Uma das mudanças notáveis do governo foi a instituição de um grupo de trabalho interministerial para coordenar as ações governamentais relativas à aquisição, ao registro, à produção e à distribuição de vacinas Covid, especialmente por não incluir dirigentes de entidades que assinaram contratos com fabricantes de vacinas.

A Resolução nº 8, de 9 de setembro de 2020, assinada pelo Ministro-Chefe da Casa Civil, Walter Souza Braga Netto, define a composição do grupo de trabalho e atribui a coordenação ao Ministério da Saúde, não afastando a participação, à convite, de agentes públicos, especialistas e pesquisadores de instituições públicas e privadas. As sociedades científicas do país, como a Sociedade Brasileira de Imunologia, entre outras, poderão prestar contribuições relevantes ao grupo.

Covax

Na quinta-feira (17), o governo federal solicitou à Aliança Global de Vacinação (Gavi) uma extensão no prazo para formalizar seu envolvimento na Covax Facility, uma iniciativa coliderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para impulsionar o desenvolvimento de vacinas contra o vírus da Covid-19.

"Tal medida se faz necessária para obter mais informações sobre as condições para a aprovação regulatória, instrumento jurídico aplicável, vacinas em desenvolvimento, suas características de armazenamento e transporte logístico", informou comunicado da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom).

Por meio da COVAX Facility, países aportariam recursos para financiar pesquisas, desenvolvimento, ensaios clínicos multivacinas, e a produção de vacinas pré-selecionadas pela equipe técnica do ACT Accelerator. Em caso de sucesso de alguma das vacinas financiadas, cada país investidor teria garantido o fornecimento de doses para pelo menos 20% da população.

O Brasil, assim como outros países, está avaliando a conveniência e oportunidade de investir na proposta.

Segundo a OMS, 172 países estão em negociações para participar dos esforços para a vacina da Covid-19. A iniciativa COVAX tem o maior portfólio de potenciais vacinas, com nove candidatas em estágio avançado e outras nove em avaliação. O grupo de países representa mais de 70% da população mundial.

Ken Frazier, Presidente e CEO da principal produtora de vacinas do mundo, a gigante farmacêutica Merck & Co., em entrevista à Professora Tsedal Neeley, da Harvard Business School, disse que cerca de 160 programas de desenvolvimento no mundo visam criar uma vacina que possa ser segura, eficaz e durável, porém ressaltou que são três questões diferentes.

"Ninguém sabe ao certo se algum desses programas de vacinas produzirá ou não uma vacina como essa. O que mais me preocupa é que o público está com tanta ansiedade, tão desesperado para voltar à normalidade, que está nos empurrando [a indústria farmacêutica] para mover as coisas cada vez mais rápido", alertou.

Para Frazier, o anúncio que uma vacina está chegando leva políticos e população a reduzirem os cuidados com o vírus.

"É fundamental que as pessoas entendam que, enquanto esperamos pela vacina, a proteção imediata contra a propagação desse vírus é boa higiene, (malditas) máscaras, distanciamento social, etc", disse Ken Frasier.

"Precisamos de políticos que tenham a vontade e a integridade para contar a verdade às pessoas. A realidade do mundo é que nesta época do próximo ano muito bem pode parecer com o que estamos experimentando agora", disse o CEO da Merck.

Ensaio global multivacinas

Em comparação com os ensaios individuais para cada uma das muitas vacinas diferentes, um ensaio global multivacinas com um grupo de controle compartilhado poderia fornecer resultados mais rápidos e confiáveis, defende um estudo publicado na revista científica The Lancet, elaborado por especialistas em testes de vacinas solidárias da OMS.

Segundo o artigo, "o uso contínuo da infraestrutura de ensaios clínicos pode economizar tempo e esforço, acelerando a descoberta necessária de várias vacinas seguras e eficazes. Altas taxas de inscrição [de voluntários] facilitadas por um projeto de ensaio flexível e centenas de pontos de ensaio em locais de alta incidência podem produzir resultados sobre a eficácia de curto prazo para cada vacina em apenas alguns meses após sua inclusão".

Os autores enumeram três questões cruciais no planejamento dos ensaios de uma vacina Covid-19:

  • se deve ser exigida não apenas a prova de alguma eficácia da vacina, mas também prova de eficácia verdadeira;
  • se os ensaios iniciais de vacina contra placebo devem priorizar não apenas os ensaios de uma única vacina, mas também um ensaio multivacinas; e
  • avaliar a segurança, a proteção contra a doença grave e a duração da proteção por meio do acompanhamento cego contínuo da vacina e dos grupos de placebo após o surgimento de evidências definitivas de eficácia de curto prazo, mas antes de uma vacina eficaz ser implantada localmente na população em geral.

"Embora o mundo precise de uma avaliação rápida e confiável das muitas vacinas candidatas contra o vírus SARS-CoV-2, existe o risco de que pressões políticas e econômicas levem a introdução rápida e generalizada de uma vacina que é na realidade apenas fracamente eficaz (por exemplo, reduzindo a incidência de Covid-19 em apenas 10-20%), talvez devido a um resultado enganosamente promissor", diz o artigo.

"A implantação de uma vacina fracamente eficaz pode realmente piorar a pandemia de Covid-19 se as autoridades assumirem erroneamente que causa uma redução substancial no risco ou se os indivíduos vacinados acreditarem erroneamente que são imunes, reduzindo assim a implementação ou conformidade com outro controle Covid-19", destaca o artigo.

"A implantação de uma vacina marginalmente eficaz também poderá interferir na avaliação de outras vacinas, pois as vacinas subsequentes teriam então de ser comparadas a ela em vez de a um placebo. Para uma vacina superior à vacina fracamente eficaz, o aumento do tamanho da amostra necessária pode atrasar o reconhecimento de sua eficácia. Mais importante, se a vacina fraca for comparada com uma vacina ainda mais fraca, os critérios estatísticos usados ​​para analisar os ensaios de não inferioridade podem endossar a vacina ainda mais fraca como sendo não inferior (o chamado bio-creep)", escrevem os pesquisadores da OMS.

"Os critérios usados para definir uma vacina bem-sucedida nos ensaios clínicos iniciais de vacinação versus placebo devem, portanto, ser estritos o suficiente para proteger contra o risco de uma vacina fracamente eficaz ser implantada, especialmente porque já existem muitas vacinas candidatas a serem testadas, fornecendo muitas chances de superestimar a eficácia. Portanto, os ensaios iniciais comparando vacinas Covid-19 e placebo devem buscar evidências confiáveis não apenas de alguma eficácia, mas de eficácia verdadeira", alerta o artigo.

Evidências confiáveis ​​também são necessárias sobre a eficácia a longo prazo, a segurança da vacina e a proteção contra Covid-19 grave. São necessários ensaios de tamanho e duração suficientes para fornecer isso para determinar se a vacina pode tornar o vírus da Covid-19 mais perigoso (disease enhancement).

"Os ensaios que avaliam apenas os desfechos imunológicos não podem fornecer essa evidência, e os estudos de desafio em humanos em voluntários jovens, de outra forma saudáveis, adultos podem não fornecer evidências suficientes de segurança ou eficácia em outras populações. As avaliações de segurança em estudos multivacinas podem determinar diretamente se determinadas vacinas têm efeitos adversos não compartilhados por outras vacinas", destaca o artigo.

Segundo a Sociedade Brasileira de Imunologia, para que seu uso seja justificado, o grau de proteção alcançado por uma vacina deveria ser de pelo menos 60-70% em um ano.

"Uma vacina com eficácia de menos de 70%, pode minimizar as formas graves da doença, mas provavelmente não impactará na transmissão do vírus", pondera a sociedade científica em Nota Técnica, ressaltando que é um equívoco avaliar vacinas com base em respostas iniciais de ensaios clínicos.

"É sabido que devido a sua atividade adjuvante, uma vacina funciona como imunoestimulante e pode, nos meses iniciais, proteger indivíduos por mecanismos não relacionados com a imunidade específica mediada pelos anticorpos e linfócitos T. Além disto, existe a janela imunológica. Normalmente a resposta imune demora entre 30-60 dias para se consolidar, em especial, se uma segunda dose for necessária. Portanto, acreditamos que 12 meses seria um tempo mínimo aceitável para avaliar uma vacina contra Covid-19", diz a Nota.

A entidade alerta também para a importante distinção entre imunidade e proteção.

"Quando imunologistas falam em imunidade, normalmente refere-se à detecção de respostas imunes que indicam contato com o patógeno e geração de memória. Contudo, isso não é automaticamente um correlato de proteção. Das respostas detectadas em indivíduos infectados ou vacinados, é preciso ainda investigar quais delas conferem proteção. Mais ainda, diferentes níveis de proteção podem ser gerados em um indivíduo. Anticorpos neutralizantes, por exemplo, podem conferir imunidade esterilizante: eles bloqueiam a infecção e portanto impedem transmissão. Já linfócitos T de memória dificilmente impedem a infecção, mas são fundamentais para limitar a patologia e a gravidade da doença. No entanto, é possível que um indivíduo, mesmo com sintomas brandos da doença e com indícios de uma resposta imune, dissemine o vírus", explica a Nota Técnica da SBI.

Suécia

Ao contrário do que algumas pessoas são levadas a pensar, atualmente os Estados Unidos é o país que está conduzindo os ensaios clínicos mais rigorosos do mundo na busca de vacinas Covid-19 eficazes e seguras.

As autoridades suecas de saúde estão acompanhando atentamente os ensaios. Contudo, não iniciarão uma campanha de vacinação em massa com vacinas "aprovadas" após poucos meses de ensaios clínicos de fase III, e não aplicarão medicamentos com baixa eficácia em toda a população.

Mais importante, as autoridades da Suécia não acreditam que as vacinas possam acabar com a pandemia – no futuro previsível, as medidas preventivas ainda estarão em vigor.

"Uma futura vacina provavelmente constituirá uma ferramenta importante no combate à pandemia, mas não é a solução definitiva para o problema. Uma vacina por si só não pode deter a pandemia", disse Johan Carlson, Diretor-Geral da Agência de Saúde Pública da Suécia.

Combate à desinformação

Um dos destaques da semana foi a formalização de Eduardo Pazuello na quarta-feira (16) como Ministro da Saúde, depois de quatro meses de interinidade.

Entre os grandes desafios enfrentados por Pazuello, como a resolução das filas de procedimentos represados em 2020, como as cirurgias eletivas, e a queda da vacinação durante a pandemia, obter e divulgar dados acurados e com granularidade também é um problema que precisa de atenção. Basta lembrar que o SUS somente começou a coletar dados de internações de Covid-19 em 14 de abril, 50 dias após a confirmação do primeiro caso da doença no Brasil. Até então, não era possível avaliar a ocupação dos leitos da rede assistencial e a média de permanência no SUS dos pacientes vítimas do vírus.

O fato é que os sistemas computacionais do Ministério da Saúde não tinham sido adaptados para lidar com a pandemia. O registro de exames de laboratório sequer era capaz de discernir múltiplos testes de um mesmo paciente, gerando múltiplos "casos confirmados". Dados com perfis de infectados, internados ou não, como idade, sexo, morbidades, renda, raça ainda não estão disponíveis, situação muito distante da riqueza de dados disponíveis nos EUA e na Europa, usados para fundamentar decisões e realização de estudos.

Ironicamente, Pazuello foi criticado por melhorar as informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, ao ajustar as curvas de óbitos por Covid para a data de ocorrência das fatalidades, corrigindo a distorção de traçar curvas usando as datas em que as mortes são registradas no sistema, o que gera falsos picos e não reflete a dimensão real.

Agora assiste-se a utilização de supostos "casos confirmados" por grupos de interesse como instrumento para promover intranquilidade, mantendo a população assustada.

O Dr. Anders Tegnell, um dos formuladores da bem sucedida estratégia da Suécia, acredita que a ênfase na disseminação do vírus é equivocada, pois o número de casos é cada vez menos relacionado ao número de mortes.

“As mortes não estão intimamente ligadas à quantidade de casos que você tem em um país. Existem muitos outros fatores que influenciam a quantidade de óbitos. Que parte da população é atingida? São os idosos? Quão bem você pode proteger as pessoas em suas instalações de longo prazo? Quão bem o seu sistema de saúde continua funcionando? Como podemos melhorar o tratamento nas UTIs? Todas essas coisas estão mudando bastante nos últimos meses ... Essas coisas influenciarão muito mais a mortalidade do que a propagação real do vírus”, afirma Anders Tegnell.

* Com informações The Lancet, Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), Casa Civil da Presidência da República

Krause P, Fleming TR, Longini I, Henao-Restrepo AM, Peto R. COVID-19 vaccine trials should seek worthwhile efficacy.
Lancet. 2020; (published online Aug 27.)
https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31821-3

Veja também: