Em Hong Kong, centenas de casos suspeitos foram isolados e seus contatos rastreados. Esse esforço aumentou a carga que a época de gripes já coloca em seus sistemas de saúde. Por sua vez, Cingapura empregou sua força policial para ajudar a rastrear os contatos dos pacientes, e pelo menos 200 policiais foram destacados para fornecer segurança nos centros de quarentena.

Mas especialistas alertam que esses esforços exercem uma enorme pressão sobre os sistemas locais de assistência médica e ainda assim não podem conter a propagação do coronavírus.

Feigl-Ding, de Harvard, disse que até agora a maioria dos casos de COVID-19 (Coronavirus Disease 2019) ainda não foram curados. “Em alguns casos, as pessoas ficam doentes por duas ou três semanas. Quando as pessoas ficam doentes por tanto tempo, isso realmente impacta o sistema de saúde”.

Jennifer Nuzzo, pesquisadora do Johns Hopkins Center for Health Security de Washington, disse que os sistemas locais de saúde podem não ter capacidade de isolar e monitorar todos os casos suspeitos, ressaltando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que 80% dos casos de COVID-19 não eram graves.

Uma mudança de abordagem focada na mitigação, liberaria espaço em hospitais, bem como equipe médica, equipamentos e suprimentos para o tratamento dos casos mais graves.

Mas alguns especialistas dizem que mudar de tática –  o que significaria que aqueles com sintomas mais leves se recuperassem em casa como se estivessem com uma gripe comum –  equivale a desistir da luta e consignar a sociedade à existência de uma cepa leve de Covid-19 a longo prazo.

Leong Hoe Nam, especialista em doenças infecciosas do Hospital Mount Elizabeth Novena, em Cingapura, que trabalhou na linha de frente do surto de Sars no país em 2003, disse que ainda não existem dados suficientes para os governos mudarem para o modo de mitigação.

Leong disse que as autoridades devem manter políticas de contenção ou arriscar uma transmissão mais ampla do vírus. Deixar casos leves para se recuperar em casa significa que uma forma leve do vírus existirá a longo prazo, disse Leong.

"Se seguirmos esse caminho, será como se render", disse Leong. "Devemos tentar manter a luta o maior tempo possível".

O Primeiro-Ministro de Cingapura, Lee Hsien Loong, tinha dito no último fim de semana que, se os casos continuassem a aumentar, o país poderia permitir que os hospitais se concentrassem apenas nos pacientes mais vulneráveis, em vez de arriscar sobrecarregar o sistema de saúde ao hospitalizar todos os pacientes.

Na sexta-feira (14),  Lee disse que Cingapura ainda não está no ponto em que mudaria sua abordagem, mas está observando a situação em evolução.

"Mesmo se fecharmos completamente Cingapura, isso não significa que todos os casos desaparecerão e todos ficarão bem", disse o Primeiro-Ministro. "Você terá visitantes, eles entrarão ... você não pode ter certeza que a doença não continuará a se desenvolver".

O que realmente está em consideração pelos governos é quantas mortes são aceitáveis.

Especialistas em saúde pública argumentam que adotar uma abordagem de mitigação seria uma estratégia viável apenas se as autoridades pudessem ter certeza de que as taxas de mortalidade do COVID-19 são muito baixas. Porém, a doença, aparentemente menos grave que a SARS, que foi fatal em 9% dos casos, é mais mortal que a gripe comum.

Embora menos de 0,1% das pessoas que contraem a gripe comum morram em uma estação típica de gripe, o vírus é tão disseminado que ainda é responsável por centenas de milhares de mortes em todo o mundo a cada ano.

Mas, devido à prevalência de casos leves e à evidência de que pode ser contagioso durante o período de incubação, o COVID-19 se mostrou mais difícil de conter do que o SARS, afirma Hitoshi Oshitani, professor de virologia da Universidade de Tohoku, no Japão.

Oshitani disse ao Channel NewsAsia que a China está mais conectada ao resto do mundo do que em 2003: "Enquanto o SARS se espalhou para mais de 30 países em oito meses, o novo coronavírus se espalhou para mais de 20 países em um mês".

Embora medidas de contenção como quarentena e restrições de viagens possam ter sua eficácia limitada em conter a disseminação do surto, especialistas dizem que ganha-se tempo para os cientistas desenvolverem tratamentos e vacinas.

Robert Redfield, diretor do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), disse ao Stat News: "Não conseguiremos impedir que esse vírus entre no país mas ganhamos tempo prolongando a fase de contenção o máximo que pudermos”.

O ex-chefe do CDC, Thomas Frieden, disse que os governos devem continuar com contenção o máximo que puderem, enquanto se preparam para um cenário em que uma forma mais branda do vírus tenha presença a longo prazo.

"A principal questão agora é: será controlável como o SARS, que até onde sabemos se foi, ou será como a gripe ou o resfriado comum que circula regionalmente indefinidamente", disse Frieden na quarta-feira (12) no Conselho de Relações Exteriores de New York. "Temos que presumir que pode ser interrompido, além de planejar o que podemos fazer para melhor gerenciar e mitigá-lo, se não puder ser completamente interrompido".

* Com dados e informações Channel NewsAsia, South China Morning Post, Stat News

Veja também: