A empresa também ressaltou que Bulgária e Polônia são Estados de trânsito. “Em caso de retirada não autorizada de gás russo de volumes de trânsito destinados a outros países, o fornecimento de trânsito será reduzido por este volume”, alertou a Gazprom.

A Polônia recebe gás russo através do gasoduto Yamal-Europa dos enormes campos de gás da Rússia no extremo norte do Ártico, que continua a oeste para abastecer a Alemanha e outros países europeus.

O gás russo entra na Bulgária através do gasoduto TurkStream, via Mar Negro. Os fluxos do TurkStream este ano eclipsaram em grande parte os níveis de 2021.

Como os gasodutos Nord Stream e Nord Stream 2, o TurkStream foi projetado para entregar gás russo aos mercados europeus sem passar pela Ucrânia.

O corte de fornecimento à Bulgária e Polônia é a reação mais dura da Rússia até agora às sanções impostas pelo Ocidente sobre o conflito na Ucrânia.

A Gazprom disse que não recebeu nenhum pagamento desde 1º de abril da Polônia e da Bulgária.

"A Gazprom suspendeu completamente o fornecimento de gás para a Bulgargaz (Bulgária) e a PGNiG (Polônia) devido à ausência de pagamentos em rublos", disse a empresa em comunicado.

"Os pagamentos de gás fornecidos a partir de 1º de abril devem ser feitos em rublos usando os novos detalhes dos pagamentos, sobre os quais as contrapartes foram informadas em tempo hábil".

O novo mecanismo de pagamento de gás da Rússia requer que compradores de países "hostis" que tenham colocado sanções a Moscou abram contas de rublos no banco russo Gazprombank. Os compradores então transferirão os pagamentos de gás para o banco na mesma moeda indicada nos contratos [euros], que venderá, na troca de rublos, crédito para a conta de rublos dos compradores e transferirão os fundos para o fornecedor de gás.

O mecanismo visa "evitar que [pagamentos em] dólares e euros sejam confiscados devido a sanções", explicou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, no início deste mês. De fato, nada mudou para as empresas europeias.

Tanto a Polônia quanto a Bulgária recusaram abrir contas no Gazprombank.

O Kremlin disse nesta quarta-feira que outros países que se recusarem a pagar por gás em rublos poderão enfrentar o mesmo resultado.

Em resposta, a União Europeia declarou que oferecerá apoio, embora a Rússia tenha dito que qualquer tentativa de canalizar o gás russo através de outros países para a Polônia e a Bulgária será recebida com novos embargos. Após o anúncio, os preços europeus do gás subiram 20% e o euro caiu ainda mais em relação ao dólar.

Polônia e Bulgária têm redes de energia dominadas pelo carvão. O carvão fornece 45% da energia da Polônia e 37% da Bulgária. Enquanto isso, o gás fornece 17% da energia da Polônia e apenas 6% da Bulgária. Existe a possibilidade de que a Bulgária possa viver sem gás russo, mas se quase um quinto do mercado de energia da Polônia for impactado, terá um efeito negativo sobre a economia.

Mesmo no caso da Bulgária, que não depende muito de petróleo e gás para a produção de energia, eles ainda precisam de acesso ao petróleo para seus veículos. Simplesmente não há como contornar isso: se a Rússia fornece o combustível, eles detêm todas as cartas.

Polônia

A estatal polonesa PGNiG, que comprou 53% de suas importações de gás da Gazprom no primeiro trimestre deste ano, descreveu a suspensão como uma quebra de contrato e disse que busca restabelecer o fornecimento do gás russo.

Na terça-feira (26), o Primeiro-Ministro polonês Mateusz Morawiecki disse que Varsóvia havia recebido notificação da Gazprom sobre a interrupção do fornecimento de gás. Morawiecki fez o anúncio em Berlim após uma reunião com o chanceler alemão Olaf Scholz.

"Recebemos ameaças da Gazprom de que isso [não pagar] impedirá as entregas de gás", disse Morawiecki.

O Primeiro-Ministro polonês disse que a Rússia poderia tentar "chantagear" a Polônia, mas observou que as instalações de armazenamento de gás do país já estão 76% cheias.

A agência de classificação ACRA disse que a Polônia consome anualmente cerca de 19 bilhões de metros cúbicos (bmc) de gás. De acordo com dados da Gas Infrastructure Europe, em 25 de abril havia cerca de 2,68 bmc de capacidade total de armazenamento subterrâneo de gás (UGS) na Polônia. Dessa forma, as reservas de gás nas instalações de UGS do país durarão pouco mais de dois meses.

Morawiecki, um dos oponentes mais expressivos à Moscou, disse que “a Rússia não apenas realizou um ataque brutal e assassino à Ucrânia, mas também atacou toda a segurança energética e alimentar da Europa”.

Bjarne Schieldrop, analista-chefe de commodities do banco SEB, com sede na Suécia, diz que a Polônia "está preparada para reduzir sua dependência energética da Rússia por um bom tempo".

"A Polônia construiu um terminal de gás natural liquefeito que agora está funcionando e recebendo LNG dos Estados Unidos e do Qatar, e em breve terá o gasoduto báltico indo do Mar do Norte via Dinamarca para a Polônia também", disse Schieldrop à Al Jazeera.

A parte mais problemática não é o lançamento do duto submarino, mas atravessar a Jutlândia, onde enfrenta forte preocupação da população local sobre o impacto do empreendimento dinamarquês de 210 quilômetros sobre espécies animais protegidas. A expectativa é que o duto, com capacidade anual de bombear 10 bcm de gás, seja parcialmente comissionado a partir de outubro, e totalmente operacional até 1 de janeiro de 2023, ainda que a construção esteja muita atrasada. A União Europeia forneceu 215 milhões de euros em financiamento.

O terminal também não está pronto. A Polônia quer terminar seu terminal flutuante de gás natural liquefeito em 2025, dois anos antes do previsto.

Bulgária

A Bulgartransgaz disse que o fornecimento para a Bulgária ainda não foi afetado.

A Reuters informou que o armazenamento de gás no país está em 18% da capacidade.

A situação da Bulgária é um indicativo dos desafios que os países europeus enfrentarão para preencher seus estoques de armazenamento antes do inverno.

"Se a Polônia e a Bulgária adotarem mais sanções energéticas suas economias provavelmente entrarão em colapso. Nesse ponto, os países europeus mais poderosos terão de olhar para o caos resultante e ver se querem uma parte dele. Já há indícios de que a Europa está se preparando para fazer os pagamentos em rublo à Rússia. Na verdade, é difícil ver isso acontecendo de outra maneira. O que leva alguém a perguntar: qual era o objetivo de tudo isso? Tudo o que conseguimos foi volatilidade nos mercados de energia e ainda mais inflação", escreve Philip Pilkington em Gas embargoes will hurt Europe (much) more than Russia.

"Talvez a União Europeia possa ser capaz de preencher a lacuna com LNG no curto prazo, mas simplesmente não há gás suficiente para injeção de armazenamento", avalia Yan Qin, analista da Refinitiv.

É provável que os preços do gás permaneçam elevados, um benefício para usinas de carvão, que têm operado em altos níveis. Inúmeros reatores nucleares franceses estão em manutenção e a Noruega enfrenta baixa produção de energia hidrelétrica.

"Minha expectativa é que os altos preços de energia e combustíveis levem a mais destruição da demanda na Europa, à medida que mais industriais serão forçados a reduzir a produção", disse Yan Qin.

Atualização 28/04/2022

O vice-ministro do Interior e Administração da Polônia, Paweł Szefernaker, disse nesta quinta-feira (28) que dezenas de municípios ficaram sem gás liquefeito (LNG) por causa das sanções impostas por Varsóvia à gigante energética russa Novatek.

"No momento, estamos tentando encontrar maneiras de resolver esse problema e retomar o fornecimento de gás para áreas onde o combustível é fornecido por uma empresa russa que caiu sob sanções", disse Szefernaker.

Ele explicou que após a introdução das sanções pela Polônia, a Novatek Green Energy, subsidiária da Novatek, foi forçada a suspender o fornecimento de gás para  dezenas de municípios poloneses.

O ministério não pôde informar as autoridades municipais antecipadamente, uma vez que "as decisões de incluir empresas na lista de empresas cobertas por sanções foram tomadas a portas fechadas", teria dito Szefernaker.

Para restaurar o fornecimento de gás, as autoridades polonesas pretendem confiscar a infraestrutura de propriedade da empresa russa.

De acordo com o vice-ministro do Interior Maciej Wonsik, um grupo de especialistas está preparando materiais para o primeiro-ministro para que ele possa "emitir uma decisão com base na lei sobre a gestão de crises que as empresas polonesas assumam a infraestrutura de gás e forneçam o produto [dos EUA ou Qatar] para essas municipalidades".

Wonsik acrescentou: "É claro que é estranho que esta infraestrutura esteja nas mãos de uma empresa russa".

Esta semana, as autoridades polonesas anunciaram sanções a 50 pessoas jurídicas e pessoas físicas russas, incluindo as empresas Acron, Gazprom e Novatek – que realizaram grandes investimentos na infraestrutura da Polônia.

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