordo com decisões dos tribunais espanhóis, a Espanha continua a deter o poder de administração do Saara Ocidental. Porém, no dia 7 deste mês, Pedro Sanchez, em uma visita histórica ao Marrocos, encerrou uma crise diplomática revertendo décadas de neutralidade sobre o conflito do Saara Ocidental, em movimento condenado pelo parlamento espanhol e que irritou a Argélia.

A mudança "equivale de fato a apoiar o caminho proposto por Marrocos, abandonando a base para uma solução política mutuamente aceitável", disse a moção, aprovada por 168 membros.

A independência da SADR [Sahrawi Arab Democratic Republic] foi reconhecida em vários pontos do tempo por cerca de 80 países, embora, a partir de meados da década de 1990, alguns deles tenham retirado ou suspendido seu reconhecimento.

Sanchez defendeu a medida dizendo que a crise com Marrocos tinha que ser resolvida. Para a Espanha, o principal objetivo é garantir a cooperação de Marrocos na migração irregular – que, segundo observaddores, Rabat tem usado frequentemente para pressionar Madri.

Descrevendo a Espanha como o melhor aliado do Marrocos na União Europeia, Sanchez disse que queria transmitir uma atitude construtiva em relação a Rabat, mas insistiu que a segurança na fronteira era primordial.

Campo de refugiados sahrawi no deserto. Foto: © Virginia Mura/Oxfam
Campo de refugiados sahrawi no deserto. Foto: © Virginia Mura/Oxfam

O RT conversou com o Dr. Sidi Omar, Embaixador da Frente Polisario nas Nações Unidas, sobre o conflito em curso com o governo marroquino.

“Os ativistas de direitos humanos, em particular, são diariamente submetidos a todo tipo de violência e atrocidades indescritíveis sem que o mundo saiba de sua situação. Isso se deve ao apagão da mídia imposto ao Saara Ocidental Ocupado, que permanece cercado pelo muro da vergonha marroquino de 2.700 quilômetros de extensão, que é o segundo maior muro e a maior barreira militar do mundo. As autoridades de ocupação marroquinas também se envolveram em uma política de terra arrasada em grande escala no Saara Ocidental Ocupado. A política, organizada e implementada pelas forças de segurança ocupantes, inclui a destruição de casas e meios de subsistência, vandalismo de propriedades e a matança de gado com o objetivo declarado de remover os sahrawis de suas casas e terras, que são entregues aos colonos marroquinos. No campo de batalha, as forças marroquinas têm usado todos os tipos de armas, incluindo veículos aéreos não tripulados (drones), para matar insensivelmente não apenas civis sahrawis, mas também civis e cidadãos de países vizinhos enquanto em trânsito pelos Territórios Libertados Sahrawi [territórios do Saara Ocidental detido pela Polisario]”, disse Omar.

O embaixador culpou as aspirações expansionistas de Marrocos, quando perguntado sobre a recente deterioração dos laços entre Rabat e Argel, e disse que, desde o conflito entre os dois lados, "Nós [o povo sahrawi] estamos sendo submetidos a uma nova agressão marroquina, que é uma continuação da mesma política expansionista perseguida por Marrocos, cujo objetivo é aniquilar nosso povo e tomar nossa terra".

"Além da ocupação ilegal contínua de partes do Saara Ocidental, o expansionismo e a agressividade de Marrocos mostram até que ponto o regime marroquino deve sua própria sobrevivência à conquista territorial como uma ferramenta para desviar a atenção de sua profunda crise de legitimidade doméstica. O expansionismo do Marrocos é, portanto, a causa principal da tensão duradoura no Norte da África e o principal obstáculo para a conquista de um Magreb unido, próspero e inclusivo que reúne todas as suas nações e povos", afirmou Omar.

O Dr. Omar também expressou frustração com o acordo de normalização entre Israel e Marrocos.

“Como contrapartida do acordo, o Presidente dos EUA, Donald Trump, fez uma proclamação reconhecendo a 'soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental' e a intenção de abrir um consulado americano na cidade sahrawi ocupada de Dakhla. Obviamente, esta proclamação unilateral viola princípios básicos do direito internacional, distancia-se da política tradicional dos EUA em relação ao Sahara Ocidental e quebra uma posição de longa data sobre o direito à autodeterminação do povo sahrawi. Também infringe a soberania e a integridade territorial da SADR [Sahrawi Arab Democratic Republic] e dificulta os esforços da ONU e da Arab Union para alcançar uma solução pacífica para a questão do Sahara Ocidental”.

O Marrocos tem militarizado cada vez mais as cidades do Saara Ocidental, de acordo com Mahmoud Lemaadel, um ativista com sede na maior cidade, Laayoune.

"O reconhecimento dos EUA da soberania marroquina sobre meu país mudou diretamente a abordagem marroquina para pior. Eles começaram a parar as pessoas nas ruas sem motivo, cidadãos que não têm nada a ver com ativismo".

Israel

O Marrocos continua estreitando seus laços com Tel Aviv, comprando sistemas israelenses de defesa aérea Barak e fechando acordos de comércio exterior.

O acordo de paz assinado com Israel trouxe benefícios, mas também pressões, principalmente dos Emirados Árabes Unidos e dos Estados Unidos. Em fevereiro de 2020, os Emirados assinaram um investimento de US$ 2 bilhões em instalações na Mauritânia. Acredita-se que esse investimento de Abu Dhabi nas instalações portuárias de seus vizinhos do sul em Nouadhibou, representa uma ameaça para os projetos do Marrocos do Porto de Dakhla e do Mediterrâneo de Tânger. Em março daquele ano, Rabat retirou seu embaixador nos Emirados Árabes Unidos, provocando uma disputa que foi seguida por muitas acusações de táticas de pressão dos Emirados contra o Marrocos, entre elas, de que Abu Dhabi estava apoiando a Frente Polisario.

Por razões publicamente desconhecidas, em outubro de 2020, os Emirados Árabes Unidos decidiram se tornar o primeiro país árabe a abrir um consulado no Saara Ocidental controlado pelo Marrocos. Menos de um mês depois, a Frente Polisario declarou o fim de seu cessar-fogo com Rabat.

* Baseado em Cold war under the scorching sun: How a new conflict is brewing in Africa, de Robert Inlakesh

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