A doação, viabilizada por uma Medida Provisória (MP) autorizando a cessão dos imunizantes em caráter de cooperação humanitária, foi anunciada pelo Ministro da Saúde Marcelo Queiroga e pelo Embaixador Paulino Franco de Carvalho Neto.

Segundo Queiroga, serão doadas 10 milhões de doses, com possibilidade futura de doação adicional de 20 milhões de doses.

Não foram reveladas as validades, fabricantes e quantitativos das vacinas que serão doadas.

“Guiados pelo princípio da solidariedade, favoreceremos operações juntos ao mecanismo Covax, de forma a permitir que as vacinas cheguem aqueles que mais necessitam”, disse o Ministro da Saúde.

Carvalho Neto acrescentou que "graças ao avanço e ao sucesso da campanha nacional de vacinação", o Brasil decidiu apoiar países da América Latina, Caribe e África, "com significativa doação de doses".

Queiroga assegurou que as doações não comprometem a imunização da população brasileira.

“Gostaria de indicar que as doações a serem efetivadas pelo governo brasileiro não comprometerão nossa bem-sucedida estratégia de imunização, incluindo a distribuição de doses de reforços para todos os públicos, para todas as faixas etárias que, eventualmente, forem incluídas em nosso Programa Nacional de Imunizações”.

Cerca de 380 milhões de doses de vacinas covid já foram distribuídas aos Estados e municípios brasileiros e 315 milhões já foram administradas – mais de 80% do público-alvo está completamente vacinado.

O planejamento do Ministério da Saúde para a imunização em 2022 prevê o uso apenas das vacinas gênicas fabricadas pela Fiocruz (vetor viral), sob licença da AstraZeneca/Oxford, e pela Pfizer/BioNTech (mRNA), deixando de ser administradas as vacinas da Sinovac/Butantan (CoronaVac) e da Janssen/J&J.

O Ministério planeja formar um estoque inicial de 354 milhões de doses, destinadas a vacinações de indução em imunocomprometidos e maiores de 60 anos e vacinação de estimulação em pessoas de 18 a 60 anos.

"Acho que estamos muito alinhados com a própria OMS, que preconiza que devemos ampliar o acesso à população que ainda não recebeu a primeira dose. Muitas vezes, há um anseio para que avancemos na dose de reforço, para atingirmos outras faixas etárias, mas o mundo precisa de vacinas para quem não recebeu sequer uma dose", disse Queiroga.

O "alinhamento" do Ministro, que repete a narrativa da plataforma política de Tedros Adhanom Ghebreyesus, candidato à reeleição a diretor-geral da OMS e mentor da Covax, potencialmente custará ao contribuinte brasileiro R$ 2 bilhões.

Tornou-se um truísmo que o vírus da covid não pode ser derrotado até que todos no mundo sejam vacinados. E os truísmos, nesta pandemia, causaram estragos.

Um outro truísmo é que o programa de vacinação deve ser realizado o mais rápido possível, em todos os lugares.

“Não podemos descansar até que todos tenham acesso” à vacina, diz Tedros.

Mas essa meta de saúde pública serve ao mundo?

Colonialismo médico

Em um vídeo exibido durante o anúncio da doação do governo federal, a diretora-geral-adjunta para Acesso a Medicamentos e Produtos Farmacêuticos da OMS, Mariângela Simão, disse que "a meta da OMS era que cada país tivesse alcançado um mínimo de 40% de cobertura vacinal até o fim deste ano. E 98 países certamente não vão alcançar esta meta. Portanto, este é um momento em que a solidariedade entre países é mais importante que nunca", ao apontar o Brasil como "um dos poucos" países de renda média/alta a doar imunizantes ao Mecanismo de Acesso Global a Vacinas contra a Covid-19 (Covax).

"É um caso clássico de colonialismo médico, em que os países ricos obrigam os mais pobres a se submeterem a seus objetivos de saúde pública", escreve Toby Green, Professor de História e Cultura Pré-colonial e Lusófona da África no King’s College, London, no artigo Vaccinating everybody may not help Africa.

Muitas das vacinas serão pagas por empréstimos internacionais que levarão à austeridade e a um pior investimento futuro em saúde pública nos países pobres.

O vírus da covid-19 e a resposta a ele devastaram a Europa e as Américas, mas a situação é muito diferente em outros lugares.

A malária (400.000 mortes por ano), o HIV/AIDS (300.000) e a esquistossomose (200.000) são ameaças muito maiores na África.

Uma análise da Oxfam dos empréstimos do FMI revela que 26 governos, principalmente na África e nas regiões da América Latina e do Caribe, tinham planos para começar ou retomar a austeridade fiscal.

Ainda, as dispendiosas vacinas covid mostram-se pouco ou não efetivas para as variantes atualmente dominantes, como a Delta e a Ômicron, e falham também em manter o nível de anticorpos, requerendo "reforços" apenas 4 meses após a "vacinação completa".

Revacinação

Um estudo de revacinação, encomendado pelo Ministério da Saúde à Universidade de Oxford, para pessoas que anteriormente receberam duas doses da vacina CoronaVac, encontrou as seguintes elevações nos níveis de anticorpos após administração de dose "de reforço":

  • CoronaVac: 7 vezes
  • Janssen: 61 vezes
  • AstraZeneca: 85 vezes
  • Pfizer: 175 vezes

O resultado do experimento reforça o que disse o Primeiro-Ministro da Itália, Mario Draghi: a CoronaVac não é adequada para enfrentar a pandemia.

A declaração foi dada durante uma coletiva de imprensa em Bruxelas em junho, após uma reunião entre os líderes dos 27 Estados-membros da União Europeia.

"Discutimos sobre os vários tipos de vacinas, e a constatação foi que a vacina russa Sputnik ainda não conseguiu e talvez jamais conseguirá a aprovação da EMA [Agência Europeia de Medicamentos], e a vacina chinesa, que nunca fez o pedido e que, em todo caso, a EMA nunca aprovou, mostra que não é adequada, vendo a experiência no Chile, para enfrentar a epidemia", disse Draghi.

No Brasil, a vacina CoronaVac foi autorizada pela Anvisa sem apresentar comprovação de imunogenicidade, uma obrigatoriedade que foi postergada através de termo de compromisso não cumprido.

Os testes de imunogenicidade servem para avaliar a capacidade da vacina de estimular a produção de anticorpos no organismo das pessoas vacinadas durante o estudo, além de verificar por quanto tempo esses anticorpos permanecem ativos.

Os governos estão fingindo que protegeram as populações com imunizantes efetivos e duradouros e os vacinados fingem que estão protegidos. Falta combinar com o vírus.

Desperdício

Chega a 53 mil o total de doses do imunizante covid da Pfizer descartadas pela Prefeitura de SP, perda superior a 3 milhões de reais de dinheiro público.

As vacinas foram descongeladas nos postos e o prazo de 31 dias para aplicação venceu.

Segundo a prefeitura, o volume inutilizado era destinado à aplicação da 2ª dose da vacina mas a população não compareceu aos postos.

Atualização 24/12/2021

Sob amparo da Medida Provisória nº 1.081, de 20 de dezembro de 2021, o Brasil anunciou a doação ao Paraguai de 500 mil doses de imunizantes contra o vírus SARS-CoV-2. A informação foi divulgada nesta sexta-feira (24) em nota conjunta assinada pelos ministérios da Saúde e das Relações Exteriores.

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