Uma leitura rápida das manchetes dos jornais brasileiros levaria a conclusão que o país foi atacado por uma força extraterrestre, de norte a sul, de leste a oeste. Somente o aparato militar de um Darth Vader poderia atingir simultaneamente mais de 5.500 cidades espalhadas em um país com dimensões de um continente.

A questão não é pagar auxílio a 60 milhões de trabalhadores mas como 60 milhões perderam a renda. Alguns poucos municípios precisam desesperadamente de auxilio agora, outros precisarão mais à frente. A pandemia acaba quando termina.

Por exemplo, não deve ser fácil convencer a população de Minas Gerais, e de cada município mineiro, que restringir a circulação e fechar o comércio por semanas é essencial para proteger vidas se não há ninguém doente de Covid-19 na cidade e arredores. O governador diz que a "curva" de casos do coronavírus em Minas Gerais é a melhor do país, mas a situação corrente na maioria das cidades mineiras é de não ter pandemia – Minas diz ter 614 casos confirmados e 14 mortes por Covid-19. Não há o que achatar.

Da mesma forma, não parece ter justificativa fechar o comércio, suspender as aulas e proibir a circulação em 645 cidades do estado de São Paulo quando umas 120, se tanto, tem algum caso testado. Quando se avalia o número de óbitos atribuidos à Covid-19, felizmente apenas 47 das 645 cidades paulistas estão em risco imediato, destacando-se a Capital, que não recebeu a devida atenção no devido tempo.

De fato, a despreocupação do Governador e do Prefeito com o coronavírus levou a Promotoria de SP a questionar, no dia 13 de março, o que ambos estavam fazendo para proteger a população do contágio.

Município óbitos
ÁGUAS DE LINDÓIA 1
AGUDOS 1
AMERICANA 2
ARUJÁ 1
BARUERI 2
BAURU 1
BOTUCATU 1
BRAGANÇA PAULISTA 2
CAIEIRAS 4
CAMPINAS 5
CARAGUATATUBA 1
CARAPICUÍBA 2
CATANDUVA 1
COTIA 3
CRAVINHOS 1
DIADEMA 1
DRACENA 1
EMBU DAS ARTES 1
FRANCISCO MORATO 1
FRANCO DA ROCHA 1
GUARULHOS 7
ITAPECERICA DA SERRA 1
ITAPEVI 2
ITATIBA 1
JABOTICABAL 1
JUNDIAÍ 1
LARANJAL PAULISTA 1
MAIRIPORÃ 2
MOGI GUAÇU 1
NOVA ODESSA 1
OSASCO 6
PENÁPOLIS 1
POÁ 1
PRESIDENTE VENCESLAU 1
RIBEIRÃO PRETO 3
SANTA BRANCA 1
SANTO ANDRÉ 3
SANTOS 3
SÃO BERNARDO DO CAMPO 7
SÃO CAETANO DO SUL 1
SÃO JOSÉ DO RIO PRETO 1
SÃO PAULO 339
SÃO SEBASTIÃO 1
SOROCABA 2
SUZANO 1
TABOÃO DA SERRA 4
VARGEM GRANDE PAULISTA 2
Fonte: Portal do Governo do Estado de São Paulo, 08/04/2020 - 17h43

Uma mulher que corria na areia da praia do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, usando máscara facial, é detida após discussão por ter sido retirada à força por agentes sem proteção. Reprodução Youtube
Uma mulher que corria na areia da praia do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, usando máscara facial, é detida após discussão por ter sido retirada à força por agentes sem proteção. Reprodução Youtube 

Qual seria o motivo das decisões insustentáveis da classe política?

De um lado, muitos governantes parecem estar usando modelos matemáticos de predição que fornecem cenários convenientes para aumentar despesas e capital político, pois já foi estabelecido que tais modelos produzem os mais diferentes cenários, nenhum deles remotamente próximo da realidade.

Por exemplo, o governador de New York, Andrew Cuomo, foi levado a acreditar que precisaria de 40.000 ventiladores para tratar os doentes de Covid-19 e levou à Trump um pedido de 30.000 deles, não atendido porque o modelo de predição utilizado pela Casa Branca projetava um número muito menor: cerca de 5.000. Na linha de frente, os doentes que precisaram de ventilação tiveram o equipamento. Infelizmente, nesse estágio de tratamento os óbitos são elevados – as projeções consideraram um tempo de utilização maior do que o observado na prática.

Saiba mais: Médico revela a real situação da Covid-19 na cidade de New York

Por outro lado, os controles de despesas parecem demasiadamente afrouxados. "Orçamento de guerra", "imprimir dinheiro o quanto for preciso", "vender metade das reservas internacionais" sugerem problemas quando a pandemia passar, mas as eleições deverão ocorrer antes do ajuste de contas, então vale a narrativa: o presidente "brigou" para manter empregos e vidas e os governadores "destruiram" a economia e não protegeram a população.

Mortos e desempregados provarão a "tese".

De acordo com Edson Aparecido, Secretário da Saúde do município de São Paulo, uma média de 30% dos pacientes que vão para UTI do SUS falece devido à complicações relacionadas à Covid-19.

O número de mortes em leitos estaduais e municipais cairá na conta dos governadores e prefeitos, assim como a rejeição de um medicamento sem nenhuma comprovação científica, vendido pelo presidente ao povo como "remédio sagrado". A maravilha da cloroquina é que basta a idéia que alguém morreu, demorou a melhorar ou sofreu porque a droga foi negada e outro sobreviveu porque recebeu o medicamento.

O cardiologista Roberto Kalil Filho, do Hospital Sírio-Libanês, que ficou internado com Covid-19, resumiu bem a questão da cloroquina em entrevista à Folha.

"É verdade que não temos grandes estudos científicos mostrando benefícios, mas é uma doença que mata. Se daqui a seis meses sair um estudo mostrando que a cloroquina não funciona, parabéns, fizemos o que tinha que fazer. Se daqui a seis meses, sair um estudo mostrando que a cloroquina é eficaz, e os doentes que deixamos de dar? E se morreram? É mais um remédio, um conjunto de remédios que deve ser usado", explicou Kalil Filho.

Talvez o cardiologista tenha esquecido uma terceira possibilidade, do paciente morrer por ter tomado cloroquina, o que não é uma hipótese sobre um dos efeitos colaterais do medicamento em determinadas pessoas: infarto fulminante.

O médico ressalta que "me deram de tudo", e complementa: "tomei cloroquina, antibiótico e corticoide na veia e anticoagulante".

"Eu sempre falei: não é usar só cloroquina, tem usar cloroquina com antibióticos, em alguns casos com corticoides, como foi o meu porque o meu pulmão estava muito inflamado, e anticoagulancte. Não dá para saber o que fez mais efeito ou se foi o conjunto", diz o cardiologista.

O Dr. Kalil também ressaltou a importância da infraestrutura hospitalar.

"Se você pega a taxa de mortalidade do Sírio e do Einstein é baixíssima. Eu cai nos 5% da gravidade da doença. E nesses 5% precisa ter suporte, senão você complica, não tem jeito. Com suporte, você escapa. Se não tem suporte, você não escapa".

Lembra a fábula da sopa de pedra. Fica deliciosa com ingredientes.

Já o oncologista Daniel Tabak, considerado um dos maiores especialistas em câncer do País, se preocupa com os efeitos prejudiciais.

"A situação remete à da falsa pílula do câncer, a fosfoetanolamina. Na época, se dizia que quem tem câncer tem pressa. E houve quem defendesse o que se mostrou uma farsa. Vivemos uma situação perigosa porque justamente as pessoas mais vulneráveis à Covid-19, como pacientes com câncer e cardíacos, são as mais sujeitas a efeitos adversos dessas drogas. Elas podem levar a arritmias fatais ou ter interação com outras drogas que esses pacientes já tomam" disse Tabak ao O Globo.

“É preciso muita cautela para que um medicamento sem eficácia comprovada contra a Covid-19 não cause mais danos ao paciente do que a doença”, afirma Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia e infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, à Folha.
 
Considerando os estudos recentes sobre a hidroxicloroquina, Weissmann diz que está se demonstrando que a droga não traz benefícios aos pacientes. “É uma situação bastante grave que estamos vivendo neste momento. Com isso, tenta-se uma solução rápida e imediata para o problema, mas é preciso muito cuidado. Até o momento, não há qualquer estudo realizado com metodologia científica adequada, que demonstre evidências robustas de eficácia e segurança em algum medicamento para cura da Covid-19.”

Mauro Teixeira, professor titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reforça que não existem provas sobre a eficácia dessas drogas. Teixeira, que é vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Membro da Comissão Científica da Anvisa e presidente da Sociedade Brasileira de Inflamação, diz que as afirmações de médicos que se disseram curados pela cloroquina e a hidroxicloroquina são irresponsáveis.

"É muito fácil para médicos de elite, cercados por cuidados que a maioria da população não terá jamais, que tomaram vários medicamentos, dizerem que foram curados pela cloroquina ou a hidroxicloroquina. Como provam que foram elas e não as outras drogas?  Eles não provam que funciona. Isso é uma tremenda irresponsabilidade como de resto será total responsabilidade dos médicos o destino dos pacientes para os quais derem essas drogas", disse Teixeira ao O Globo.

Para Teixeira, a única coisa que comprovadamente cura a doença é "uma boa UTI, com uma equipe médica bem treinada, ventiladores limpos e que funcionam, hospital com diálise e suporte cardiovascular. É isso que sabemos que funciona".

Trapalhão

O colunista Lauro Jardim relata que o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, desistiu de importar 15.000 respiradores chineses, negócio de cerca de R$ 1 bilhão. O acordado seria receber 8.000 mil respiradores em 30 dias. Estourado o prazo, alegadamente o fornecedor teria proposto entregar 100 aparelhos.

Apenas mais um tropeço do Ministério, muito aplaudido por quem não usa o SUS.

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