A falha crítica no fornecimento de energia e eletricidade, que agora ameaça fazer estragos na economia australiana, fechar grandes indústrias manufatureiras e causar aumento tanto no desemprego quanto na inflação, encontrou um culpado óbvio – pelo menos nos últimos meses, o presidente russo Vladimir Putin.

A verdadeira causa para a crise, no entanto, diz respeito a um erro crucial que remonta a mais de uma década, durante a corrida do gás de Queensland.

Os gigantes de energia superestimaram a produção e se comprometeram em contratos de longo-prazo a exportar mais gás do que dispunham.

Para cumprir essas obrigações, e também aproveitar oportunidades de mercado, desde então as empresas de energia vem reduzindo o fornecimento de gás na costa leste da Austrália, empurrando os preços domésticos para cima, enquanto seus clientes estrangeiros desfrutam de gás australiano a preços bem abaixo do que os australianos pagam.

Evolução do consumo e das exportações de gás da Austrália. Gráfico: © Geoscience Australia
Evolução do consumo e das exportações de gás na Austrália. © Geoscience Australia

"A verdade é que nossos exportadores de LNG continuam a extrair gás da costa leste para abastecer os mercados offshore", relata reportagem da ABC.

O gás natural liquefeito (LNG) é resultado de um processo dispendioso, onde o gás é resfriado para -162°C, comumente realizado para fins de exportação por navio.

"Os produtores de LNG têm abastecido cada vez menos gás no mercado interno nos últimos cinco anos, e a tendência de queda continua", disse a Comissária Anna Brakey, da Australian Competition and Consumer Commission.

"É essa rápida e significativa redução da oferta doméstica dos produtores de LNG que contribuiu para as condições apertadas e incertas em nosso mercado interno".

"E vamos ser claros", disse Brakey, "isso está em desacordo com o que o governo foi informado antes que os projetos de LNG fossem desenvolvidos. As empresas de gás garantiram aos governos que havia oferta suficiente e que os preços domésticos do gás não subiriam".

A situação, acrescentou, só deve piorar nos próximos anos.

Em entrevista à rádio australiana ABC na terça-feira (7), a Ministra dos Recursos, Madeleine King, concordou que os exorbitantes preços do gás na Austrália, entre os mais altos do mundo, não são devidos a "algo que aconteceu da noite para o dia".

Uma batalha de quase 20 anos sobre a ciência do clima – principalmente travada para fins políticos – resultou em escassez de investimentos na geração de energia.

O país é dependente de uma infraestrutura envelhecida e não confiável de geradores de eletricidade a carvão, que despejam na atmosfera enormes quantidades de carbono e frequentemente quebram.

O gás deveria ser o combustível de transição para um futuro de energia renovável, mas decisões políticas permitiram que o gás produzido no leste da Austrália fosse exportado sem a fixação de um volume mínimo reservado ao mercado interno.

Enquanto o consumidor da costa oeste australiana desfruta de abundância de oferta de gás natural e preços baixos, após o governo da Western Australia (WA) ter garantido nos contratos 15% da produção destinada para o mercado doméstico ao preço de 6,50 dólares australianos (AU$) por gigajoule, nos estados do leste um cartel de gigantes nacionais e multinacionais de energia controla o fornecimento do produto, ditando termos e preços.

Há 16 anos, a imprensa e políticos do leste australiano chamaram de "política caipira" as exigências de WA.

Em maio, o gigajoule de gás natural ultrapassou AU$ 800 em Melbourne.

Pela primeira vez, o regulador (Australian Energy Market Operator) acionou o Mecanismo de Garantia de Fornecimento de Gás, citando uma "ameaça à segurança do sistema", limitando os preços do gás em AU$ 40 por gigajoule.

A maior parte do gás australiano é exportado em contratos de longo-prazo inflexíveis. Porém, mais de um terço das vendas são realizadas no mercado spot.

Uma parte significativa desse gás está sendo enviada para a China, uma nação que nos últimos três anos tem travado uma brutal guerra comercial contra a Austrália e que agora está buscando dominação diplomática e militar no Pacífico Sul.

O restante é destinado principalmente para o Japão e a Coreia do Sul.

Com os preços globais do gás subindo, a indústria e as famílias australianas foram avisadas de um inverno "caro" pela frente.

"Será um inverno difícil, e será um inverno caro. Estamos no meio de uma crise de custo de vida, e os preços da eletricidade e do gás são, infelizmente, parte dessa dor", disse o Tesoureiro da Austrália, Jim Chalmers.

Chalmers disse à Sky News que um alívio do custo de vida será apresentado no orçamento de outubro, mas estender o corte de impostos sobre o consumo de combustíveis será difícil.

"Temos um plano para baixar essas contas de energia ao longo do tempo, porque a ausência de uma política energética durante a maior parte de uma década é uma razão chave pela qual a inflação está subindo pelo teto", disse Chalmers.

Carvão como solução

O gás é um elemento-chave na determinação dos preços da eletricidade e, sem uma solução rápida, as contas de energia da costa leste aumentarão, alimentarão a inflação e pressionarão ainda mais as taxas de juros.

No entendimento de King, as usinas a carvão que estão paradas precisam voltar a operar, considerando-as fundamentais para aliviar a crise de energia.

"No curto prazo, o que realmente precisamos fazer é que as usinas de carvão voltem a funcionar, porque essa é a peça que falta no quebra-cabeça agora".

"Não importa quanto dinheiro alguém coloque agora, só precisamos que os operadores se movam para reparar suas usinas", disse.

"São as próprias empresas de carvão, e os operadores das usinas, que precisam colocar essas centrais de volta em funcionamento. 30% da capacidade energética foi retirada do grid por causa de circunstâncias imprevistas em muitos aspectos".

Quando perguntada se o governo consideraria uma política nacional que obriga os produtores a reservar 15% de seu gás, como fazem no Estado de Western Australia, King disse que "nada está fora de questão", mas não se comprometeu com a medida, dizendo que era uma "grande luta política" para o governo apresentá-la, com muitas pessoas perdendo "muita pele política nessa luta".

Para a imprensa australiana, é difícil não suspeitar que o novo governo está sendo calado pelas companhias de gás.

Essas empresas usam mais gás natural para fabricar LNG (453 PJ) do que toda a indústria manufatureira ou todas as usinas geradoras de eletricidade a gás do país, e mais do que o dobro usado pelas famílias australianas (175 PJ).

O porta-voz da oposição, Ted O'Brien, disse que o governo precisa acionar o "gatilho do gás", que permite que parte das exportações seja desviada para o abastecimento doméstico.

O Ministro da Energia Chris Bowen respondeu que tal movimento é um processo complexo, e as ações tomadas agora não teriam efeito antes de 1º de janeiro.

A oposição argumenta que o gatilho nunca precisou ser acionado e acusou o governo de desnecessariamente depreciar a melhor ferramenta à sua disposição – apenas a ameaça seria suficiente para liberar mais gás.

"O valor não está apenas em seu uso prático, mas na ameaça de seu uso, a ameaça de intervenção", disse O'Brien à rádio ABC.

O Ministro da Energia disse também que, segundo as companhias de gás, não é possível ser enviado mais gás para o sul porque o gasoduto já está operando com 100% da capacidade.

A informação foi rejeitada na quarta-feira (8) pela Australian Pipelines and Gas Association, que afirmou que o Australian Pipelines and Gas Association operou bem abaixo da capacidade por quase todos os dias do mês passado, e que "olhando mais para trás, é raro encontrar um dia este ano em que o gasoduto operou em plena capacidade".

Na sexta-feira (10), Bowen e King anunciaram planos para aprimorar o gatilho de gás dentro de semanas, de modo a funcionar de imediato se for acionado.

"Gatilho do gás"

Esta não é a primeira vez que a Austrália enfrenta uma crise de gás.

Em 2017, o então Primeiro-Ministro Malcolm Turnbull foi forçado a submeter os exportadores de gás.

A Austrália tinha acabado de ultrapassar o Qatar como o maior exportador mundial de gás natural liquefeito (LNG). Mas o mercado doméstico estava enfrentando déficits à medida que os exportadores utilizavam o fornecimento para cumprir seus compromissos no exterior.

Na época, era mais barato comprar LNG australiano no exterior, enviá-lo de volta para o país e reconvertê-lo de líquido para gás, do que comprá-lo no mercado local.

Em resposta, Turnbull criou o Australian Domestic Gas Security Mechanism – um mecanismo para limitar as exportações em caso de escassez doméstica.

A medida de Turnbull foi efetivamente uma consequência do governo trabalhista de Rudd-Gillard – com o apoio da oposição da Coalizão – assinar uma quantidade massiva de licenças de exportação de gás em Queensland sem qualquer exigência de que algum gás fosse reservado para uso doméstico.

As empresas de gás alegavam que cada dólar de exportação era necessário para garantir a viabilidade dos projetos, e o governo aceitou. Argumentou que uma abordagem de livre mercado garantiria oferta suficiente para a demanda doméstica e internacional, porque se o preço aumentasse, isso forneceria incentivos para o desenvolvimento de novos suprimentos.

"Intervenções como políticas de reserva para forçar os resultados de preços ou ofertas são mais propensas a impedir do que promover a oferta", disse o então Ministro de Recursos e Energia, Martin Ferguson, em 2012, quando sua abordagem de mercado livre começou a afundar.

O mais grave erro de julgamento de Ferguson deveu-se, em grande parte, a uma falha em antecipar as pressões sobre o gás causadas pela ação das mudanças climáticas, e por causa dos governos estaduais de Victoria e NSW banindo, ou colocando restrições efetivas, no desenvolvimento de campos terrestres de gás.  

A Austrália está agora no meio de uma crise fabricada graças a múltiplas falhas políticas, e o fracasso do governo federal há mais de uma década em não enfrentar as gigantes do gás e defender uma reserva como condição de suas licenças.

Cerca de 93% dos recursos convencionais de gás da Austrália estão localizados na costa oeste do país, na North West Shelf. O gás produzido nas bacias de Northern Carnarvon, Browse e Bonaparte fornece matéria-prima para sete projetos de LNG (Gorgon, Wheatstone, North West Shelf, Pluto, Prelude, Ichthys e Darwin). © Geoscience Australia
Cerca de 93% dos recursos convencionais de gás da Austrália estão localizados na plataforma continental da costa oste do país, na North West Shelf. O gás produzido nas bacias de Northern Carnarvon, Browse e Bonaparte fornece matéria-prima para sete projetos de LNG (Gorgon, Wheatstone, North West Shelf, Pluto, Prelude, Ichthys e Darwin). © Geoscience Australia

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