"De acordo com as instruções da [agência reguladora] Rostekhnadzor e levando em conta a condição técnica do equipamento, a Gazprom interromperá a operação de outra turbina a gás da Siemens na estação compressora de Portovaya. A capacidade diária da estação compressora de Portovaya a partir das 07:00 horas de Moscou em 27 de julho será de até 33 milhões de metros cúbicos", diz a nota, metade do volume atual, que já corresponde a apenas 40% da capacidade do Nord Stream.

Após o anúncio do corte, os preços europeus do gás subiram 10% nesta segunda-feira (25), para serem negociados a € 177 por megawatt-hora — cinco vezes mais alto do que o preço de um ano atrás.

Mais cedo, a Gazprom anunciou que havia recebido documentos da alemã Siemens Energy sobre o retorno da turbina para o Nord Stream, mas a holding observou que não removem os riscos previamente identificados e apenas levantam questões adicionais. Em particular, a Gazprom ainda tem dúvidas sobre as sanções da UE e do Reino Unido.

O jornal russo Kommersant, citando fontes, informou que a Siemens enviou à Gazprom um documento emitido pelo Canadá que permite reparar e transportar turbinas para a estação de compressão de Portovaya até o final de 2024.

"Sabemos que ainda há problemas com outras unidades, que a Siemens também está ciente. Mas, é claro, a turbina será instalada depois que todas as formalidades forem concluídas. E as entregas [de gás] continuarão na medida em que isso for tecnicamente possível", disse a repórteres, nesta segunda-feira, o porta-voz presidencial russo Dmitry Peskov.

Devido a atrasos com a documentação, a turbina perdeu a balsa de 23 de julho da Alemanha para Helsinque. Se as partes trocarem documentos com sucesso, o equipamento poderá ser transportado em poucos dias. No entanto, fontes do Kommersant duvidavam que a entrega da turbina aumentaria os volumes sobre o Nord Stream, uma vez que outras cinco unidades, de um total de 8 da estação compressora de Portovaya, necessitam de manutenção.

Elas podem ser enviadas ao Canadá para reparos a qualquer momento, de acordo com as fontes. O jornal russo diz que a manutenção de uma turbina leva cerca de três meses.

De 1º de janeiro a 15 de julho de 2022, a Gazprom, segundo dados preliminares, produziu 249,7 bilhões de metros cúbicos de gás, cerca de -10,4% (-29,1 bilhões de metros cúbicos) a menos do que no ano passado.

A demanda pelo gás da empresa no mercado interno russo nesse período diminuiu -1,9% (-2,7 bilhões de metros cúbicos).

As exportações de gás para países não-CIS somaram 71,9 bilhões de metros cúbicos, o que representa -33,1% (-35,6 bilhões de metros cúbicos) a menos do que no mesmo período de 2021. A Gazprom fornece gás de acordo com os pedidos confirmados.

As exportações de gás para a China através do gasoduto Power of Siberia estão crescendo como parte de um contrato bilateral de longo prazo entre a Gazprom e a CNPC.

Corte de consumo de gás

O consumo global de gás no primeiro semestre de 2022, segundo estimativa preliminar, diminuiu em 24 bilhões de metros cúbicos em relação aos seis meses de 2021. O consumo de gás em 27 países da União Europeia no mesmo período diminuiu em 27 bilhões de metros cúbicos. Assim, a diminuição da demanda por gás na UE tornou-se um fator-chave na redução do consumo mundial.

De acordo com dados de 13 de julho da Gas Infrastructure Europe (GIE), as reservas de gás em instalações de armazenamento subterrâneo (UGS) europeias foram reabastecidas em 36,9 bilhões de metros cúbicos. Para atingir o nível de ocupação no início da temporada de 2019/2020, as empresas terão que bombear mais 35,5 bilhões de metros cúbicos de gás.

O Vice-Chanceler da Alemanha e Ministro dos Assuntos Econômicos e Proteção Climática Robert Habeck, em meio a novas reduções no fornecimento de gás da Rússia, alertou para a gravidade da situação com o fornecimento de energia no país, na noite desta segunda-feira, no canal de televisão ARD.

"Temos uma situação séria. É hora de todos entenderem isso", disse Habeck. A Alemanha, disse, deve reduzir o consumo de gás. "Estamos trabalhando nisso", garantiu o ministro do partido Verde alemão, acrescentando que as medidas devem ser implementadas de forma consistente.

O pronunciamento ocorre em meio a confiança empresarial alemã ter atingido o seu nível mais baixo por mais de dois anos, no último sinal de que a maior economia da Europa está à beira da recessão.

As empresas de toda a Alemanha tornaram-se mais sombrias sobre sua situação atual e as perspectivas para os próximos seis meses, de acordo com o índice de confiança empresarial do Instituto Ifo. Os números do produto interno bruto do segundo trimestre a serem divulgados na sexta-feira devem mostrar um crescimento de apenas 0,1%, de acordo com economistas consultados pela Reuters.

"Agora depende de quão frugal somos", disse Habeck sobre possíveis cenários para o inverno. O fornecimento da indústria será reduzido em caso de escassez de gás diante de residências privadas ou infraestrutura crítica, como hospitais.

"É claro que essa é uma grande preocupação, que eu também compartilho, que isso possa acontecer", admitiu Habeck. Em seguida, não haverá cadeias produtivas definidas na Alemanha ou na Europa. "É importante evitar isso por todos os meios. Portanto, o consumo de gás na Alemanha deve ser reduzido em 15-20%", concluiu ministro.

Tom Marzec-Manser, da consultoria ICIS, disse que, se os últimos cortes na oferta russa de gás persistirem, exigirão mais esforços dos governos europeus "para incentivar a redução da demanda, especialmente do setor industrial".

Por sua vez, as autoridades polonesas se opõem ao plano da Comissão Europeia (CE) de reduzir o consumo de gás, declarou nesta segunda-feira a Ministra do Clima e Meio Ambiente, Anna Moskva, responsável por questões energéticas no governo polonês.

"O que é inaceitável nas propostas da Comissão Europeia é a proposta de introduzir mecanismos obrigatórios para reduzir [o consumo de gás]. É difícil para os países concordarem com uma redução obrigatória do gás sem saber como será o próximo inverno, sem garantir seus interesses. Podemos falar sobre mecanismos voluntários, podemos falar sobre economias em cada país [...]. É difícil falar sobre mecanismos obrigatórios preparados pela Comissão Europeia "de joelhos", forçando os Estados-membros a fazer reduções obrigatórias. Não podemos concordar com isso", relatou a revista semanal Wprost, citando a ministra.

"Não me considero competente para tomar decisões sobre restrições na Espanha, Malta ou Bulgária. Da mesma forma, não gostaria que esses países decidissem sobre as restrições na Polônia. A segurança energética é tarefa de um determinado Estado e de um determinado governo", enfatizou Anna Moskva. Segundo ela, a Polônia está pronta para o próximo inverno em termos de suprimentos de gás.

Em 20 de julho, a CE publicou um documento afirmando que os países da UE devem apresentar planos para uma redução voluntária do consumo de gás em 15% até o final de setembro para o período até 31 de março de 2023. Vários países, incluindo Espanha, Portugal, Grécia, não apoiaram a iniciativa da CE.

Nesta segunda-feira, o jornal espanhol El País informou que o plano da CE se tornará mais flexível em meio à discordância de vários países da comunidade. De acordo com sua versão, o projeto mantém o objetivo de reduzir o consumo de combustível, mas agora inúmeras exceções e detalhes estão sendo introduzidos para adaptar a economia de energia às necessidades de cada país.

Os enviados dos países da UE estão considerando limitar os poderes da CE, que planeja apresentar uma demanda para reduzir o consumo de gás natural em 15% sem o consentimento dos países.

Os embaixadores em Bruxelas têm lutado para chegar a um acordo, que deverá ser assinado pelos ministros da energia em uma reunião de emergência na terça-feira (26).

"Não há plano B", disse ao Financial Times um diplomata sênior da UE sobre a importância do acordo de redução de gás. "É importante que mostremos que a UE permanece unida nestes tempos difíceis e estejamos preparados para os piores cenários".

Atualização 26/07/2022

A Alemanha ainda se recusa a informar sobre a localização da turbina reparada, e os documentos enviados pela Siemens sobre o retorno da turbina ainda não eliminam os riscos de sanções, observou a Gazprom. A alemã Siemens Energy alega que não vê uma conexão entre a turbina e a redução do fluxo do Nord Stream, e diz que não há documentos alfandegários suficientes da Gazprom para importá-la para a Rússia.

Fontes familiarizadas com a posição da Gazprom explicaram ao jornal russo Kommersant que a empresa insiste em eliminar completamente quaisquer riscos de sanções que possam afetar a devolução de turbinas para a Rússia. Para isso, a Gazprom pede uma explicação oficial da Comissão Europeia de que o transporte de turbinas a gás para a Rússia via países da União Europeia (UE) não é proibido.

Nesse contexto, o preço do gás na Europa desde o início da semana já subiu mais de 30%, ultrapassando US$ 2.200 por 1.000 metros cúbicos. Se as autoridades da UE continuarem a bombear gás para as instalações de armazenamento com a mesma taxa, os preços permanecerão consistentemente altos, e em setembro poderão subir ainda mais, pois será o momento dos países asiáticos comprarem LNG (gás natural liquefeito) para repor seus estoques antes do inverno.

Tudo isso ameaça mais uma vez os planos de reabastecer as instalações subterrâneas de armazenamento de gás (UGS) de todos os países da UE.

Desde meados de junho, quando o volume de bombeamento através do Nord Stream foi reduzido para 69 milhões de metros cúbicos por dia, as instalações europeias da UGS foram reabastecidas diariamente por uma média de 383 milhões de metros cúbicos de gás. Se os países da UE não tomarem medidas imediatas para conter o consumo, o volume em agosto deverá cair para 346 milhões de metros cúbicos. Nesta situação, os níveis das instalações de UGS da Europa poderão chegar a 76% até o início de novembro, sem atingir a meta de 80%.

A União Europeia prepara-se para passar o inverno sem gás russo pela primeira vez e decidiu reduzir o consumo de gás em 15% até o final de março de 2023.

Se o fornecimento de gás através do gasoduto Nord Stream parar completamente, a UE terá que reduzir o consumo em 20-25% em vez de 15%.

Ao mesmo tempo, a Alemanha se recusa a aprovar a operação do Nord Stream 2.

O Vice-Chanceler da Alemanha e Ministro dos Assuntos Econômicos e Proteção climática Robert Habeck disse que a aprovação do comissionamento do gasoduto Nord Stream 2 seria uma capitulação da Europa. Ele fez esta declaração nesta terça-feira (26) em Bruxelas durante uma reunião não programada do Conselho da UE no nível dos ministros da energia.

"A aprovação do Nord Stream 2 aumentaria novamente nossa dependência do gás russo – exatamente o oposto do que temos trabalhado aqui nos últimos seis meses – e, é claro, isso também é uma capitulação com todas as medidas de sanções que tomamos", disse à agência DPA o político do Partido Verde alemão.

A Rússia, segundo o ministro, está lidando com "dois momentos estratégicos de pressão". "Em primeiro lugar, destruir a solidariedade na Europa por causa dos altos preços do gás. Repetidas vezes ouvimos do Kremlin que há um segundo gasoduto através do qual seria possível fornecer gás em abundância após a aprovação".

Ele observou que o plano para reduzir o consumo de gás, acordado pelos ministros de energia dos 27 países-membros da União Europeia, é um "forte sinal contra todos os zombadores e todos os desprezadores" da UE. Antes de chegar ao acordo, disse, havia rumores de que a Europa estava dividida, que não teria sucesso e que ninguém queria economizar gás. "Muitos estão prontos para dar meio passo a mais do que é realmente necessário em interesses puramente nacionais", alegou o ministro alemão.

Hoje, cada país combate a crise energética por si só e não tem intenção de fechar suas fábricas por razões de solidariedade.

Habeck e o seu partido Verde são grandes responsáveis pela crise de energia na Europa. O entendimento que a abundância de gás russo levaria à construção de novas usinas geradoras de eletricidade usando gás natural tem feito o partido colocar obstáculos a qualquer iniciativa que não utilize "energia renovável" (eólica e solar), incluindo forte oposição à construção do gasoduto Nord Stream 2, e de sua certificação, após concluído em setembro de 2021, bem como nas discussões da União Europeia para permitir o financiamento de novas usinas nucleares e de gás.

Notavelmente, em setembro de 2021 o governo federal alemão fazia campanhas para aquecer os lares com velas e cozinhar sem gás. Durante quase todo o ano de 2020, a construção foi interrompida por sanções quando faltavam apenas 100 km para sua conclusão.

O Nord Stream 2 pertence à estatal russa Gazprom, mas a metade de seu financiamento vem de empresas europeias, como a francesa Engie, a austríaca OMV, a anglo-holandesa Shell e as alemãs Uniper e Wintershall.

Cerca de 40% do gás russo exportado para a Europa tem trânsito pela Ucrânia, que encontra nessa atividade sua principal fonte de renda.

Para as estatais russas, o novo gasoduto significaria menos dependência da rede de distribuição construída pela União Soviética (URSS) e Rússia no Leste Europeu.

O adicional de gás russo do Nord Stream 2 "certamente sobrecarregaria o mercado europeu", avalia Connor McLean, analista de energia da BTU Analytics, acrescentando que os novos volumes provavelmente substituirão as fontes existentes de abastecimento, o que refrearia uma potencial recuperação das exportações de LNG dos EUA. Assim que a crise na Ucrânia começou, o próprio Biden viajou à Europa para fechar a venda do produto americano.

Em dezembro do ano passado, sem Putin no cenário, o Wall Street Journal (WSJ) observou sobre a situação energética alemã: "É difícil pensar em uma política mais autodestrutiva em termos econômicos, climáticos e geopolíticos".

"Já é ruim o suficiente que os alemães tenham minado sua própria segurança energética, mas eles não deveriam impor sua política autodestrutiva ao resto do continente", enfatizou o WSJ.

Atualização 27/07/2022

A alemã Siemens Energy não está cumprindo suas obrigações de reparar turbinas defeituosas da Nord Stream AG. Como resultado, apenas uma turbina permanece em condições de operação na estação compressora de Portovaya, disse o vice-chefe da Gazprom, Vitaly Markelov, ao canal russo de televisão Rossiya-24.

"Em maio, esperávamos ter uma turbina reparada da Siemens, mas até agora não recebemos esse equipamento [...] Permanecem questões sobre os riscos de sanções que impedem o retorno deste motor de turbina a gás para a Rússia e o envio de outros motores para reparo. Outra questão está relacionada com motores defeituosos que estão em estado de inatividade forçada na estação compressora devido a falhas de emergência. A Siemens não está trabalhando para resolver esses problemas", disse Markelov.

Para manter a pressão desejada no Nord Stream, seis unidades de bombeamento de gás são usadas na estação compressora. Para manter a capacidade planejada do gasoduto, cinco turbinas devem funcionar, e uma deve estar em reserva, explicou Markelov. Atualmente, apenas um motor está em ordem na estação, e o resto tem defeitos técnicos ou alcançou o tempo máximo para revisão de fábrica, acrescentou o vice-chefe da Gazprom.

Anteriormente, foi informado que a estação de Portovaya era composta por 8 unidades compressoras de gás, com 5 delas fora de operação. No entanto, a isenção de sanções emitida pelo Canadá fala em revisão de 6 turbinas. O gasoduto Nord Stream 1 utiliza duas linhas separadas que, somadas, tem capacidade de bombear 55 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano diretamente para a Alemanha.

O Nord Stream 2 possui a mesma capacidade, o mesmo traçado submarino e usa o mesmo terminal de gás natural na Alemanha. O novo gasoduto está pronto desde setembro de 2021, mas não começou a operar por motivos ideológicos e políticos. Naturalmente, a Rússia quer enviar o gás pelo Nord Stream 2, gerando a grotesca situação de oferecer um gasoduto novo e gás à vontade, enquanto os países da União Europeia pagam valores muito maiores por gás liquefeito, escasso no mercado e importado por navio, e a Comissão Europeia faz planos de racionamento obrigatório de um produto abundante, prejudicando a população, a indústria, os empregos e a economia.

Nesse contexto, nesta quarta-feira (27), o preço do gás na Europa subiu acima de US$ 2.300 por mil metros cúbicos.

Atualização 28/07/2022

O embargo ao gás russo ameaça o colapso da indústria e o desemprego, disse o chanceler austríaco Karl Nehammer em coletiva de imprensa.

"A posição da Áustria é tal que é impossível introduzir um embargo em relação ao gás. Não apenas porque a Áustria depende do gás russo, a indústria alemã também depende disso, e se entrar em colapso, a austríaca também cairá; enfrentaremos o desemprego em massa", disse o chanceler.

* Com informações da Gazprom, Kommersant, TASS, Financial Times, El País

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