"Devido ao fato de que o gasoduto offshore Nord Stream 2 não está atualmente em uso [...] a Gazprom decidiu usar o excesso de capacidade de transmissão de gás onshore do Nord Stream 2 para o desenvolvimento do fornecimento de gás para as regiões do noroeste da Rússia", disse a Gazprom em comunicado.

A Gazprom apontou que, se a Alemanha decidir comissionar a operação do segmento marítimo do Nord Stream 2, apenas uma de suas linhas será capaz de entregar 100% da capacidade, enquanto a segunda linha para fornecimento de gás para a Europa não estará disponível no mínimo até 2028.

De acordo com o vice-diretor-geral do Fundo Nacional de Segurança Energética da Rússia, Alexey Grivach, a decisão da Gazprom não significa um movimento para abandonar o projeto Nord Stream 2. É justo que, dada a incerteza da Alemanha sobre o tempo para o lançamento do gasoduto, foi tomada a decisão de usar a parte russa de sua infraestrutura para impulsionar o consumo interno, implementar projetos de gaseificação e desenvolver instalações de processamento de gás.

A reformatação da infraestrutura do Nord Stream 2 fornecerá forte apoio ao mercado russo e aos esforços de gaseificação em todo o país – cerca de 30 bilhões de metros cúbicos adicionais de gás por ano estarão disponíveis para consumo interno. É uma quantidade significativa que cria oportunidades para o lançamento de novos projetos de gás, ressaltou Grivach.

O gasoduto Nord Stream 2, concluído em setembro de 2021, vai da estação compressora "Slavyanskaya" no distrito de Kingisepp, na região de Leningrado, na Rússia, até a costa do Mar Báltico da Alemanha. Ambas as linhas estavam preparadas para transportar gás para a Europa, mas a certificação do gasoduto foi interrompida por interferência do Partido Verde alemão, que faz parte do governo empossado em dezembro. Em fevereiro deste ano, por pressão dos Estados Unidos, o projeto foi suspenso. A empresa operadora também foi colocada na lista de sanções dos americanos.

Os Verdes se opuseram abertamente ao novo gasoduto russo e, durante a recente campanha eleitoral, pediram a suspensão de sua construção.

Um adicional de 5,3 Bcf/d (billion cubic feet per day) de gás russo do Nord Stream 2 "certamente sobrecarregará o mercado europeu", avalia Connor McLean, analista de energia da BTU Analytics, acrescentando que os novos volumes provavelmente substituiriam as fontes existentes de abastecimento, refreando uma potencial recuperação das exportações de LNG dos EUA para a Europa.

Embora a Alemanha não tenha instalações de importação de LNG, o fluxo de gás do Nord Stream para a Alemanha ainda poderia conter as importações europeias de LNG devido aos "efeitos indiretos", como reduzir a capacidade da Europa de estocar cargas de gás natural liquefeito, principalmente dos EUA.

O Nord Stream 2 foi lançado em 2015 e a construção começou em 2018. Após uma série de atrasos devido às sanções impostas pelos EUA a algumas das empresas envolvidas – durante quase todo o ano de 2020, a construção foi interrompida quando faltavam apenas 100 km para sua conclusão, o gasoduto foi finalizado a um custo estimado de US$ 11 bilhões.

Embora pertencente à estatal russa Gazprom, metade do financiamento do Nord Stream 2 vem de empresas europeias, como a francesa Engie, a austríaca OMV, a anglo-holandesa Shell e as alemãs Uniper e Wintershall DEA.

LNG

O diretor da consultoria FTI Consulting Emmanuel Grand explica que a segurança do fornecimento tornou-se a principal preocupação no setor, já que a controvérsia do Nord Stream 2 expôs o risco de dependência energética e risco geopolítico.

"Há duas consequências principais para o setor de gás, como resultado da não operação do Nord Stream 2", diz. "A primeira é que o gás será visto como uma fonte de energia menos confiável e mais cara. A segunda é que a segurança da questão do fornecimento está pressionando a indústria a diversificar para outros tipos de fornecimento. O LNG é a escolha imediata que está sendo analisada".

O principal desafio para substituir o gás russo pelo produto liquefeito de outros países é que a infraestrutura – terminais de LNG – precisa ser construída.

"Essa infraestrutura leva tempo para ser construída", diz Grand. "Leva cerca de cinco anos para o processo de liquefação e dois a três anos para a regaseificação".

Segundo estimativas preliminares, o consumo global de gás alcançou 4,2 trilhões de metros cúbicos em 2021. O maior aumento na demanda é observado nos principais mercados da Gazprom: Rússia, China e países europeus.

Terminal em Lubmin, Alemanha, do gasoduto Nord Stream, comissionado em 2011. Foto: © Gazprom
Terminal em Lubmin, Alemanha, do gasoduto Nord Stream, comissionado em 2011. Foto: © Gazprom

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