O Brasil importa atualmente cerca de 25% de suas necessidades de diesel, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

A retomada econômica mundial excedeu a capacidade global das refinarias de produzir destilados médios, levando a estoques reduzidos em toda a América do Norte, Europa e Ásia.

As sanções e boicotes aos embarques de petróleo da Rússia, um grande exportador de destilados, especialmente para a Europa, estão limitando ainda mais a oferta.

Deyvid Bacelar, coordenador-geral da FUP, disse em nota que a Índia está exportando diesel para o Brasil, e lembrou que cerca de 80% das importações brasileiras do combustível são de refinarias americanas, que estariam redirecionando expressivo volume do produto para a Europa.

Na avaliação da federação, o uso de diesel no Brasil tende a crescer a partir de junho/julho, "com o aumento da safra agrícola, a maior circulação de caminhões e a esperada retomada do consumo no período pós pandemia", o que representaria um acréscimo de 5-10% da demanda.

"Há possibilidade real de faltar diesel no mercado brasileiro ou do preço desse combustível explodir no País”, alerta o sindicalista.

Bacelar aponta como razões para a crise a não conclusão do segundo trem da Refinaria Abreu Lima (Rnest/PE), a falta de investimentos no Gaslub (ex-Comperj), e a não construção de unidades de coqueamento em algumas refinarias.

A FUP destaca também a decisão do Governo Temer de estimular importações de combustíveis por empresas privadas do setor e o Governo Bolsonaro por manter a medida.

“Essas empresas pressionam por importações e para que o preço interno seja o preço de paridade internacional”, diz o economista da FUP Cloviomar Cararine.

No entendimento de Bacelar, mudar ou abandonar o preço de paridade de importação, o PPI, é questão política. "O PPI não é lei, é decisão do Executivo".

Segundo Sérgio Araújo, presidente da Abicom, a associação dos importadores de combustíveis, as empresas independentes praticamente pararam de comprar combustível do exterior.

Araújo afirma que as importações de diesel e gasolina estão concentradas apenas em Petrobras, Vibra (ex-BR), Raízen e Ipiranga.

Há dois anos, o País tinha cerca de 30 importadores independentes ativos.

"Não há importação de empresas independentes hoje. Não há previsibilidade no preço, e ninguém vai correr o risco de importar e ter o produto encalhado. E olha que o Brasil tem 300 empresas autorizadas a importar combustíveis" afirmou Araújo ao O Globo.

Desde o início do ano, o setor tem enfrentado períodos de defasagem significativa nos valores cobrados. Sem ter a certeza de que a política de preços será mantida, poucas empresas têm fôlego financeiro para fechar contratos no exterior sem saber se a Petrobras estará seguindo regras do mercado ou praticando preços menores quando o produto chegar ao Brasil.

"Antes da guerra, a importação levava 45 dias. Hoje, dura ao menos 60 dias. Antes, o diesel importado consumido no Brasil vinha praticamente do Golfo do México, nos EUA, e hoje estamos importando mais da Índia, que é mais longe", observa o presidente da Abicom.

Para Araújo, o setor precisa discutir a real capacidade de oferta, com a previsão das refinarias, e a demanda esperada para os próximos meses.

Atualização 27/05/2022

Em nota oficial, o Ministério de Minas Energia (MME) prestou os seguintes esclarecimentos sobre a situação do mercado global de óleo diesel e possíveis impactos para o Brasil:

- O MME, atento ao abastecimento nacional de combustíveis, quando do início do conflito que eclodiu no leste europeu, com reflexos na conjuntura energética global, adotou medidas imediatas para intensificar o monitoramento dos fluxos logísticos e da oferta de petróleo, gás natural e seus derivados, nos mercados doméstico e internacional.

- Em 03 de março de 2022, o Ministério de Minas e Energia, em conjunto com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), iniciou a coordenação dos trabalhos de diagnóstico e de acompanhamento dos principais indicadores do abastecimento nacional de combustíveis.

- Em 10 de março de 2022, foi publicada a Portaria nº 623/GM/MME, que Institui o “Comitê Setorial de Monitoramento do Suprimento Nacional de Combustíveis e Biocombustíveis”, de caráter executivo, no âmbito do Ministério de Minas e Energia.

- O Comitê, com base nos subsídios técnicos dos seus membros e convidados, constituiu, ainda no mês de março de 2022, a “Mesa de Abastecimento de Óleo Diesel” para acompanhamento da situação do suprimento desse combustível, que possui papel de destaque na matriz brasileira de transporte e nível de dependência externa da ordem de 30%, com o objetivo de adotar medidas e ações visando à garantia do seu abastecimento, sem prejuízo das atribuições da ANP.

- A Mesa, coordenada pelo Ministério de Minas e Energia, tem a participação da ANP, EPE e associações representativas e agentes do setor, incluindo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Associação das Distribuidoras de Combustíveis (Brasilcom), Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Acelen e Petrobras, reúne-se semanalmente às segundas-feiras, buscando consolidar as expectativas de oferta (produção nacional e importação) com as expectativas de demanda de diferentes prismas e obter diagnósticos mais precisos e antecipados sobre o abastecimento de diesel para os meses futuros.

- Dessa forma, no dia 24 de maio de 2022, no âmbito dos trabalhos da Mesa, o Ministério de Minas e Energia, na qualidade de coordenador do Comitê, convocou reunião, com a ANP e a Petrobras, para esta sexta-feira (27/05), o que não guarda qualquer relação com o expediente endereçado a este Ministério pela Petrobras, datado de 25 de maio, posterior ao agendamento da referida reunião.

- De acordo com os dados mais recentes consolidados pelo Comitê, os estoques de óleo diesel S10 representam 38 dias de importação. Em outras palavras, se as importações desse combustível fossem cessadas hoje, os estoques, em conjunto com a produção nacional, seriam suficientes para suprir o País por 38 dias. Além disso, desde o início da intensificação do monitoramento do abastecimento pelo Governo Federal, a autonomia de óleo diesel aumentou de 30 para 38 dias em termos de dias de importação (aumento de 26,7%).

- Destaca-se que os fatos elencados pela Petrobras em sua carta, como a redução da oferta e dos estoques mundiais de óleo diesel, em função da conjuntura energética mundial, e o aumento da demanda pelo produto, no segundo semestre do ano, são fatos amplamente conhecidos e monitorados pelo Comitê.

- O Ministério de Minas e Energia segue atento aos movimentos do mercado doméstico e internacional, mantendo o monitoramento de forma intensa e constante para adotar medidas tempestivas em conjunto com os demais órgãos governamentais nas esferas das suas respectivas competências, conforme a evolução do cenário.

  • Com informações da Assessoria da FUP, O Globo, Assessoria de Comunicação Social do Ministério de Minas Energia

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