"É essencial sempre antecipar o pior cenário e estar preparado para tomar medidas se o coronavírus se espalhar exponencialmente em determinadas áreas no futuro".

A frase, obviamente, não é de nenhuma autoridade brasileira.

É do Primeiro-Ministro do Japão, Shinzo Abe.

Entre as muitos providências tomadas pelo governo japonês, uma foi assegurar a capacidade de realização de até 4.600 testes por dia.

"Esperamos assegurar recursos de teste suficientes,  permitindo que todos os pacientes façam o teste se o médico de família considerar necessário", disse Abe.

O Primeiro-Ministro também mostrou preocupação em "minimizar o impacto no sustento dos cidadãos japoneses" pela rápida disseminação do vírus.

País tropical

Em coletiva de imprensa na tarde desta terça-feira (17), o Ministério da Saúde do Brasil admitiu a falta de testes para confirmação do coronavírus. Como resposta à demanda, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) entregou 5,5 mil kits de testes.

"A Fiocruz já se comprometeu em aumentar a produção. Hoje entregou 5,5 mil testes e ela se comprometeu já em abril a fazer uma entrega de 40 mil", disse Júlio Croda, diretor do departamento de Vigilância em Saúde.

Na terça-feira, em apenas 24 horas o Brasil registrou mais 6 mil casos suspeitos do novo coronavírus.

O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, na segunda-feira (16) voltou a enfatizar a necessidade de testar todos os casos suspeitos. Os países deveriam aplicar testes em massa para descobrir quem está infectado e isolar esses pacientes para "achatar a curva" da disseminação do novo coronavírus.

"Você não consegue parar essa pandemia se não souber quem está infectado", disse Tedros. "Teste, teste, teste. Teste todo caso suspeito. Se for positivo, isole e descubra de quem ele esteve próximo".

O Brasil não atenderá a recomendação da Organização Mundial da Saúde.

O Secretário-Executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, afirmou que não mudará agora o critério adotado na atual fase de mitigação. Atualmente, no Rio de Janeiro e em São Paulo, apenas as pessoas com casos graves serão testadas.

A decisão do Governo Federal busca economizar testes para as pessoas com complicações.

Algumas organizações médicas privadas também não seguirão a orientação da OMS.

“A partir de 17 de março de 2020, o exame para teste de coronavírus somente será realizado em pacientes com indicação de internação. Essa medida visa a assegurar a manutenção dos serviços e o atendimento de pessoas que necessitam de mais atenção e cuidado nesse momento”, informa mensagem gravada do telefone de um renomado hospital privado de São Paulo.

O hospital confirmou que só serão atendidos os “casos graves, que necessitam de internação”.

Atualização 20/03

Na Itália, até o dia 9 de março, haviam sido testados 60 mil pacientes, média de mil kits para cada milhão de habitantes. Na Coreia do Sul, a média é de 4 mil testes para cada milhão de habitantes.

Ao G1, o Ministério da Saúde informou que, na rede pública, foram feitos 13 mil testes até 20 de março – ou 62 para cada milhão de brasileiros.

Não há estatísticas para a rede particular.

Quarentena de 10 dias

O Governo de São Paulo informou que vai avaliar a recomendação da OMS,  mas que "há uma  diferença entre o mundo ideal e o mundo real: o mundo ideal é fazer o teste com o maior números de pessoas, o mundo real talvez não seja esse", disse o coordenador do centro de contingência contra o coronavírus em SP, David Uip.

"Tem um aprendizado novo", disse Uip, com base em 50 casos registrados em São Paulo. "Imaginávamos que o período de incubação ia até 14 dias. Estamos vendo que o período de incubação é mais curto. A média é de três a oito dias", afirmou Uip. "Por isso, vamos propor as mudanças. Nós vamos sugerir hoje (17) ao Ministério da Saúde que inclusive mude o critério de tempo da quarentena. Que diminua de 14 para 10, o que faz toda a diferença no impacto da força de trabalho, especialmente na saúde".

Cabe lembrar que uma análise realizada com uma amostra de 1.099 casos de pneumonia por coronavírus coletados em 552 hospitais em 31 províncias da China, conduzida por renomados especialistas de universidades chinesas, revelou que o período de incubação da amostra foi de zero a 24 dias, bem acima do período de 14 dias recomendado por especialistas. Estudos posteriores mostraram que esse período pode chegar a 38 dias.

Um outro dado inconveniente é que em um estudo de mais de 70 mil casos, cerca de 30% dos infectados na China foram internados em UTIs para recuperação, ainda que se fale em "20% de casos graves".

A aposta de João Doria em David Uip é uma aposta em seu futuro político – as mortes em São Paulo não serão creditadas aos caprichos, equívocos e arrogância do infectologista mas à visão mercantilista do Governador ao administrar a pandemia.

Kits

Embora a falta de kits de testes nas unidade de saúde e hospitais públicos possa ser atribuído à má gestão e falta de recursos do Ministério da Saúde, um outro aspecto evidencia uma suposta falta de acompanhamento das soluções tecnológicas para comprovar o contágio.

Desde o surgimento do surto do novo coronavírus, tanto as autoridades de saúde da China como especialistas em todo o mundo criticaram a ineficácia dos kits de testes existentes, que raramente fornecem resultados acurados.

Os testes de coronavírus detectam corretamente resultados positivos em apenas 20% a 30% das vezes, explica Dr. Tong Chaohui, consultor do governo chinês. Hospitais melhores podem atingir 50% de detecção, mas os menos sofisticados podem identificar apenas 1 caso em 10 positivos, acrescentou.

Com a evolução da epidemia, um número de laboratórios entrou no mercado oferecendo testes alegadamente mais precisos e mais rápidos mas também surgiram produtos criados com o objetivo único de tirar proveito da situação, que beira o pânico nas camadas mais altas da sociedade brasileira.

Era de se esperar que o corpo técnico-científico altamente qualificado do Ministério da Saúde estivesse acompanhando atentamente essas soluções, inclusive as adotadas em países melhor sucedidos no enfrentamento da pandemia, como a Alemanha, mas uma declaração do Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta deixa dúvidas.

"A gente está fazendo chamada amanhã, inúmeras pessoas entram em contato: ‘tenho o teste rápido, quero vender um teste que faz em 5 segundos, em 8 segundos’. Está cheio de gente fazendo isso, às vezes pessoas bem intencionadas, às vezes pessoas mal intencionadas. Então a gente vai fazer um chamado para o que é que eles tenham para que eles informem", disse o Ministro. A chamada deverá ser publicada no Diário Oficial da União, segundo Mandetta.

Atualização 20/03 - O presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Evandro Gussi, disse hoje (20), em entrevista à Agência Brasil, que as secretarias estaduais de saúde estão no fim dos estoques de álcool. A Unica e parceiros estão fazendo um grande esforço para produzir e recompor, gratuitamente, os estoques de hospitais e outras unidades de saúde. O primeiro obstáculo foi poder produzir o álcool com a especificação requerida, porque as usinas são proibidas de produzir álcool para uso hospitalar. A autorização para fazer o produto foi dada ontem (19) pela Anvisa.

“Nós imaginamos, se Deus quiser, que já na semana que vem esse material estará sendo despachado para as secretarias estaduais”, disse Gussi.

Estatísticas

Um cínico poderia dizer que o Ministério, entretido atendendo "inúmeras pessoas" prometendo tecnologias milagrosas, não está atento na compilação de casos confirmados, como parecia não estar na necessidade do aumento de médicos e de leitos de UTI até há poucos dias.

Desencontro do número de casos confirmados em 17/03/2020 entre as secretarias estaduais de saúde (SES) e o informado pelo Ministério da Saúde (MS)
Desencontro do número de casos confirmados em 17/03/2020 entre as secretarias estaduais de saúde (SES) e o informado pelo Ministério da Saúde (MS)

Os ministros Bento Albuquerque (Minas e Energia) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), que participaram da comitiva do Presidente Bolsonaro em viagem aos Estados Unidos, de 7 a 10 de março, foram diagnosticados e testados positivamente para o vírus SARS-CoV-2, causador da covid-19.

Ao todo, já são 18 pessoas integrantes da comitiva presidencial confirmadas de terem a doença.

O Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, também contraiu a covid-19. O diagnóstico foi confirmado após o senador ser submetido ao 2º teste.

O primeiro teste, 24 horas antes, havia retornado resultado negativo.

Ministério da Economia

Para quem imagina que o Ministério só vende ativos, inclusive dólares da reserva, e tem por objetivo confiscar renda do brasileiro recriando a CPMF, Paulo Guedes tem novidades.

No primeiro movimento do Ministro para atenuar os efeitos da pandemia nos negócios, após reunir-se com o Presidente da Caixa, ficou decidido que o banco público destinará R$ 30 bilhões para eventuais compras de carteiras de crédito consignado e de financiamento de veículos de instituições financeiras imprudentes.

Considerando que o Banco Central está tentando aprovar proposta no Congresso que permite socorrer bancos privados com o dinheiro do contribuinte, ao arrepio da Lei da Responsabilidade Fiscal, a Caixa ajudar com R$ 30 bilhões banqueiros que concederam empréstimos tóxicos é um trailer das pretensões do BC. Se parece ruim, pode-se imaginar as consequências do BC "independente" para o bolso do brasileiro.

No domingo (15), em entrevista à Folha de S.Paulo, o Ministro Guedes voltou a mostrar preocupação com os impactos da pandemia nas empresas, ante a informação que provavelmente 80% da população brasileira será contagiada pelo vírus SARS-CoV-2.

"Não é meu papel precipitar a retração da economia dizendo para pessoas ficarem em casa. Esse é o papel do Mandetta. Mas, se ele falar que vai bloquear os voos, eu sei que as empresas aéreas vão ter problema, e é nisso que tenho de agir", disse Paulo Guedes.

Atualização 19/03 - O Ministro agiu rápido. A Medida Provisória nº 925 determina que as empresas aéreas tem até 12 meses para reembolsar o passageiro pelo serviço pago adiantado e não prestado.

O último balão-de-ensaio da equipe econômica para evitar demissões em massa seria permitir empresas suspenderem contratos de trabalho por 60 dias, com os funcionários recebendo seguro-desemprego no período.

A primeira idéia tinha sido usar dinheiro público para ajudar a pagar salários. Mas Guedes é contrário. Por isso, surgiu a possibilidade de uso do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), fonte de recursos do seguro-desemprego e do abono salarial, para injetar dinheiro na economia.

Para trabalhadores informais, Bolsonaro afirmou em redes sociais na terça-feira (17) que está em estudo um mecanismo de vales.

"O que o Paulo Guedes falou para mim hoje é que a economia informal, ou que vive da informalidade, teria uma ajuda por algum tempo, algo parecido com um 'voucher'. Está faltando definir o montante e como é que vai organizar o pagamento", disse.

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