O G1 teve acesso ao e-mail que foi enviado para Unidades Básicas de Saúde (UBS) e seu conteúdo foi confirmado pela diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE), Helena Sato, e por funcionários de unidades de saúde de SP.

A nova orientação da SES de São Paulo é para que as unidades de saúde da rede pública registrem no sistema apenas pacientes internados com sintomas graves da doença. Fonte: G1
A nova orientação da SES de São Paulo é para que as unidades de saúde da rede pública registrem no sistema oficial apenas pacientes internados com sintomas graves da doença. Fonte: G1

Funcionários de UBSs da Capital teriam confirmado ao site de notícias da Globo que o exame laboratorial já não era realizado para pacientes com sintomas leves mas que, a partir da chegada do email, a orientação é não notificar os casos no sistema oficial.

Segundo relata o G1, um médico de UBS da Capital afirmou que, em apenas um dia, 10 pacientes sintomáticos não tiveram exame coletado e não foram incluídos no sistema de notificação.

Nacionalmente, a orientação do Ministério da Saúde é fazer exames laboratoriais para coronavírus apenas em pacientes graves. No entanto, o Ministério registra notificações da doença com base em diagnósticos clínico-epidemiológicos, ou seja, sem comprovação por teste.

A orientação da Secretaria da Saúde de SP, que o G1 determinou ser autêntica, segue os moldes de medidas tomadas pelo governo chinês para fabricar a narrativa de desaceleração de casos da Covid-19, nomeado "achatamento da curva".

Vale recordar que a Comissão Nacional de Saúde da China, com o crescimento dos casos, proibiu os médicos chineses registrarem testes positivos de pacientes assintomáticos como casos confirmados ou casos suspeitos.

Na notificação oficial, o número de novos casos de COVID-19 caiu pela metade em Wuhan e Hubei em uma semana.Os camaradas responsáveis pelo notável feito foram demitidos pelo PCC após forte reação da população. Reprodução Twitter/CGTN © China Global Television Network
Na notificação oficial, o número de novos casos de COVID-19 caiu pela metade em Wuhan e Hubei em uma semana.Os camaradas responsáveis pelo notável feito foram demitidos pelo PCC após forte reação da população. Reprodução Twitter/CGTN © China Global Television Network

Para Nathalie MacDermott, do King's College London, não incluir casos assintomáticos ou minimamente sintomáticos é um procedimento incorreto no contexto de rastreamento de uma epidemia. "Não apenas distorce os números para o monitoramento da epidemia, mas ignora importantes grupos quando se trata de entender a propagação da infecção”, disse ao jornal britânico The Financial Times.

Em São Paulo, o Governador João Doria criou um Centro de Contingência do Coronavírus com uma equipe que tem se manifestado contra a realização dos testes de laboratório, inclusive por organizações privadas.

"Sou absolutamente contra que se continue fazendo exames para diagnóstico de uma doença que não tem tratamento específico", afirmou o Dr. David Uip, coordenador do Centro, em 27 de fevereiro.

"Gestor público tem que ter a sabedoria de saber o que precisa investir e o que não precisa. Se você confirma que tem o vírus no Brasil e que há contaminação entre indivíduos que não viajaram, está bom, não precisa ficar testando. Aí você deixa o exame para casos mais graves. Como rotina, não tem o menor nexo". Mesmo se tratando de paciente privado não teria sentido fazer a testagem. "A testagem é importante em termos epidemiológicos, mas individual não. Não muda nada em termos de assistência a esse paciente", ensinou o infectologista.

Há menos de 30 dias, o Dr. Uip também afirmava que a rede paulista de leitos hospitalares era suficiente para atender a um eventual aumento de demanda causada pelo coronavírus, uma vez que eles serão destinados apenas aos casos graves.

"Se todo mundo que tossir e tiver febre procurar a rede pública, não tem sistema que aguenta. Nem no Brasil e nem no mundo", alertou.

Ironicamente, na segunda-feira (23) o Dr. Uip acordou com tosse e febre e correu para um hospital privado de São Paulo, onde realizou o teste de coronavírus.

"Estou muito bem. Sinto ainda um pouquinho de febre, de vez em quando tusso um pouquinho. Pode ser o coronavírus, ou qualquer outro", relatou o Dr. Uip em vídeo antes do resultado do teste, que foi anunciado pelo governador.

“Informo que o resultado do exame do Dr. David Uip, Coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus, deu positivo para COVID-19. Ele está isolado, passa bem e permanecerá em sua residência”, comunicou João Doria. Não foi informado se foi realizada contraprova em um laboratório público, como o Instituto Adolfo Lutz.

O Instituto Adolfo Lutz, o único que atende a rede pública do Estado de São Paulo, tem 14 mil exames esperando resultado.

Atualização: Segundo o Secretário Estadual da Saúde, José Henrique Germann, há 16 mil testes para coronavírus represados hoje (1/04). Desse total, 201 referem-se a óbitos que aguardam confirmação para coronavírus. A capacidade máxima do Instituto Adolfo Lutz seria de 400 testes por dia.

Segundo a BBC Brasil, na rede pública de São Paulo os médicos esperam até dez dias para obter os resultados de exames que confirmam se uma pessoa foi infectada. Muitas vezes, quando sai o resultado o paciente já nem tem mais sintomas. Em hospitais da rede privada, os exames podem sair em poucas horas.

Dez dias antes do Dr. Uip ser diagnosticado, a Promotoria de Justiça de Direitos Humanos do Ministério Público remeteu um pedido de explicações ao governador e ao prefeito de São Paulo, questionando a falta de providências para contenção da pandemia e proteção da população.

“A consequência dos gestores se omitirem na tomada de medidas oficiais contra aglomerações, bem como de medidas de prevenção/informação em geral, é a contaminação de grande parte da população de maneira simultânea, impedindo o sistema de saúde de dar respostas adequadas ao coronavírus e às demais doenças que necessitam de atendimento/leitos hospitalares”, diz o texto encaminhado aos governos estadual e municipal.

Naquele mesmo dia, Uip tinha afirmado em entrevista coletiva que "nós só realizaremos exames nos pacientes que estão internados, nos indivíduos em clínica sentinela e em pesquisas. Isto é dar bom gasto ao dinheiro público”

Seguindo as regras do Governo do Estado, caso uma pessoa, como o paciente David Uip, se dirigir a uma unidade pública de saúde com um "pouquinho de febre" e tussindo "um pouquinho", ela não será testada (exceto se profissional da saúde), ou incluida nas estatísticas da Secretaria de Saúde, na hipótese de ter diagnóstico clínico da covid-19. Sairá da unidade sem saber se pode contagiar parentes, amigos, colegas de trabalho, ou qualquer pessoa que tiver contato. É exatamente o oposto do recomendado por autoridades de saúde urbi et orbi.

Essa forma de fabricar "gripezinhas" e "resfriadinhos" tem lá suas recompensas políticas, além de manter a economia funcionando com pessoas doentes. Recentemente, autoridades de saúde festejaram a "queda" de ocorrências da Covid-19 no Estado de São Paulo de 90% para 30% dos casos confirmados no Brasil.

Para Fernanda Campagnucci, diretora executiva da Open Knowledge Brazil e especialista em transparência de dados, a nova orientação do Governo Doria mostra que as estatísticas estaduais precisam ser analisadas com cautela, já que não refletem mais o mesmo cenário que era analisado antes.

Diante da mudança na metodologia, não é possível afirmar que o Estado de São Paulo está conseguindo "achatar a curva" dos gráficos de novos casos.

Em coletiva de imprensa na quinta-feira (26), o Secretário Estadual da Saúde, Dr. José Henrique Germann Ferreira, disse que as medidas adotadas em SP para restringir a circulação estão mostrando resultado "bastante efetivo".

"Acho que é muito cedo pra dizer que SP está achatando a curva. A gente não tem dados de qualidade pra fazer essas projeções", avalia Campagnucci.

Deve-se notar que os maiores hospitais particulares da cidade também passaram a realizar os testes de laboratório apenas em pacientes internados em estado grave, seja por falta de kits de qualidade, seja por recomendação do governo estadual.

“A partir de 17 de março de 2020, o exame para teste de coronavírus somente será realizado em pacientes com indicação de internação. Essa medida visa assegurar a manutenção dos serviços e o atendimento de pessoas que necessitam de mais atenção e cuidado nesse momento”, informa mensagem gravada do telefone de um renomado hospital privado de São Paulo.

O hospital confirmou que só serão atendidos os “casos graves, que necessitam de internação”.

Cabe ainda lembrar que o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom  Ghebreyesus, quando enfatizou a necessidade de testar todos os casos suspeitos, para descobrir quem está infectado e isolar esses pacientes para "achatar a curva" da disseminação do novo coronavírus, o Dr. Uip disse que "há uma diferença entre o mundo ideal e o mundo real: o mundo ideal é fazer o teste com o maior números de pessoas, o mundo real talvez não seja esse".

No mundo real, contabilizar o número de infectados pode ser politicamente danoso. Nos Estados Unidos, estão sendo realizados 100 mil testes de coronavírus por dia e o presidente americano está sendo atacado por adversários pelo país registrar o maior número de casos confirmados do mundo.

"Testes rápidos"

Os 10 milhões de “testes rápidos”, que o governo brasileiro pretende adquirir da empresa chinesa Wondfo, só detectam a infecção após o mínimo de uma semana de sintomas, pois dependem do sistema imune do paciente para identificar o vírus, explicam infectologistas.

Desenvolvidos recentemente, esses exames começaram a ser vendidos pela China no mês passado e se popularizaram. Podem ser comprados pela Internet.

O  Ministério da Saúde reconhece que ainda não houve tempo para o kit da Wondfo ser validado e certificado pela OMS, e que seus parâmetros de qualidade ainda precisam ser avaliados.

Segundo alega o fabricante chinês, a “especificidade” de seu teste é de 99,5%, o que significaria que o exame produz um resultado positivo com alta margem de confiança. Porém, a “sensibilidade” do teste é de 86%, implicando em um grande número de falso-negativos, sobretudo quando o teste é usado nos primeiros dias da doença.

Em resumo, segundo a especificação informada pelo fabricante, o kit detectaria quem teve a Covid-19, a sindrome respiratória causada pelo vírus SARS-CoV-2, mas o teste não seria confiável para confirmação de diagnóstico de quem está com suspeita da doença -- uso alegadamente não pretendido pelo Ministério da Saúde.

Essencialmente, os testes da Wondfo atenderão a demanda na área não-clínica.

Os kits serão destinados para monitorar profissionais de saúde isolados e para uso na rede sentinela de vigilância epidemiológica, que coleta amostras de pacientes com sintomas gripais para monitorar espalhamento de epidemias.

"O problema é que, como os resultados estão demorando, a gente não sabe o diagnóstico com certeza e quantos dias o servidor vai ficar afastado. Isso vai criando uma bola de neve que afeta o atendimento", explicou um médico à BBC Brasil.

Considerando que os governantes não estão fornecendo equipamentos de proteção individual (EPIs) em número suficiente para os funcionários de unidades públicas de saúde, os testes comprados pelo Ministério da Saúde, reconhecidamente produtores de resultados falso-negativos até a pessoa estar fortemente doente de Covid-19, é uma forma de manter trabalhando os profissionais de saúde infectados assintomáticos que estão na linha de frente do combate ao coronavírus

"Tem um aprendizado novo", disse Uip, com base em 50 casos registrados em São Paulo. "Imaginávamos que o período de incubação ia até 14 dias. Estamos vendo que o período de incubação é mais curto. A média é de três a oito dias", afirmou Uip. "Por isso, vamos propor as mudanças. Nós vamos sugerir hoje (17/03/2020) ao Ministério da Saúde que inclusive mude o critério de tempo da quarentena. Que diminua de 14 para 10, o que faz toda a diferença no impacto da força de trabalho, especialmente na saúde".

Falta de equipamentos

Além de proteger as equipes, os EPIs também asseguram a saúde do paciente, evitando que um médico contaminado e assintomático os contagie.

Os equipamentos básicos de proteção individual são: máscara tipo N95 ou PFF2; óculos ou Face Shield; luvas; gorro; capote impermeável e álcool gel 70%.

Em matéria publicada na sexta-feira (27) pela BBC News Brasil, um médico que trabalha em um dos principais hospitais públicos de referência de São Paulo para atendimento de pacientes com Covid-19, contou que os funcionários estão comprando EPIs porque o material enviado pelo poder público não atende à demanda do pronto-socorro e da unidade de terapia intensiva (UTI).

"Há diretores do hospital que, na falta dos equipamentos, tentam justificar para a equipe que eles não são necessários. Dizem que as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) para o uso de EPI são exageradas", disse o médico.

"Na porta dos hospitais da Prefeitura e do Estado, você pode ver funcionários terceirizados lavando a entrada com equipamentos [EPIs] melhores do que os dos médicos que estão lá dentro".

Rebanho

Há duas escolas de enfrentamento da epidemia de coronavírus, a do confinamento, para evitar contágio, e a da imunidade de grupo, também chamada de "imunidade do rebanho" e "imunidade da manada", que é o oposto do confinamento.

Estimativas sugerem que a imunidade de grupo contra o SARS-CoV-2 seria alcançada quando aproximadamente 60% da população for infectada pelo vírus.

O Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou no domingo (22) não ter idéia da porcentagem da população brasileira que será infectada pelo coronavírus.

“O que a gente sabe é que quando passa de 50% da população infectada, o vírus já não consegue multiplicar mais na mesma velocidade. Se vai ser 50%, 60% ou 70% da população, isso é secundário", disse, sem estimar o número de mortes.

Um estudo liderado pelo Imperial College de Londres, e assinado por 50 especialistas, prevê que se nenhuma estratégia de isolamento e de enfrentamento da pandemia for adotada no Brasil, praticamente a totalidade da população brasileira será infectada.

Brasil - Cenário sem qualquer medida de enfrentamento:

  • Mortos: 1,2 milhão
  • Infectados: 188 milhões
  • Hospitalizações: 6,2 milhões
  • Casos graves: 1,5 milhão

Brasil - Cenário com isolamento imposto somente para idosos:

  • Mortos: 529 mil
  • infectados: 120 milhões
  • Hospitalizações: 3,2 milhões
  • Casos graves: 702 mil

Com estratégias rígidas para toda a população, buscando bloquear a circulação do vírus, o estudo estima o número de mortes no Brasil em 44 mil pessoas.

* Com informações do G1, BBC Brasil

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